O mundo e suas leituras: práticas


É imprescindível entender o mundo no qual estamos inseridos, não só porque poderemos ser cidadãos ativos e participantes da sociedade, mas porque poderemos entender que a alienação muitas vezes provem da manipulação de comportamentos e argumentações artificialmente naturalizadas. Pois bem, e como entender a um mundo que se pauta por confrontos inúteis para a imensa maioria, mas lucrativos para as minorias de sempre, em dogmas que mais imobilizam que constroem, em um grau de complexidade e de informações que a todos atordoa?

Como buscar olhar a paisagem se, na maior parte do tempo enxergamos a realildade no nível da rua? Como elevarmos nosso espírito se tudo nos leva para a mercancia e para o consumo delirantemente fugaz? Como termos consciência dos movimentos do mundo se cada vez mais ele nos parece um bólido, a engolir incessantemente tempos e distâncias?

As respostas não são, muitas vezes diretas e muito menos claras. Não há tempo para as hipóteses, somente para os fatos e suas consequencias…

No entanto, podemos nos valer de modo positivo dessas mesmas ferramentas que estão à nossa disposição mas que, teimosamente, insistimos em não nos apropriar: do passado, as questões éticas, os valores, as tradições, os sinais ainda recentes de um mundo de produtores, no dizer de Bauman. De um passado menos afastado, dos novos padrões tecnológicos obtidos a partir da informática, da telefonia, dos avanços da medicina, da informação, do plano que nos cerca e que nos induz a sermos o que somos.

Educação.

Há um campo destinado para a educação, uma educação que pode ser formal, informal, comunitária, que pode enfocar as ciências, as linguagens, as músicas, as vanguardas culturais. Aprendemos porque somos seres vivos, diz Maturana. É bem verdade que nem sempre aprendemos o que interessa à sociedade, pelo menos retoricamente: o crime é um derivativo da aprendizagem, aprendemos a corromper e sermos corruptos, aprendemos inclusive a ignomínia, a ignorância, os lamentos sem sentido, as fraudes, a miséria, a prostituição, a mercancia da miséria, da morte, da estupidez e da mais pura estupidez.

Contudo, podemos, igualmente, aprender a ser mais, no sentido intensamente humano do Mestre Paulo Freire.

A educação nos traz vantagens que, muitas vezes não estão expressas no PIB, na economia, no aumento dos índices de consumo. A educação nos leva sempre adiante, em busca de. Nem sempre, infelizmente, ela pode garantir empregabilidade, estabilidade, segurança financeira, mas sempre, desde que voltada para a humanidade, nos tornará pessoas melhores, mais solidárias, mais congruentes com o mundo, mais responsáveis com a natureza e com as relações com os outros. Aprendemos a ser mais cidadãos em relação ao contexto social em que nos encontramos. Juntemos educação e formação ética e moral e teremos maior solidariedade no mundo. Estudar abre portas.

Leitura crítica do mundo.

É necessário que pensemos na leitura crítica de situações que são potencialmente falsas, artificiais, artificiosas, mas vendidas como naturais. Expandindo o conceito, a leitura crítico-social deriva da necessidade de desenvolver a capacidade de não sermos passivos quando algo nos é comunicado, nos é posto, seja pela midia, seja pelos fatos do mundo. É buscar o que se esconde sobre a aparência, o que perpassa como um argumento não-dito, é a decodificação do que é essencial, do que a manipulação busca esconder, camuflar, tornar parametro comportamental ou orientador de tendências culturais.

Certa vez Mestre Freire ensinouo que não é possível educarmos sem termos uma leitura social da turma a qual pretendemos ensinar. Tinha e tem razão. Leituras, no mundo atual, desprenderam-se, conceitualmente, da leitura textual. Há leituras imagéticas, há leituras sonográficas, há leituras simbólicas, há leituras semióticas, enfim, há leituras complexas.

Nem todos tem acesso a tais possibilidades, mas é o senso crítico apurado que nos fará indagar das razões pelas quais somos informados disso ou daquilo e, por outro lado, não somos informados de outras circunstâncias. A própria possibilidade real de efetivarmos ou não algo depende da nossa leitura criteriosa de nossos objetivos. Como já disse Frei Betto e Domenico di Masi: ” se duas pessoas, uma culta e outra ignorante assistem ao mesmo filme, elas, efetivamente não assistiram ao mesmo filme.”  O limitador da criticidade radica em nós mesmos, mas a capacidade de melhorarmos issos é latente.

Requer trabalho, estudo, observação, mas nos diferencia e, a partir daí, pode fazer com que tenhamos uma base mais ética e mais justa para influirmos no contexto social.

Ouvir.

