Influência social da alfabetização: competência e exclusões


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FAPA/2004

Profª Maria Costella

Influência social da alfabetização: competência e exclusões

Porto Alegre, 10/06/04

 

Hilton Besnos

Introdução.

Vivemos em um mundo fragmentado, simbólico e complexo. Fragmentado não somente no sentido do conhecimento, mas também quanto às instituições e aos relacionamentos, sejam interpessoais ou formais. Simbólico porque somos inundados por signos, ícones e  linguagens que muitas vezes não se revelam diretamente, mas se constroem e aos seus significados na cotidianiedade do mundo midiático e estético. Complexo porque as relações de produção e as relações sociais cada vez mais são dependentes e porque igualmente estão em franca dependência as políticas macroeconômicas dentro de um processo de globalização.

Dentro de tal mundo complexo um fator primordial é a educação, que serve como acesso privilegiado a esse mundo mutável e com consideráveis modificações paradigmáticas. Assim, a educação é um elemento diferenciador para o entendimento crítico desse mundo mobile e de suas mediações.

Inserta no processo de intencionalidade educacional encontramos a alfabetização, ou seja  domínio não só da leitura e da escrita, mas especialmente o entendimento e a significância das narrativas diversas com as quais o homem estrutura sua história pessoal e constrói sua criticidade.

Apreciar essas aquisições e termos uma visão sociológica da alfabetização é que move este trabalho, estendendo-se às apreciações sobre outros aspectos no que concerne a real aquisição de uma cidadania participativa, do qual o processo educacional é um dos principais vetores.

O sentimento de desfiliação. O não-pertencimento.

A impressão geral que acode o homem é a de desfiliação, de não-pertencimento. É claro que existem laços que se pretendem regionalizados e mesmo pessoais – família, estado-nação, cultivo de determinadas crenças e costumes, valores morais e éticos, patriotismos, nacionalismos etc, mas mesmos  esses são passíveis de fluidez.

O sentido de não-pertencimento radica num complexo de situações dentre as quais podemos apontar (a) a degradação do estado de bem-estar social (welfare state) e o conseqüente processo erosivo dos direitos sociais, (b) a impossibilidade do atendimento demandado pela sociedade, por parte das instituições do estado-nação, (c) a mudança dos modos de produção industrial pós-fordistas e (d) as novas formas de trabalho e de produção e suas desregulamentações.

Tal desfiliação inclui aspectos ligados a alteração do sistema de crenças e de modos pelos quais as pessoas resolviam seus problemas ou mantinham seus entornos sociais, bem como a tentativa de generalização e homogeneização da cultura e um forte apelo ao mundo do espetáculo e do consumo alienante, características das ideologias neoliberal e neoconservadora, cuja face econômica e política é a globalização de mercados, de serviços e de instâncias culturais.

Segundo TOURAINE (1998) esse sentimento de desfiliação provoca no homem duas atitudes básicas: (a) a alienação ao mercado, ou seja, isolando-se  em um nicho sem caráter identitário próprio ou (b) passa a ser um ativista convicto, muitas vezes mesmo perdendo o foco de seu ativismo. Alternativamente pode ingressar em alguma sociedade com caráter rígido no que tange a sua estruturação. De qualquer modo, busca, especialmente no segundo caso, afirmar sua identidade, podendo alinhar-se ideologicamente ou ao multiculturalismo ou à homogeneização cultural. Existe uma terceira via, que é a da hibridização cultural, em movimentos de complexidade cada vez maiores.

O homem consome-se dentro de uma semântica simbólica.

O homem passou a ser considerado basicamente um consumidor, e seu nível econômico e aquisitivo um parâmetro no qual é inserto ou não no processo produtivo, operando restrições ou benefícios quanto ao acesso a bens culturais, de saúde, educação e de possibilidades financeiras e de habitação, além de outros privilégios estéticos e profissionais.

Habitamos um mundo altamente matematicizado e codificado; dependemos de nossa capacidade e habilidade de lidarmos com o simbólico e o abstrato. As tecnologias forçaram novas releituras de tais continentes e contingências e o homem teve de se adaptar às mesmas. É possível que nossos conterrâneos dos séculos imediatamente anteriores tivessem dificuldades para entenderem e se movimentarem dentro de tais entornos sociais e tecnológicos.

