O conhecer e Heinsemberg


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http://universofantastico.wordpress.com/2009/01/25/o-gato-de-schrodinger/

 

 

Até onde o conhecimento nos leva? E enfim, para que caminharmos? A própria caminhada nos ensina a andar e sabermos onde queremos ir ou, pelo menos, onde pretendemos chegar. Com o tempo e com o exercício de andarmos, vamos acumulando experiências, de tal modo que podemos reconhecer os atalhos, as curvas, as subidas mais ou menos íngremes, onde estão os regatos, as fontes, quando temos de mergulhar para atravessar um riacho. Nos movermos em relação ao conhecimento nos torna aprendentes mas, hoje em dia, esse caminho não é algo parecido com a reta que une dois pontos, partindo-se do mesmo plano. Alternativamente, temos vários planos que se fundem, que se atravessam, e os objetivos parecem, muitas vezes, esfumaçar-se. De certo modo, há uma névoa em tudo isso.

A difusão parece reinar em meio aos exercícios que fizemos para buscar algo que entrevemos, em alguma instância do futuro. No entanto, os planos se atravessam, o que é uma característica do nosso tempo atual: fossemos modernos e não pós-modernos, teríamos a certeza de que, trilhado um determinado caminho, atingiríamos um determinado lugar. Hoje vivenciamos instabilidades. Nossa época é francamente de consumidores, e não de produtores, como explicita Bauman. Confundimos situações que estão em mercado com situações que não são passíveis de ser negociadas, conforme lemos em Dany-Robert Dufour (1). A lista é grande e de qualidade. Pessoas que aprendem, mas aprendem o que, por que e para que, talvez essa devesse ser a pergunta mais correta a ser feita, uma pergunta que não pode prescindir de valores (axiologia).

Parece, contudo, que isso não importa muito.

De todo modo, temos de imaginar pontos ou objetivos que se encontram em movimento. Contudo, a incerteza e a instabilidade em um mundo voltado para o consumo nos faz lembrar o que, em 1927, Heisemberg concluía ser o princípio da incerteza, no que trata de física quântica, a das partículas elementares que constituem a matéria. Segundo o mesmo (2),  “É impossível conhecer simultaneamente e com exatidão a posição e o momento de uma partícula.” Por momento entenda-se o produto da massa pela velocidade.

Embora não se investigue a física quântica aqui, podemos traçar alguns paralelos, quando pensamos no conhecimento e, especialmente no aspecto social do mesmo. Estudar é um valor, mas também é algo que visa a melhoria de nossas vidas no sentido prático. Conforme já o diz Domenico di Masi, se duas pessoas virem o mesmo filme, sendo uma delas ignorante e a outra não, sem dúvida não terão assistido o mesmo filme. Sabedoria provinda da experiência. No momento em que não nos arriscamos ao erro, a flutuar entre possibilidades, o conhecimento se afasta, se embarafusta em alguns dos vários planos pelos quais pretendemos vislumbrar melhores possibilidades.

Precisamos, antes de tudo, mesmo antes do objetivo, aprender a valorar. Saber intuitivamente que água é para ser bebida, o que nos leva ao risco de navegarmos entre as incertezas. Para isso se aprende, para nos tornarmos seres mais independentes do que antes éramos. Se não entendemos isso, transformamos o saber em uma mercadoria e a vida nos passará in albis. Pequenos prazeres, os de sempre, não mais que isso, uma vez que não nos dispomos ao risco. Por isso a aprendizagem, seja ela qual for, pode ser mediada por terceiros, mas somente quem aprende consegue corporal e mentalmente aquilatar as transformações que ela ocasionou. Em tudo somos seres encarnados. Mesmo nas buscas metafísicas somos encarnados.

De toda forma, caímos aqui no tipo de conhecimento que interessa. Ele é socialmente desejável, é relevante do ponto de vista econômico, é produtivo, tende à pesquisa e à troca de informações. Esse conhecimento é o que, em tese, faz com que as coisas aconteçam da maneira como acontecem. Faz com que pessoas casem e tenham filhos, faz com que estudem e busquem melhorar as suas vidas, ter um emprego que as valorize, ter o que dizer aos mais jovens, ter efetuado algo socialmente validado pelo discurso médio. Em termos mais estritos, é o conhecimento que interessa aquele que nos leva a perceber o outro enquanto diferente de nós, mas respeitável. É o que nos faz trabalhar em grupo, em equipe, é o que mantêm o status quo, é o que nossos pais gostariam firmemente que fizéssemos.

