Paulo Freire e o ensino bancário


“É absolutamente essencial que os oprimidos participar do processo revolucionário, com uma consciência cada vez mais crítica de seu papel como sujeitos da transformação”. PAULO FREIRE

Paulo Freire se contrapôs firmemente ao que entendeu por ensino bancário, caracterizado em razão de

(a) transmissão de um conhecimento hierarquicamente disposto, no qual o professor é o centro do processo ensino-aprendizagem , uma vez que “detém o conhecimento”, o que lhe confere o poder de autoridade;

(b) um conhecimento disposto dentro de um currículo fechado e linear, voltado para o conteúdo masivo no qual o aluno não tem interferência, tendo que cumprí-lo passivamente, em regime de subordinação;

(c) conteúdos desintegrados entre si, sem a capacidade de interconexão entre os diversos saberes o que não permite que o aluno estabeleça vínculos entre tais aprenderes e

(d) o aluno, aqui, tem um comportamento acrítico; o conhecimento disposto em níveis deve ser absorvido.

Tal situação lembra uma acomodação em escaninhos, onde as aprendizagens ficam cristalizadas, como em arquivos desconectados entre si, à espera de um possível uso. Utilizando uma linguagem mais atual, o conhecimento ficaria em “stand by”, sem que o aluno – e não raro o professor – tenha a mais tênue idéia de quando e em que circunstâncias utilizará tal conhecimento. Tal ensino bancário segue um paradigma cuja matriz ideológica remonta ao positivismo de Comte, ao funcionalismo de Durkheim. e ao mundo mecânico e preciso de Descartes e de Newton, bem como ao princípio de que a adição das partes explica o funcionamento do todo, na concepção cartesiana. Deste ponto de vista o mundo da precisão, do cienticifismo e do racionalismo estruturaram critérios que irrigaram fortemente a regulação do ensino formal por parte do Estado. A tal cenário podemos acrescendar ainda as influências do industrialismo e do desenvolvimento capitalista, que necessitava de uma mão-de-obra dócil e submissa.

O desenvolvimento de tais referenciais conduziu de modo firme o perfil de uma escola de matriz conservadora, na qual se consolidam as questões de currículo, de tempo para o ensino, de critários avaliativos, bem como de outros padrões que foram socialmente incorporados ao ensino formal, tendo derivado das fontes estruturante já citadas. O primeiro passo para entendermos a realidade é buscarmos suas fontes de organização; um segundo é percebermos de que modo tais regulações sociais privilegiam ou não paradigmas que são fundantes em determinadas épocas e circunstâncias históricas a partir das ideologias que os veiculam; um terceiro passo é a compreensão de que as sociedades, ao se organizarem e adotarem paradigmas de registro e ideologias de privilégio passam, não raro, a naturalizaram uma teia narrativa de tais eixos (paradigmas – ideologias – organizações da sociedade). Tal naturalização se confunde com o poder que emana da tríade acima reconhecida, o que não afasta a possibilidade de movimentos destviantes e contestatórios à hegemonia dada.

No caso da escola, embora a regulação estatal seja um dado de extrema relevância, os posicionamentos e as visões distintas de propostas sociais e de pactos com tendências à redução do conservadorismo criaram uma tensão criativa no sentido de repensar a instituição. Um exemplo foi o papel consagrado à orientação educacional: voltada para o aconselhamento, para as questões vocacionais e para uma precária psicologização, a própria atividade do orientador passou, a partir da década dos anos setenta do século XX, no Brasil, a ter uma postura profissional mais crítica da realidade, optando pela mediação como proposta de trabalho, o que significou um avanço em relação aos momentos anteriores, embora o imaginário (inclusive dos órgãos de gestão escolares) quanto ao papel da orientação permaneça vinculado a uma posição estrategicamente conservadora e mantenedora da ordem da escola (no sentido denunciado por Foucault). Esse imaginário e uma prática por vezes confusa dentro da cultura escolar trazem conseqüencias muito claras quanto aos seus processos avaliativos; de todo modo a ideologia que continua preservando seus bastiões no mundo pós-industrial, buscará resultados que possam ser registrados e medidos, plrivilegiando o qualitativo.

Em outros termos, a aprendizagem é um objeto a ser implementado pela escola como parte de um processo no qual o produto final se chama, do ponto de vista formal, de diploma ou certificação, que é um documento público que declara que o aluno a ou b ou c adquiriu determinadas habilidades ou aprendeu tais e quais conhecimentos. Esses,no caso, serão informados em uma listagem de conteúdos previamente selecionados e a aprendizagem deverá ocorrer em um determinado tempo, que assim passa a ser um índice de produtividade a exemplo do que acontece na indústria.

O que se vê, de fato, é que os parâmetros utilizados até o momento pela maior parte das instituições pode sofrer alterações na medida em que o poder regulador da política escolar assim o permitir, mas que existe um sentido de precisão e de firme normatização das escolas, até porque os interesses estatais ali presentes são mais do que óbvios. Além desses, os de mercado e os desejos do imaginário popular de ascensão social igualmente completam um cenário cuja arquitetura começou a ser pensada há, pelo menos, quatrocentos anos atrás.
Quando Freire denuncia o ensino bancário e prega a problematização como uma das faces que podem levar o homem do estado do estado de acriticismo para o de fundador de sua própria história e agente social de modificação, há bem mais do que mais uma teoria pedagógica. Implica em uma discussão paradigmática que está ocorrendo hoje e da qual não podemos nos ausentar, sob pena de sermos, mais uma vez, atropelados e passarmos a ser consumidores alienados em um mundo no qual ele próprio passa a ser um símbolo de alienação.

Hilton Besnos, 2005

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s