Cartões de crédito e de débito, sociedade de informação e as tecnologias de comunicação, um mundo promovendo o espetáculo, ingressos, internet, placas de trânsito, cartões de benefícios estatais, acessos eletrônicos às caixas bancárias, fichas de ônibus, preenchimento de modelos, simbologias de caráter mundial, celulares, aviões, telex, fax, máquinas de lavar, de passar, ônibus, corredores de  trânsito, agrobusiness, plotters, enfim há uma multiplicidade que não somente é escrita mas especialmente deve ser entendida.

O signo criou uma linguagem própria, advinda especialmente da explosão tecnológica havida a partir da segunda metade do século XIX, representando uma abstração na qual o homem passou de criador a criatura, sendo

“…arrastado cada vez mais velozmente por forças que foram originariamente criadas por ele. Nesse torvelinho desenfreado, ele pensa, calcula, trabalha com abstrações cada vez mais afastadas de sua vida concreta.” (FROMM, 1985) .

Importa situarmos o homem historicamente, embora tenhamos a convicção que o processo de globalização não é uniforme nem traz as mesmas conseqüências a todas as áreas e perspectivas sociais. Contudo, muitas vezes o embate local x global passa despercebido, mas é relevante sabermos que há sempre um viés ideológico agregado aos movimentos políticos-econômicos e suas conseqüências sociais, que não raro se dispersam nos fazeres do cotidiano.

Aqui  abordaremos a alfabetização e suas conseqüencias hominizadoras e para as alteridades sociais imbricadas nessa discussão.

Alfabetização ou alfabetizações: uma leitura de mundo.

TORO (1997) aponta em seu Código da Modernidade as competências e habilidades mínimas para uma participação produtiva no século XXI. Devemos entender  “competências e habilidades” no sentido de capacitar o homem a mover-se e decidir de modo eficaz dentro de um mundo com as características acima esboçadas.

Dentro desse codice encontramos como primeiro ítem o domínio da leitura e da escrita; como segundo a capacidade de fazer cálculos e de resolver problemas; como terceiro a capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados e situações; como quarto a capacidade de compreeender e atuar em seu entorno social; como quinto receber criticamente os meios de comunicação: como sexto a capacidade para localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada; sétimo a capacidade de planejar, trabalhar e decidir em grupo.

Em entrevista à revista NOVA ESCOLA ON LINE (2002, jan. fev., Ed. 149, ) TORO acrescentou uma oitava competência que seria a de criar no estudante uma mentalidade internacional.

“Quando esse jovem chegar à idade adulta, seu campo de ação não será apenas o bairro ou a cidade: será o mundo.” (TORO, 2002)

Além do domínio da leitura e da escrita, TORO descreve ainda a leitura da imagem, ou seja, o deslocamento do escrever para o de descrever uma semântica coerente com os sistemas de comunicação atuais, nos quais a imagem tem uma valência própria e fundamental.

A alfabetização  tem implicações que perfazem um limite inicial entre a inclusão ou a exclusão social. Resta claro que a mesma além de ser um direito a ser suportado pelo estado, não possui uma face somente individual: não. Trata-se também de uma estratégia do estado-nação, de um imperativo para que o mesmo possa manter e desenvolver sua cultura própria e criar um mecanismo eficaz para a melhoria de qualidade de vida de seus cidadãos, qualificada basicamente pelo acesso aos bens culturais e de consumo e pela satisfação profissional.

Não se trata apenas da alfabetização no sentido de decodificar os signos da língua escrita ou mesmo da construção frasal: é necessário que o educando entenda o significado do que lê e consiga aportar suas idéias e convicções por escrito,  conferindo significância ao aprendizado.

Atualmente se fala ainda de uma outra alfabetização considerada fundamental para uma movimentação eficiente em nosso contexto social: a matemática, onde entende-se leitura no sentido da compreensão e do escrever tal linguagem, como ocorre nas séries iniciais de escolarização. Há então uma abrangência cada vez maior em referência à alfabetização e suas conseqüências sociais e interpessoais.

Por outro lado, a alfabetização pode ser entendida dentro de dois grandes movimentos: o construtivista, baseado nas experiências de Ferrero e Teberovsky, com apoio na teoria genética piagetiana, e a teoria do letramento.

