As mãos que empunham o texto: por uma leitura significativa


 

As mãos que empunham o texto: por uma leitura significativa


Maria Lúcia Moreira Gomes

Maria Lúcia Moreira Gomes é Professora e Coordenadora de Letras da UNIVERSO Campos/ Professora do CEFET Campos. Mestra em Cognição e Linguagem pela UENF

A leitura parece ser um simples detalhe no meio educacional, uma necessidade intrínseca ao ato de estudar e aprender. Talvez seja esta banalização da leitura que tenha feito dela um ato mecânico e desprovido de qualquer sentido, ou seja, desprovido do verdadeiro sentido que uma leitura significativa deve ter: atribuir acepções, estabelecendo elos com o conhecimento de mundo.

Muito mais do que um mero mecanismo de decodificação e ativação dos conhecimentos, a leitura deve ser um processo interativo e de compreensão do mundo. A vivência como educadores nos dá conta de que está cada vez mais difícil a escrita e a leitura “corretas” em sala de aula, e isso se estende, o que é mais grave, até o nível universitário. Lê-se mecanicamente, lê-se sem atribuir significados, construindo um mero decodificar de letras e signos. O professor, por outro lado, acaba aferindo notas e medindo o ato de ler pelo simples falar compassado e entoado, conforme critérios estabelecidos e, se esse é regular, aquele dá por encerrada a leitura, até que ela possa ser avaliada num próximo dia.

Perde-se, dessa forma, o verdadeiro objetivo do ato de ler, medindo-se constantemente a capacidade de alfabetização daquele aluno. Onde fica então o estabelecimento de elos entre o mundo que se vive e aquilo que se lê, ou seja, sua competência no “letramento”, termo largamente explorado por Magda Soares? E a reflexão, e o despertar do senso crítico, tão falado em livros e congressos sobre leitura e educação global? Pior do que alunos despreparados para a leitura, em seu verdadeiro sentido, estão os professores, perpetuando uma automatização de gestos e pensamentos, deixando distante a capacidade de formar cidadãos críticos e integrais, termos já tão desgastados pelo uso.

Paulo Freire, em uma das inúmeras assertivas que lhe valeu a imortalidade na educação, dizia que “a leitura de mundo antecede a leitura da palavra”. Isto já se faz longe, muitos falam de seus conceitos e de sua coragem em imprimir mudanças, com o pensar crítico que o caracterizava; os congressos em educação fazem largo uso de suas palavras e lá fora, nas salas de aula, perpetua-se a prática estruturalista da leitura e da produção de textos, descontextualizando texto e vida.

Se nos detivermos num livro que ouse ensinar prática de leitura em sala de aula, encontraremos os inúmeros equívocos estabelecidos. O foco está na capacidade de articular corretamente os fonemas, na pontuação correta, no ritmo empreendido e é só. Acabada a tarefa de ler, o livro é fechado, ou se trabalhado, perguntas como: “o que o autor quis dizer com…” ou “quais e quantos são as personagens da história” limitam a “análise” do texto. E a tão falada contextualização fica a cargo, equivocadamente, das perguntas de gramática, que não mais desfocadas de um texto, como modernamente se prega, aparecem assim: “Na frase (l.5) ‘ Júlio não parecia concordar com a idéia’, quem é o sujeito?”

A escola parece priorizar os aspectos gramaticais, transforma as aulas de leitura em pretextos para o estudo de questões normativas, e deixa de lado a constituição de possíveis significados do texto que não estão estabelecidos no nível mais propriamente microestrutural do texto. A linguagem é vista de maneira mecânica, de forma que os segmentos menores se juntam para formar os maiores.

Não sabemos, na verdade, a quem atribuir tantos equívocos na práxis educacional, mas, com certeza, uma vontade imensa de acertar norteia as ações docentes, ao lado, é claro, de uma profunda ignorância do que seja o verdadeiro papel de um educador. Afinal, oprimido pelo novo e diferente, pela obrigação de ser bom, criativo, atual, informado, o professor não conta com quem lhe diga como fazer, mas o que não fazer, atitude que lhe impossibilita a concretização de tantos desafios.