Nem sempre, porém, é possível vislumbrar tal tipo de conhecimento, pois é necessário que haja uma sutil gradação social, um processo que se dá já a partir das vivências que temos em nossa família, nos grupos sociais em que somos pares, nas ideologias que estão postas como cachos de uvas para serem saboreadas ou cuspidas. Se não conseguimos entender tais situações dentro da multivariedade de planos em que estamos colocados, nossa tendência será a de resistir. E resistir de modo bastante claro e por vezes incisivo àquele conhecimento que nos leva à angústia, a termos de suplantar nossas dores, ao sacrifício do abrir mão de algo para obter o que se espera. O processo de aprendizagem é longo, exige por vezes preços altos e nem todos se dispõem a pagá-lo ou tem a capacidade de renúncia esperada. Nem sempre os objetivos, por outro lado, são claros (aliás, são encobertos na maior parte das vezes). Contrariamente ao que tínhamos como fixado, como erguido às custas de sacrifício para que pudéssemos, mais tarde, desfrutar de uma posição confortável, apresenta-se a realidade como flexível, instável, pontilhista, fugaz.

A sabedoria é encontrar, ao longo de um processo assim caracterizado, uma miríade de pontos de equilíbrio onde possamos nos apoiar, não mais que temporariamente, não mais que rapidamente, não mais que fugazmente. Talvez por isso as profissões de eleição social não tragam, de per si, as vantagens que queremos obter. Verifique-se: os parâmetros utilizados são os dos produtores em época de consumidores, de carreiras plantadas e feitas de maneira unidirecional em época de transições. Nunca precisamos tanto dos outros, pois na medida em que os planos de interseção mudam, igualmente necessitamos que os outros nos alertem dessas mudanças. Não é simplesmente estudar por estudar, mas saber as razões de porque estudamos. Converter o estudo, o processo de ensino e de aprendizagem em um padrão meramente capitalista é uma rematada tolice.

As profissões de eleição social não garantem mais uma real ascenção social, a não ser aquela aliada ao nome institucional. Ser médico hoje é tão-só ser médico hoje, e não mais ser, como há quarenta anos, um deus. Poucos acreditam em deuses atualmente. Talvez nem eles, deuses, acreditem piamente no que são ou deveriam ser. É possível que o parâmetro então deva ser igualmente alterado e é bem mais realista que façamos um investimento em áreas nas quais, além das promessas, possamos ter aquela velha e tão aprazível sensação de que fizemos algo com nossas próprias mãos e nos sentimos felizes por que o fizemos. Que temos habilidade para algo e nos entregamos a esse algo na medida em que nos capacitamos mais e mais no desenvolvimento dessa habilidade.

Não basta, então buscar o conhecimento como se ele fosse um dogma, um castelo, uma universidade reclusa em si própria, como se o conhecimento fosse a garantia de um título, mas sim que o conhecimento nos traga a felicidade de descobrirmos que somos capazes de, que podemos, que a nossa auto-estima não depende da opinião de a, de b ou de c, sejam a, b e c quem forem. É possível então que vivamos em um mundo no qual as materialidades tenham menor importância do que tiveram para os nossos pais. Eles, sim, vivendo em um mundo no qual a segurança material era um apanágio de uma carreira linearmente estruturada, possuíam tal visão do mundo. Hoje, uma visão de mundo atual requer a não-linearidade, a complexidade, a abertura em relação ao outro e às suas diferenças e uma singular presença criativa e de cooperação.

Nada do que se faz, se faz só, mas nada do que se faz em conjunto se faz integralmente em conjunto. Aprendemos sós, mas na presença do outro, na interveniência do outro. Conforme Maturana, não podemos mudar nossos padrões e nem as nossas estruturas. O máximo que o outro pode fazer é perturbar-nos. Em meio a tais perturbações crescemos para um mundo no qual o conhecimento é indispensável. Talvez agora estejamos mais próximos do que nunca do compartilhamento, senão por concessão, por necessidade. Ouçam um músico tocar em duo, em trio, em orquestra. Cada instrumento continua sendo um instrumento, mas o efeito da harmonia é esplêndido. É possível que possamos entender um pouco mais do humano na medida em que nos cerquemos de harmonia.

A música tem muito a ensinar-nos.

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