A teoria da psicogênese de Ferrero.

A psicogênese da língua escrita estriba-se nos trabalhos de Piaget e especialmente nas pesquisas efetivadas por Emilia Ferrero. A aquisição da representação escrita da linguagem tem sido tradicionalmente considerada como uma aquisição escolar. Contudo o conhecimento tem início, contudo, no período pré-escolar e também a aquisição da língua materna.

Há uma evolução da escrita na criança que é influenciada pela ação das instituições educativas, que muitas vezes apenas dá atenção ao seu próprio formalismo. Isso significa que a escola adota, não raro, uma representação excludente, a partir do momento em que trata o conhecimento previamente adquirido como inexistente e aplica um formulismo tradicional no encaminhamento das questões da aprendizagem.

Para os adeptos da psicogênese há etapas sucessivas que se interligam em termos de mecanismos constitutivos que justificam a seqüência dos níveis sucessivos. A estruturação piagetiana vem daí, no sentido de que existem estádios de compreensão e de aquisição da escrita, devendo tais estádios conformarem-se com o desenvolvimento psico-motor da criança.

Da mesma forma com que Piaget classificou diferentes fases dentro do crescimento, igualmente tais fases seriam reproduzidas dentro de uma estrutura voltada para a alfabetização.

O quadro abaixo sintetiza o acima formulado. Contudo, achamos desnecessário aqui desenvolvermos a teoria piagetiana da psicogênese, mas sim demontrar a compatibilidade afirmada entre a mesma e a teoria da psicogênese da língua escrita, cujos trabalhos foram desenvolvidos especialmente por Emilia Ferrero.

Emília Ferreiro Piaget
Pré-silábica

Silábico

Silábico-alfabético

Alfabético

Sensório motor (zero a dois anos)

Pré-operatório (dois a sete anos)

Operatório concreto (sete a doze anos)

Operatório formal (doze e acima de doze anos)

Habitando e entendendo o mundo letrado.

O letramento implica mais do que a apropriação do código escrito, porque a proficiência em tal área traz implicações enormes a auto-imagem e à participação social do indivíduo no meio social.  Não basta aqui a mera apropriação, nem o “saber ler e escrever”; mais que isso implica no uso da tecnologia da escrita e da leitura para situar-se e compreender o mundo através de uma prática consciente e contínua, aumentando o grau de criticidade a partir do momento em que estrutura seu discurso.

A palavra “letramento” tem origem na palavra inglesa “literacy”. Contudo o letramento em verdade  é o estado que o indivíduo ou o grupo alfabetizado passam a ter sob o impacto de tais mudanças em suas próprias vidas e na vida social e comunitária.

“Implícita nesse conceito está a idéia de que a escrita traz conseqüências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, lingüísticas, quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o indivíduo que aprenda a usá-la. Em outras palavras: do ponto de vista individual, o aprender a ler e escrever – alfabetizar-se, deixar de ser analfabeto, tornar-se alfabetizado, adquirir a ‘tecnologia’ do ler e escrever e envolver-se nas práticas sociais de leitura e de escrita – tem conseqüências sobre o indivíduo, e altera seu estado ou condição em aspectos sociais, psíquicos, culturais, políticos, cognitivos, lingüísticos e até mesmo econômicos; do ponto de vista social, a introdução da escrita em um grupo até então ágrafo tem sobre esse grupo efeitos de natureza social, cultural, política, econômica, lingüística. (…). Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), a aptidão para ler e roduzir textos – dos mais variados gêneros e temas – com proficiência é o mais significativo indicador de um bom desempenho lingüístico e, conseqüentemente, de letramento. Um escritor competente deve, portanto, saber selecionar o gênero apropriado a seus objetivos e à circunstância em que realizará seu discurso.” (BONAMINO, COSCARELLI et FRANCO, 2002)

Assim considerado, o letramento é mais que um movimento de alfabetização porque embora entenda a aquisição da leitura e da escrita como uma apreensão eficaz de uma tecnologia própria, estende sua atenção às nuanças políticas e sociais e de um quefazer crítico, preocupando-se com o discurso e com a capacidade de mobilidade que o aprendente tenha em razão do mundo simbolico e letrado onde se insere.

