Não me traumatize, me promova!


Invariavelmente, para uma determinada linha de pensadores pedagógicos, o aluno deve ser isentado do seu próprio desempenho (ou da falta do mesmo). Em tal sentido, além do aluno ser uma vítima contumaz da escola, é irrogado ao sistema de ensino uma burrice exemplar. É o que diz o artigo “O X da questão – Repetência”, de Ronaldo Nunes e publicado na revista Nova Escola, de junho/julho de 2010, da Editora Abril. Valendo-se de estatísticas e de autores autorizados em educação, o articulista inicia dizendo que “Professores, coordenadores pedagógicos e diretores têm a missão de garantir que todos avancem”. Segue então arguindo o enfraquecimento da auto-estima e da perda de estímulo dos alunos repetentes, citando ainda a “demonização” do ensino de ciclos; o mesmo ainda incursiona sobre os regimes de aprovação em outros países e aponta graficamente a posição brasileira de aceitar a reprovação, em torno de 18,7% contra um indice mundial de 2,9%.

Diz ainda que é preciso “acreditar que todos podem aprender”, avaliar constantemente o aluno e oferecer reforço durante o ano letivo para que ele, aluno, progrida, além de implementar políticas de aceleração de aprendizagem que permitam aos alunos “…a correção da distorção idade-série”. Mas, antes de mais nada, é preciso acabar com a idéia de colocar o estudante como o culpado pelo fracasso escolar. In verbatim. A escola só existe para ensinar, conclui o articulista.

Conforme se percebe a aprovação do aluno é algo que deve ser providenciado pela escola, pelo sistema, pelos professores, pelos coordenadores, pelosdiretores, pelos orientadoreset caterva. O articulista só não diz que o aluno é responsável, por igual, pela sua aprovação, também não diz que uma relação de ensino-aprendizagem não se dá como se fosse uma free-way e que há um processo dialógico presente aí. Nada disso é citado. O governo federal, estadual ou municipal deve, então terminar com essa tendência obscurantista pela qual o aluno somente deve ser promovido se souber e provar que sabe o que dele esperam justamente aqueles que são, voltando ao articulista, os responsáveis pelo processo de ensino e de aprendizagem.

A escola, por seu turno, deve dispor de profissionais altamente especializados, de uma cobertura de recursos humanos que lhe possibilite fazer aulas em turno inverso, dar aulas de reforço, enfim, dispor de toda uma infra-estrutura pedagógica que se disponha a cumprir tão valorosa missão, que é a de “garantir que todos avancem”, sob pena de o aluno que repetir de ano fique traumatizado, estimatizado e tenha, talvez quem sabe, aumentada a tendência de abandonar os bancos escolares.

Ora, esse tipo de argumentação contraria a realidade. Nós todos,  ao longo de nossas vidas, tivemos perdas, lutos, desilusões, desenganos e muitas vezes fomos à superação pessoal compelidos pelas circunstâncias a nos movermos para buscar uma situação melhor, se não de progresso material, mas de uma maior proximidade social com os nossos grupos de afeição e de interesse. Se não tivermos disciplina para isso, se não tivermos um senso de que a educação não se dá por benesse ou por  concessão e que o fato de “rodar” um ano na escola não é algo tão terrorizante, estaremos, sim, promovendo uma anomalia. Estaremos criando pessoas para o direito, mas não para a obrigação. Estaremos criando pessoas que poderão ser acríticas, mas que sempre terão quem pense, quem resolva por elas no sentido de minimizar-lhes os eventuais prejuízos.

O papel principal da escola é fazer pensar; se há distorções, bem, que busquemos melhorar o ensino, que busquemos soluções alternativas. No entanto não penso que aprovar alguém que não tem condições ou intervir nas escolas para predizer que um determinado grupo de alunos deve ou não ser agraciado com uma aprovação absolutamente desmerecida, façam parte de tal alternativa. Minha sociologia não chega a tanto, e meu senso de oportunismo muito menos.

Aprender é compartilhar, caso contrário estaremos fazendo uma exclusão intrasistema. Por outro lado, o articulista ainda diz que as reprovações trazem ao Brasil um prejuízo de dez bilhões de dólares/ano. Mas, nesse ponto, não deveria se preocupar tanto. Vencedora sua tese pedagógica, os custos com a educação deverão ser bastante minorados. Afinal de contas, não há burrice na qual um bom diploma não dê jeito.

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