Pontes necessárias


Amazônia por Macielpaludo

Posted on Wednesday 15 November 2006

Escola de ensino fundamental Chico Mendes, localizada no Bairro Mário Quintana, atualmente conhecido como o segundo mais violento de Porto Alegre, e que atende a uma população carenciada e com altos índices de violência e de necessidades básicas. Os alunos, em sua maioria, vivem em uma comunidade que adota um sistema sexista, discricionário e com base em padrões de violência.

A escola sofre o impacto de estar inserida em meio a uma vila com múltiplas carências, na qual o espaço público representado pelo lindo Parque Chico Mendes passou a ser domínio de gangues, do tráfico e do roubo, graças à ausência do setor público. A Chico Mendes está encravada na Vila Mário Quintana, portanto a maioria do público atendido ou mora na própria vila ou na dezena de vilas, com piores ou melhores condições sociais, que lhe fazem fronteira.

A partir de uma guerra de gangues, a escola teve de adotar, mesmo que a direção seja esquiva, preferindo arriscar a segurança de todos com base numa previsão otimista de que nada ocorrerá, e que os professores, especialmente da noite refutam, alguns dias de toque de recolher às 21 horas. Hoje, quando escrevo este post, já terminou a guerra de gangues, não se sabe se por acordo ou por tiro, mas contabilizam-se cerca de onze pessoas mortas neste período.

Colégio Estadual José Cândido de Godói, localizado em uma transversal da Avenida Farrapos, em Porto Alegre. Sendo escola pública, tem uma localização privilegiada, pois encontra-se em um bairro valorizado do ponto de vista comercial e que conta com toda a infraestrutura e recursos próximos: bancos, rede elétrica, água, comércio, hospital, corredor de ônibus, regularidade de um transporte público fácil, e demais requisitos desejados por muitos e obtidos, proporcionalmente, por poucos.

Os estudantes da Godói provêm de vários bairros de Porto Alegre, e como a escola é organizada, os mesmos tentam ao máximo se educar dentro de um ambiente limpo, bonito e que valorize sua auto-imagem. Em decorrência há um espírito de identificação dos estudantes com a sua escola, que lhes passa nitidamente sinais característicos de ascenção social, revelada inclusive pelos espaços internos da escola e por sua arquitetura, voltada não apenas para o útil, mas para o belo e para a ergonomia.

Entre ambas escolas públicas, Chico Mendes e Cândido de Godói, a primeira municipal e a segunda estadual, há uma diferença abissal, que perpassa a cultura e o ambiente de ambas.  Necessidades atendidas refinam o espírito e minoram ou afastam os temores que aprisionam a humanidade: violência, ignorância, dor, sofrimento. Quando as comunidades não são atendidas convenientemente, não podendo exercer de fato seus direitos sociais, irão buscar suprir seus interesses dentro ou fora do que a normatização social prevê, o que gera mais violência, mais dor, mais caos e menos solidariedade.

Um exemplo claro disso é o espaço público do Parque Chico Mendes, uma área belíssima, com muito verde e com equipamentos para lazer. Uma vez que não haja um investimento público na manutenção do parque e na promoção de atividades que convidem a população a participar, tal espaço será tomado por interesses privados, que vão desde o tráfico até a prostituição.

Dois mundos e realidades paralelas em um mesmo espaço público maior: o da cidade. Transitar em um dos mundos é, não raro, excluir simbolica e efetivamente o outro. Desse modo, se criam e se alimentam as condições para agudizar os problemas sociais já existentes, além de desqualificar o outro enquanto ser identitário ligado a um grupo comunitário específico.

A apropriação da escola enquanto espaço formativo somente ocorrerá em razão do significado que receba da cultura comunitária à qual deve atender.

Não conheço o que não significo ou não me é de interesse.

Inexistindo o reconhecimento da escola enquanto significante, esvazia-se a sua função e o espaço público que deveria originalmente estar voltado para a educação passa a ser apenas um espaço para o discurso retórico, para o encontro social, para a catarse emocional diária.

Por outro lado, as promessas do modernismo no sentido da possível ascenção das classes populares ao cobiçado mercado de trabalho e a uma vida melhor através da escola não encontram mais eco na realidade de uma era pautada pela fluidez, pela especialização, pela alta tecnologia e pelo consumo alienante.

O sólido se desfaz em fumaça a partir da perda da escola enquanto instrumento para ascender socialmente e profissionalmente, em um país onde mais da metade da população em idade produtiva vive sob o mercado informal de trabalho.

Por outro lado, cada vez mais a sociedade do conhecimento requer maiores investimentos na escola pública,o que parece que não é muito bem entendido. Enquanto se discute a didática mais apropriada para resolver questões curriculares, de há muito se sabe que devem ser privilegiadas a criatividade, as possibilidades de uma convivência multiétnica e multicultural pacíficas e respeitosas, aspectos éticos, uma consciência planetária e uma busca pela aceitação do outro e de sua identidade comunitária.

A defesa de tais valores são fundamentais para a sociedade do conhecimento, em uma época em que o racismo, a xenofobia, os fundamentalismos de mercado e religiosos se espalham como ervas daninhas, comprometendo a paz de todos, de modo indistinto.

Quando se percebe abismos entre escolas, retrata-se exatamente o que socialmente ocorre, e estabelecer a ponte entre esses mundos é, no mínimo, uma tentativa moral de convivência entre tais pólos tão distintos do ponto de vista da humanidade e de suas conseqüências.

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