Também de considerarmos que, em assim ocorrendo o letramento opõe-se energicamente ao conceito de analfabetismo funcional. Aqui, é de dizer-se que o analfabetismo funcional ocorre quando a pessoa ou o grupo embora detenha a capacidade de ler e escrever não possui a capacidade de entendimento do que lê ou escreve. Há, aqui uma dissociação entre o uso do código escrito e a capacidade real de compreensão do mesmo código, aplicado às situações do dia-a-dia.

Uma visão sociológica da alfabetização.

Compreendida a partir de seu significado social e político, a aquisição lingüística ganha um outro status no discurso pedagógico porque o desafio que hoje se coloca à construção da sociedade democrática ultrapassa a dimensão técnica do ensinar as letras, as sílabas e as palavras.

“Quando grande parte da população fica à margem do mundo letrado e os homens são impedidos de se constituírem enquanto sujeitos, há que se (re)considerar a exclusão social, um processo nem sempre evidente pela sutileza de seus mecanismos constituídos dentro e fora da escola.” (SILVA).

Todos os anos alunos são excluídos de seu primeiro instrumento de ascensão social e de auto-estima, a leitura e escrita. Alunos que chegam a escola já com conhecimentos prévios e válidos para a o processo de alfabetização são submetidos a produção de linguagem, a métodos mecânicos de alfabetização, voltados para decifração e calcados no adestramento.

Não seria impeditiva do seu sucesso na alfabetização essa desconstrução da experiência do aluno como produtor de linguagem? E não estaria aí uma explicação possível para o sempre presente fracasso escolar neste processo? Cada vez mais o Brasil vai acumulando analfabetos, e isso pode ser entendido igualmente em relação aos processos cognitivos de outras áreas “marcadas” do conhecimento formal ( matemática,  geográfica, história, tecnológia e assim por diante).

O jornal Zero Hora, em setembro de 2003, publica: “Só um em cada quatro brasileiros entre 15 e 64 anos demonstram plena habilidade de leitura e escrita”. Isso significa que apenas 25% dos brasileiros têm domínio pleno desta habilidade. Por seu turno os projetos para de alfabetização se limitam em ensinar o aluno a ler e escrever, relegando a capacidade de compreensão e expressão do estudante.

Quão enorme é a dificuldade das classes populares e trabalhadores desprivilegiados no acesso, desde cedo, à leitura (cultura letrada). Quanto à aquisição do gosto pela leitura, Zero Hora aponta que a mãe é a principal responsável pela influência positiva (41% dos casos), seguida pelos professores (36%) e os pais, genericamente (24%).

Nas classes economicamente de classe baixa certamente a escola foi o primeiro lugar em que as crianças tiveram acesso ao mundo letrado e ortográfico.  Quantos pais dessas crianças habitualmente lêem jornal? Quantos pais e professores habitualmente liam para as crianças e alunos quando estes eram mais jovens? Porque existe uma inércia tão grande por parte da sociedade e dos governos em relação a esses fatos?

Ora, se nem a escola, que deveria ser um centro de cultura letrada muitas vezes discrimina, direta ou indiretamente seu aluno, porque o mesmo iria dar significância à alfabetização e às diversas leituras do mundo, seja no sentido estético seja no sentido crítico?

«À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta apenas aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática da leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com as práticas sociais de escrita (…) Esse novo fenômeno só ganha visibilidade depois que é minimamente resolvido o problema do analfabetismo e que o desenvolvimemnto social, cultural, econômico e político traz novas, intensas e variadas práticas de leitura e de escrita, fazendo emergirem novas necessidades além de novas alternativas de lazer» (SOARES, 1998, pp.45/46)

A escola deveria andar ao lado das demandas sociais. Afinal, não é possível que somente alunos oriundos da classe de domínio social tenham uma efetiva educação formal de qualidade.

Independente da realidade social na qual o professor constrói sua aula, deve acreditar em seus alunos sejam pobres ou ricos, filhos de papeleiros ou de empresários e na sua capacidade para aprender. Cabe-lhes instigá-los e não ficar perdendo tempo precioso apenas com lugares comuns irrogando culpas aos mesmos pelas não-aprendizagens.

Segundo FREIRE COSTA (1994) “ Em face da criança que fracassa, raramente a escola ou mesmo os profissionais de instituição especializados levantam problemas como: a estrutura da escola e estrutura social, a inadequação dessa estrutura em face da situação real da vida da criança.”