É necessária a escuta, que nos faz aprender com o outro. Precisamos resgatar a arte da escuta e do silêncio. Ouvir nos coloca na situação dúplice exigida pelo discurso. Em um mundo no qual o açodamento, o fazer parece ser a regra, muitas vezes esquecemos de contrapor a fala ao silêncio, e assim nos pomos deseducada e deselegantemente a açular a paciência alheia.

Não nos permitimos ser interrompidos, mas fazemos isso incontáveis vezes, pela simples compulsão de uma fala não raro pautada pela verborragia e pela redundância. É importante que os outros nos ouçam, mas não é importante que ouçamos esses mesmos. A escuta nos permite a atenção, o mantenimento no foco no que está sendo proposto. As palavras são, muitas vezes, o espelho mais previsível das nossas incongruências, das nossas sempre celebradas opiniões. Quando os antigos diziam que falar é prata e calar é ouro, o faziam com experiência e sabedoria. Preferimos, contudo, relegar tal ensinamento ao limbo.

Poupemos a nós mesmos de nossas idiossincrasias, mas, em especial, não descartemos o fato de que terceiros lêem criticamente o que dizemos. Tenhamos, pois, cuidado com a escuta. Ela é básica para que, em um mundo complexo, possamos fazer esforços honestos para entendê-lo.

Matutar.

Não matutamos. Matutar é coisa de matuto, e há toda uma carga negativa associada à palavra. Matutos são seres que não se atualizaram, viventes de uma realidade que se esgotou ao longo do tempo. Com base nesses argumentos sem sentido desaprendemos o prazer de pensar com atenção, com tempo suficiente para que possamos não apenas ver apenas uma perspectiva mas que nos habilitemos a enxergar um pouco acima do nível da rua.

Necessitamos pensar as intencionalidades dos discursos, mas para isso é preciso tempo. A melhor alternativa para que conheçamos tais intencionalidades é a de que possamos deixar o tempo e as idéias fluírem para irmos, cautelosamente pensando sobre os assuntos postos. Matutar, mais do que nunca, é preciso, até porque é uma das mais caras possibilidades que possuímos de entender não apenas o imediato (recurso primeiro e último de nossa época) mas também o mediato, o que não está escrito, o que o discurso esconde. Matutar, pois, exige treinamento, para ouvir, para falar, para apreender não apenas o revelado, mas o que é revelado através do exercício da temperança.

Navegar no tempo.

Vivemos em uma época na qual a ausência de tempo para pensarmos absolutamente não é casual. Mais um pouco e pensar nos levará ao mais completo desinteresse e, por falta de hábito, mesmo à exaustão. Não nos permitimos dar tempo para a maturação; antes, parece-nos que tudo tem de ser decidido já, agora, imediatamente.

Não resistimos à pressão de resolvermos qualquer assunto, opinarmos apaixonadamente sobre todos os temas, independentemente de natureza e complexidade que aquele possa ter. O sentido de urgência havido cotidianamente nos coloca na posição de reféns do estresse, do imediatismo. Passamos o tempo com a sensação de que somos atropelados, de que há uma força incomensurável que nos prensa como a pastéis. Afinal, quantas das respostas que buscamos freneticamente são efetivamente necessárias com o grau de pressão com o qual nos são apresentadas cotidianamente? E aqui, há um parâmetro, que pode ajudar, eventualmente.

Pergunte-se: em face de uma situação, o que pode acontecer de melhor? E de pior? Assim, perdemos a noção de navegarmos no tempo, de usá-lo a nosso favor. Navegamos em favor dos outros, dos seus fatos, das suas procuras, das suas necessidades. Quando aprenderemos que um vinho necessita, lá na ponta, de uma videira, de um processo de maturação, de um tempo correto para que nos possa vir ao prazer de um vinho?

Ler.

A leitura abre universos, e isso não é uma frase solta, um adágio pedagógico, uma busca incansável de novos leitores. O processo qualificado da leitura é imprescindível para que possamos ter uma melhor compreensão do mundo, para que possamos elaborar com uma certa eficácia os nossos argumentos, para que possamos descobrir novas possibilidades de convivência com o complexo, com o que não está claro para a nossa compreensão.

Temos de ler, e temos de ler bem. Ler autores que nos tragam algo de novo, que nos complementem, que nos remetam a novas reflexões. Não necessariamente ler artigos acadêmicos, ou pelo menos não apenas eles. Ler romances, ler sobre política, sociologia, ciências, deixar fluir  leitura e entendimento como se estivéssemos abrindo portais, Os livros talvez sejam isso: portais. Bibliotecas os guardam, mas seus dizeres, suas mensagens, suas histórias as guardamos nós.

Repletos de humanidade, os livros parecem dizer: vem, vem me conhecer!

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