O desafio da leitura está na busca de significações que ultrapassam as superfícies do texto, reconhecidas por qualquer pessoa treinada para ler, o que significa apenas um nível do texto, mas, sem dúvida, o que se quer é muito mais e esse mais se encontra nas diversas possibilidades de contextualização com o real que um texto pode suscitar e daí uma série de reflexões pertinentes podem ser efetuadas para imprimir mudança de comportamento, o que a nosso ver, constitui a verdadeira aprendizagem.

Diante deste cenário de mudanças pela qual passa a escola no que diz respeito à postura que o professor deve ter diante do aluno, de si mesmo e do conteúdo a ser ministrado, preocupamo-nos com a falácia que leva a lugar nenhum. Pouco ou nada se tem feito para tornar a aprendizagem atraente e despertar no aluno a consciência de sua existência enquanto sujeito, agente de transformações. Perpetuamos a história de alienação enfocada na obra “O nome da rosa”.

Coloca-se o professor ainda no pedestal da educação, assumindo um poder justificado pelo pouco conhecimento que tem e ignorando, pelo menos, dois dos direitos imprescindíveis do aluno, propostos por Penac (Perrenoud, 1994): o direito a só aprender o que tem sentido e o direito de existir como pessoa.

Como se não bastasse tudo isso, o mundo globalizado está sendo desenhado, tecido, sonorizado, colorido e agitado por um complexo fenômeno de elementos convergentes e contraditórios. Redes de signos são formadas numa comunidade que pode, a todo momento, reorganizar massas de informações disponíveis on-line, por meio de conexões transversais e simultâneas. É a inteligência coletiva, conforme afirma Pierre Lévy (1998), que está se contrapondo à cultura verticalizada na qual vivemos até então.

O descaso com a gramática, a disseminação de termos de informática, a economia de caracteres digitados implica diretamente a forma de escrever dos alunos em salas de aula convencionais e uma conseqüente revolta por parte do professor que, por diversas razões, coíbe essa prática, numa luta constante pela conservação da linearidade e pureza da língua.

Ouve-se constantemente a revolta dos mestres diante do texto que já vem pronto da Internet, da falta que faz o livro, do aluno que não lê mais e, portanto, cada vez mais ignorante. Não percebe o professor que, fazendo uso da força contrária ao irreversível, ele perde tempo e não faz dos recursos que condena aliados de sua prática, discutindo com o aluno, sedento de saber e de reflexões, questões próprias de seu tempo.

Conforme abordagem de Pierre Levy (1998) a tecnologia é pharmacon, ou seja, nem veneno, nem remédio, mas aquilo que se fizer dela.

No trabalho com o curso superior nas Universidades, percebemos a carência existente nos alunos no que diz respeito a um maior aprofundamento no conhecimento de sua própria língua e como lhes foi incutida pela vida afora a prática de uma língua portuguesa correta e exemplar, não lhes dando sequer abertura para a aceitação de seu uso coloquial.

É preciso, antes disso, observar e discutir essas mudanças que acontecem no mundo da linguagem, fazendo vê-las como inerentes a uma evolução natural da língua e como a leitura reflexiva é imprescindível nesse processo.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica (Coleção Linguagem e Educação), 1998.

ORLANDI, Eni P.”A leitura proposta e os leitores possíveis” In: _ (org.). A leitura e os leitores. Campinas : Pontes, 1998.

LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. São Paulo: Ática, 2003

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo : Ática, 1997.

KLEIMAN, Angela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas:Fontes, 1997.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo : Autores associados/Cortez, 1987.

Pulicado em 06 de novembro de 2003.

Fonte: http://www.icoletiva.com.br/icoletiva/secao.asp?tipo=artigos&id=76

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