Cumplicidades necessárias


Sou professor de uma escola pública municipal em Porto Alegre, localizada próxima ao Parque Chico Mendes, a EMEF Chico Mendes.

Ali encontramos 23 computadores, dois pátios grandes (um coberto), 4 quadras de esportes, 1 refeitório industrial com ampla área de refeições, laboratório de informática, laboratórios de aprendizagem, de ciências,  de integração de ambiente urbano, biblioteca com aproximadamente 15 mil volumes, oficinas permanentes de dança, tae-ken-do, judô, informática, letramento, música, projeto escola aberta, funcionando aos finais de semana, projeto mais educação voltado para aulas de reforço. Além disso a escola conta com uma sala de vídeo e equipamentos multimidia

A escola possui uma direção e dois vice-diretores – um atuando no turno da manhã e tarde, atendendo o ensino regular e outro no turno da noite voltado ao ensino de jovens e adultos -, além de cerca de 1.300 alunos matriculados, promovendo encontros com a comunidade, recebendo grupos de teatro, promovendo passeios com os alunos e incentivando atividades culturais. Por outro lado, os alunos contam com os serviços de supervisão escolar e de orientação educacional que funcionam regularmente, bem como os serviços de secretaria.

A escola não reprime qualquer manifestação cultural dos alunos e tem um comportamento bastante flexível no que tange ao diálogo comunitário.

Do ponto de vista pedagógico, há cerca de 90 professores trabalhando nos três turnos dos quais, pelo menos 70 % possui cursos de pós-graduação, atendendo a todo o ensino fundamental.  Por fim, a escola possui três pavilhões, há uma área bastante arborizada e, a umas duas ou três quadras de distância, encontraremos a alentada e extensamente arborizada área do Parque Chico Mendes.   O que se percebe é que a EMEF Chico Mendes apresenta uma carta bastante atrativa de serviços não apenas para a comunidade escolar mas também para intercambiar comunitariamente e estabelecer parcerias.

A escola também participa do orçamento participativo da cidade e do orçamento participativo da Secretaria Municipal de Educação. Daqui há alguns dias, em 18 de novembro, teremos novas eleições para a direção da escola. Em tal pleito participam todos os segmentos da comunidade escolar, que é formada por alunos a partir dos 10 anos e que tem direito a voto, por professores, por pais ou responsáveis pelos alunos e por funcionários que trabalhem na escola.

Pois bem. Não raras vezes olhando para os alunos em sala de aula, tento imaginar quanto seria o preço da mensalidade de uma escola desse porte e que apresentasse esses serviços e essas possibilidades de projetos. Se fosse uma escola particular e não uma escola pública. Essa é uma dúvida que em breve vou esclarecer, porque todos os serviços que a escola possui e presta à comunidade são públicos. É, portanto, o povo de Porto Alegre quem banca tais despesas, desde o papel utilizado até a iluminação; desde os serviços até as refeições de qualidade que são servidas diariamente nos turnos de trabalho, desde a dinâmica da gestão até o transporte dos alunos para atividades culturais. Quem paga somos todos nós, cidadãos contribuintes.

Por todo o que se disse, não se encontram problemas que justifiquem dificuldades maiores de aprendizagem. Com as dificuldades rotineiras, a escola vai cumprindo o seu papel. Embora o seu IDEB tenha melhorado sensivelmente, o que se nota é que a relação de aprendizagem não está se dando a contento. Não raras vezes os professores se sentem reféns de conflitos que se estabelecem diuturnamente no âmbito mais sensível da escola: a sala de aula e o desenvolvimento sócio-afetivo-cognitivo. Algo, ali, está emperrado. Alguns motivos são aparentes, outros, contudo, nem tanto. Procurá-los e apontar caminhos, sem paternalismos estéreis e sem culpas comprometidas pode ser um bom início de conversação.

Sem dúvida, há uma cultura a ser modificada, há comportamentos que não se adequam às melhores possibilidades de desenvolvimento de um ambiente educador. Talvez seja necessário, antes que tudo não apenas conversar, mas estabelecer bem mais que compromissos que no mais das vezes se esfacelam. Cumpre estabelecer cumplicidades. No mais das vezes a cumplicidade é bem mais interessante do que uma carta de compromissos. É bem mais fácil romper um compromisso que uma cumplicidade. Quem foi cúmplice sabe disso melhor do que ninguém.

Então, do fundo do coração, desejo que a nova direção, quando eleita, tenha o bom senso e a inteligência de estabelecer,  de modo bastante orgânico, cumplicidades que visem a melhoria dessa carta de serviços.

Amém. Assim seja.

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