Alfabetização e letramento


FAPA/2003

P.  Márcia Amaral Correa

Alfabetização e letramento

Hilton Vanderlei Besnos

Parte I

Resumo comentado


A respeito de alguns fatos do ensino e da aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças na alfabetização,

de Luiz Carlos Cagliari

 

Sistemas de escrita


Critica procedimentos pré-determinados na construção do conhecimento; o que interessa são os conhecimentos já incorporados ao sujeito, por influência da cultura ou elaborados criativamente pelo próprio pesquisador. O autor faz um paralelo entre o trabalho de pesquisa de um cientista e o da criança no sentido de decifrar os sistemas de escrita, sua estrutura interna e sua organização externa. Ressalta a importância de registrar os caminhos das descobertas parciais até a decifração total do sistema.

A escola dá maior importância ao processo de ensino do que a aprendizagem, que é individual e solitária. A escola ignora os conhecimentos anteriores dos alunos e os submete a um esquema rígido (métodos de cartilhas, por exemplo) onde o que importa é o processo de ensino e não a aprendizagem.

As cartilhas não levam em conta o processo de aprendizagem, mas sim o processo de ensino. Suas avaliações buscam aferir se o processo de ensino está dando certo, mas não se a aprendizagem está dando certo. As cartilhas são diretivas e quando retiradas trazem desorganização e indecisão quanto ao pensar do aluno. Já o processo de aprendizagem, baseado na exposição pelo aluno de suas idéias, preserva sua iniciativa  em realizar trabalhos que serão analisados e cujo feedback sempre terá por referência não métodos de ensino, mas sim as situações individuais de aprendizagem.

O ideal seria o equilíbrio entre os processos de ensino e de aprendizagem

Papel do professor.


O texto critica tanto a postura laissez-faire -que alguns entendem absurdamente ser um paradigma construtivista – quanto ao dirigismo centralizador.“Não é só o professor que é um mediador entre uma atividade e um aluno que aprende, mas os próprios alunos podem ser mediadores uns dos outros, quando trabalham juntos e compartilham seus conhecimentos.” (pg 68)


Aqui, entendemos observar claramente Vygotsky. Assim, há um incentivo a interação social como parte do processo de aprendizagem. O professor deve conhecer o aluno com base em conhecimentos técnicos específicos, detalhados e completos acerca daquele, do que pretende ensinar e do que o aluno pretende aprender.

A questão do realismo nominal


Qual palavra é maior: boi ou formiga?

Primeira posição: a criança diz “boi” porque só sabe pensar a linguagem ligada ao mundo material. Dessa posição se origina o realismo nominal.

Segunda posição: toda palavra pode ser entendida ou pelo significante (sons) ou pelo significado (semântica). Guiamo-nos mais pela semântica, portanto a resposta “boi” é normal e lógica.

A pergunta acima é falha, pois palavras não tem tamanho; quem tem tamanho são as representações gráficas e codificadas da língua. Como diz o autor, “a pronúncia e a escrita são concretas…a  palavra é imaterial e, como um conceito – diferente de uma imagem, é totalmente abstrata.” . Os professores deveriam saber disso.

A questão da silabação.


O autor critica o fato de que crianças que representam sílabas por caracteres isolados sejam classificadas como pré-silábicas. Para o letramento elas são pré-letradas.  O autor demonstra que as crianças não escrevem atribuindo uma letra a uma sílaba,  mas sim em razão de como elas verificam as “saliências fonéticas” de uma palavra; por isso, muitas vezes as mesmas não conseguem explicar porque escreveram duas palavras distintas da mesma forma, ou não conseguem explicar porque escrevem a mesma palavra de formas diferentes. A explicação é que baseou-se nas saliências auditivas e articulatórias das palavras e não na silabação.

Da escrita alfabética e da ortografia.


A escrita alfabética é transcrição fonética, mas o nosso sistema de escrita é ortográfico; se não fosse assim, cada qual poderia eleger sua própria forma de escrever, pois uma mesma palavra poderia ser escrita orientada pelo local onde a pessoa nasceu, por dialetos diferentes, pelos costumes etc. Isso não acontece porque nosso sistema é ortográfico; seguir a escrita alfabética não garante correção do pontoo de vista linguístico.

O sistema é ortográfico.


O sistema exige que a palavra esteja formal e ortograficamente orientada, o que traz uma diferença marcante entre  a fala e a escrita. O sistema ortográfico cria relações complicadas entre o som e as letras. As crianças tentam escrever da maneira que falam, o que é natural, mas esbarram no formalismo da ortografia. “Ezemplu” é um exemplo.