Quando falamos em alfabetização e questões sociais, não podemos deixar de falar sobre a cultura letrada também conhecida como letramento. O letramento no Brasil, conforme nos explica SOARES (1998), está associado ao fenômeno de superação do analfabetismo e à valorização da escrita. Muitos crêem que alfabetização e letramento são dissociados mas uma completa a outra. As crianças não tem que somente aprender a usar os símbolos (letras), mas sim compreendê-las dentro de um significado maior, que as induza a uma curiosidade cognitiva real, no dizer de FREIRE.

É da essencialidade do ensino tornar os objetos de estudo significativos para os alunos, espeicalmente no caso da alfabetização, àqueles que anteriormente nunca tiveram  acesso a livros, jornais revistas.

Talvez no momento em que os educadores não excluírem mais seus alunos pelo que cada um é, não tenhamos tanta evasão e repetência escolar; o lugar que deveria ser de acolhimentocolhimento continua fabricando a exclusão social.

Conclusão

A questão da alfabetização é portanto fundamental para melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas o próprio processo deve ter em conta de que a mesma deve ser funcional, ou seja, não basta a aquisição do domínio do código escrito e da leitura, mas a ele deve somar-se a capacidade de interpretar o que ali está aposto ou o que irá escrever, de modo que a sua intencionalidade seja realmente expressa.

A não-alfabetização por seu lado é um marco claríssimo de exclusão social, uma vez que bloqueia o acesso às atividades produtivas formais, aumentando o cinturão de miséria intelectual e econômica. Por esses motivos, especialmente, os analfabetos tendem a serem socialmente segregados: por não terem condições mínimas formalmente reconhecidas pelo mundo da empregabilidade no sentido de melhorarem seu status profissional.

É óbvio que não é estritamente necessário que as pessoas sejam alfabetizadas para poderem trabalhar e se sustentarem, mas é igualmente claro que o analfabetismo é um fator impeditivo ao seu melhor acesso profissional. Por outro lado, não há sustentação cultural que não seja atingida pelo fato de não participar a pessoa da cultura letrada como cidadão.

“Aqui surge o problema da educação. Com razão, Dewey dizia que ‘educar significa enriquecer as coisas de significados’. Se duas pessoas assistirem a um mesmo filme, sendo uma instruída e outra analfabeta, na verdade verão dois filmes diferentes mesmo se acreditam ver o mesmo filme.” (DE MASI, et FREI BETTO,  2002)

Mesmo tendo o Estado renunciado a rede de proteção social (ou tendo sido lentamente forçado a abandoná-la, por pressões contigenciais), encarar a alfabetização seriamente é também um problema estratégico, um divisor entre a marginalização e o acesso social. E isso fundamenta  não apenas a cidadania, mas especialmente, um processo de humanização, afastando a miserabilidade econômica, social e ajudando a aplacar a violência dentro dos cinturões urbanos.

Bibliografia

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Bonamino, Alicia, Coscarelli, Carla et Franco, Creso. Avaliação e letramento: concepções de aluno letrado subjacentes ao SAEB e ao PISA. Meio eletrônicohttp://www.scielo.br/pdf/es/v23n81/13933.pdf, outubro-2002. Consulta em 08-06-2004.

Freire, Paulo (1981) Educação e Mudança. Coleção Educação e Mudança, v. 1. (trad. Gadotti, Moacir et Martin, Lilian Lopes). Rio de Janeiro. Paz e Terra.

Fromm, Erich. (1985). Psicanálise da sociedade contemporânea. São Paulo: Círculo do Livro.

Garcia, Regina Leite et Oliveira (org), Anne Marie Milon et al. (1997). Alfabetização dos alunos das classes populares. São Paulo. Ed. Cortez.

Hargreaves, Andy. (2004). O ensino na sociedade de conhecimento: educação na era da insegurança. Porto Alegre. Artmed.

Toro, Bernardo. (2002). Código da Modernidade. Meio eletronico:http://novaescola.abril.uol.com.br/index.htm?ed/149_fev02/html/fala_mestre. Consulta em 02.07.2004.

Zero Hora . (2003) Reportagem especial. Brasileiro lê sem entender. Porto Alegre. Ed. Zero Hora

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