Penso educação


Tenho cinquenta e três anos. Desses, sem dúvida, muitos dedicados ao estudo. Durante esse tempo, tive três filhos, todos homens e estou em meu segundo casamento. Sou professor, o que talvez ajude a ajude a definir minha visão de mundo. Penso. Podia estar em alguma banca (sou advogado), possivelmente recebendo mais dinheiro do que recebo. Gosto mais de ser professor. Socialmente é melhor, em termos de conhecimento é melhor, em termos de formação é melhor. Influo na educação das pessoas e creio que é disso que o mundo mais precisa: educação.

O educador não é um revolucionário, embora assim se comporte muitas vezes; o educador é alguém que está lá, que volta sempre para seus estudantes, haja chuva ou sol. É humanamente comovente ser educador. Ser professor é diferente de ser educador. O primeiro se preocupa mais com os aspectos formais curriculares, com o que o leigo chama de “matéria”, de “disciplina”; professor se preocupa fundamentalmente com “vencer o currículo”. Eu não, eu sou educador, tenho uma visão mais ampla do fenômeno da educação que é bem mais abrangente e maior do que os temas abordados em aula.

A maior parte dos alunos (quisera fossem estudantes) que ora estão aqui provavelmente não se lembrarão, em seus futuros, qual a diferença entre uma equação de primeiro grau e um cálculo algébrico mas, sinceramente, não creio que isso interesse muito. Assim como não interessa muito saber a diferença entre uma frase coordenada sindética e uma frase com ou sem objeto direto. O que importa mesmo é que, na condição de educador eu me empenhe a não criar mais um canalha, mais um sem-caráter, mais uma pessoa sem opções de vida, mais um indivíduo despossuído de senso crítico e amorfa em relação ao seu semelhante. Creio firmemente que o que mais importa na escola seja não apenas ensinar/aprender o que o currículo formal muitas vezes informa e obriga, mas influir na formação de alguém que seja ético, socialmente responsável, e que entenda o que é solidariedade e trabalho em grupo; enfim, seres que agreguem constantemente vivências e valores.

Penso.

Colegas meus são às vezes como os dias: bons e ruins. Como o tempo: apressados em relação a tudo e a todos, ou calmos, reflexivos. Os últimos são os melhores. Alguns são como o contador do Pequeno Príncipe: vêem o mundo como uma sucessão interminável de vantagens e desvantagens, de débitos e créditos. Entendem que, do mundo, somente lhes cabem as vantagens, os lucros, que vão colecionando dias letivos, manuais de embustes, diários de licenças e aproveitamentos, coletâneas de reclamações sem sentido, pílulas de maledicências e pastas de arquivos que contêm um histórico de suas maldades e doenças arrogantes. A escola é um espelho e somos nós aqueles que fazem com que o mesmo reflita nossas próprias imagens.

Penso.

Não basta ter uma formação acadêmica para sermos um educador: a mesma falta de ética que assola alunos vitima professores. De quaquer modo, sempre é possível errar e errar aqui é usado no sentido de caminhar, de procurar, de movimentar-se, de buscar atalhos por aqui, por acolá. Aquele outro erro, o que será avaliado, está em uma esfera do processo de ensino-aprendizagem, outra história.

Minha profissão não mata ninguém, não engrossa o lote de desempregados (pelo menos não os atuais…) e não é por uma interpretação errônea que uma vida é perdida, que patrimônios são ganhos ou perdidos ou que se postergam aposentadorias e se excluem vantagens sociais. Talvez por isso, por não lidar com expectativas financeiras diretamente é que os governos e as sociedades não dêem tanto valor à educação e, especialmente ao educador. Não vêem, cegas, ali, nenhum valor econômico. Conseqüentemente, “todos podem dar aula” e, portanto, meter seu nariz no que não entendem e, por extensão, na escola.

Penso.

Subjetivar o processo ensino-aprendizagem é o necessário. A partir do momento em que o estudo é entendido como meramente utilitário, não existe nem aluno nem estudante; se não é construído um valor inerente à educação, a aprendizagem fracassa. É preciso, é urgente que se dê uma tábua axiológica ao ato de educar, de aprender, de conhecer. De todo modo, seja em uma faculdade altamente tecnológica ou seja no interior do Brasil, em uma cidade da qual nunca tenhamos ouvido falar, sempre haverá um educador que entenderá que educar é conferir valor e significado à formação para o mundo, que buscará que seu estudante possa crescer enquanto pessoa e cidadão. Eu, humildemente, me alinharei aos mesmos.

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