O meio cultural e influências sociais onde estão as crianças funcionam como paradigmas iniciais, seja em relação ao universo da  leitura, seja em relação as possibilidades de escrita.

Leitura incidental e leitura literal


Quando lemos, fazemos não só com a decodificação do código fonético, mas emprestamos a leitura nossos sentimentos acerca de uma semântica que integra um texto. Assim, há basicamente duas situações apostas: ou lemos uma palavra (e aí teremos uma tendência maior a dar um valor fonético às letras) ou lemos um texto (desimportando do seu tamanho). No segundo caso, quando a criança está aprendendo a ler, é comum que ela coloque no texto a projeção de seus próprios sentimentos, sejam de aversão ou de compartilhamento companheiro ao que está aposto. Por isso, terá uma tendência a ler “apropriando-se do texto” (como diria Freire) e recriando-o dentro dos seus parâmetros de entendimento. Por isso, a leitura não será literal, mas estará carregada da intencionalidade semântica do texto, reelaborado pelo leitor aprendiz na conformidade de suas experiências, sua motivação, suas expectativas e sua história dentro do contexto da leitura proposta.

Em razão de tais fatos, a criança poderá muitas vezes não restringir-se ao texto literal (regra que internalizará mais tarde quando se der conta do aspecto formal e público da leitura com base ortográfica orgânica) o que poderá fazer com que tenha dificuldades para “encaixar” sua leitura as palavras que estão contidas no texto original. Para alguns professores, então, essa criança terá “dificuldades na leitura” ou não saberá ainda “demonstrar fidelidade ao texto”; esse tipo de interpretação ocorre porque aquele desconhece ou não está suficientemente informado quanto ao caráter de construção desatado pelo aluno, bem como o fato de que o aluno está, sim apreendendo o texto, mas o faz dentro de seus parâmetros pessoais, conforme citado. O aluno está sendo criativo e o professor está entendendo que ele tem dificuldades de aprendizagem.

Em verdade, ao dizer que o aluno tem dificuldades de aprendizagem, na verdade o professor quer dizer que o aluno tem dificuldades no processo de ensino, e não no de aprendizagem. Ou, por outro lado, o aluno não está reproduzindo o que a cartilha diz…

Parte II Comentário em relação ao texto e dificuldades relacionadas 


O texto desloca a aprendizagem como dependente do processo de ensino. Afirma que muitos aprendem a despeito da escola, do método ou do professor. Também critica avaliações que tendem muito mais a verificar questões ligadas a reprodução do processo (aqui entendido como método) de ensino  do que a aprendizagem.

Um ponto crítico é a capacidade que a escola possui de zerificar o conhecimento prévio das crianças e ignorar o que ela já tenha adquirido de experiência nas trocas mediadas com o meio em que vive, tentando começar tudo do zero a partir de soluções artificiais que ignoram as potencialidades individuais.

Quanto ao desenvolvimento, pelas crianças, da aquisição não só da estrutura alfabética mas do entendimento da leitura e da escrita, o autor realmente lança luzes ao oportunizar entendimentos distintos do que faz regra a psicogênese da leitura escrita.

Entendemos que o autor sugere inexistir determinismo ou reducionismo no aprender e que este deve ser visto dentro de uma ótica individual, ressaltando que devem se conhecer o professor,  o aluno, bem como o que deve ser ensinado e o interesse do aluno quanto ao seu próprio aprender.

Minhas considerações.


Aprendi muito com esse trabalho, especialmente que a aprendizagem deve ser contextualizada no universo em que se trabalha, e que ignorar ambos os processos, de ensino e de aprendizagem e suas relações obstaculizam um desenvolvimento mais orgânico dos aprenderes e prejudicam uma visão mais clara dos caminhos próprios dos alunos na busca do conhecimento.

O aluno é um ser que historiciza sua própria existência.

Parte III – Relação com a prática observada


Quanto ao observado em relação a prática de observação junto ao EJA da EMEF Chico Mendes, entendo que é necessária uma educação continuada por parte dos profissionais do ensino, o que não é muitas vezes oportunizada pelo sistema público. Injusto criticar o trabalho fecundo da professora, com larga experiência em alfabetização; uma boa parte da sua clientela porta situações de aparente déficit de aprendizagens e que mereceriam maior atenção da mantenedora.

POA,  julho de 2003.

Hilton Vanderlei Besnos

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