Aprendo, viajo, me movo


Estou ensinando potenciação e, após, resolvo fazer uns exercícios para a turma ter mais contato com o assunto. Uma aluna diz: “tá loco?”. A expressão significa que ela não fará os exercícios, entendendo de que basta copiar do quadro e mais nada. Aliás, essa é uma tendência perversa, a de pensar que em sala de aula basta copiar, como se isso fosse um sacrifício supremo, ou – pior! – como se copiar indicasse aprendizagem.

O que deveria ser um sintoma hoje já deve ser tratado como o reflexo de uma ideologia pedagógica que admite a aprovação automática: o professor finge que ensina, mas não ensina, e o aluno finge que aprende, mas não aprende. Ao fim e ao cabo, o professor avalia aquilo que o aluno decorou, sem mudar uma vírgula e o aluno responde o que copiou em sala. O aluno é aprovado, o professor é valorizado, o sistema bate palmas e todos convivem, felizes, mergulhados na mediocridade que os une e congraça.

O fato de não entender como funciona um navio, não me impede de navegar; também não compreendo como setenta toneladas ou mais podem voar a uma velocidade de mais de oitocentos quilômetros por hora e se sustentar a milhares de pés de altura, o que igualmente não me impede de voar. É claro que termos como flutuação, motores, dinâmica, movimento, cálculo, velocidade, altura, além de outros não me são desconhecidos, mas a engenharia que impele o navio e a física que sustenta o avião e que impulsiona o navio são um pouco mais que referências. Sou, portanto, um visitante sempre que navego ou vôo. Tal condição é a mesma que tenho quando circulo em um local do qual não tenho a senhoria ou o domínio. Possuo informações, mas não conhecimento, a capacidade de relacionar, de modo coerente e produtivo as mesmas de modo a ingressar em processo de aprendizagem.

O conhecimento, portanto, se dá através da aprendizagem, e não através da mera informação. Para aprender, devo sair da minha zona de conforto, do que sei, para me relacionar com o que, então para mim, é o não-posto, é o devir; em suma, para aprender, devo por em risco a minha estabilidade cognitiva. Posso receber uma informação de modo crítico ou acrítico, sendo ativo ou passivo em relação à mesma. O conhecimento, contudo, não prescinde da atividade e da instabilidade provocada em relação ao que já sei. A aprendizagem necessita da mobilidade. Por isso aprender modifica o que antes estava posto, dentro de uma perspectiva obrigatoriamente relacional.

Aprendemos quando relacionamos informações e conhecimentos; no entanto tais relações não são estruturas justapostas, como caixas empilhadas em um depósito; antes, é fluída, interdependente, flutuante. O que Freire denominou de ensino bancário é uma estrutura de aprendizagem rígida, na qual as relações entre os conhecimentos não são visíveis; antes, há uma compartimentalização do que se busca entender, uma independência que não permite pontos de contato. O que o mestre propôs foi um ensino libertador, entendendo assim um privilégio relacional que trouxesse significado e especialmente proximidade entre os conhecimentos, e que, portanto, desenvolvesse o sentido crítico do aluno que não deixa, sob qualquer efeito, de ser sempre cidadão e aprendiz. Há uma mediação que perpassa pela aprendizagem e ela se dá através do Outro e do objeto cognoscível como de muito ensinou Vigotsky.

Vivo, aprendo. Vivo me ensinas. Morto, também me ensinas com o que a tua experiência estendeu até mim. Na medida em que iniciamos uma viagem em conjunto, em que nos desestabilizamos e nos comprometemos mutuamente a seguir, convertendo novas paisagens em novos significados, ingressamos em processo de conhecimento. Aprendemos sempre, mas nem sempre aprendemos. Saber o que é relevante e o que não é passa necessariamente por escolhas. Se não há a possibilidade das mesmas, é sinal de quem alguém ou alguma instituição, que talvez jamais conheçamos já decidiu por nós. E, no mínimo é indispensável que tenhamos consciência disso.

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