O indivíduo aprende. Ou não.


Learning por ransomtech

DE QUANDO EM QUANDO É NECESSÁRIO admitir a realidade, encará-la sem o potencial tóxico que nos faz divagar e encontrar perspectivas tão alheadas da mesma. Discute-se por que há alunos que tem um comportamento tão frívolo e inconsistente em relação à sua própria aprendizagem e, para quem é da área da educação, logo nos vemos  perdidos no cipoal discursivo que nos remete a uma pedagogia compensatória e a uma influência culposa que nos faz crer que somos responsáveis sine qua non pelo fracasso escolar, termo, aliás, que, em si, já é passível de discussão.

Não superar esses padrões e a miríade de sensos comuns e de frases feitas a respeito do tema irá remeter o educador a uma sensação de luto, de perda, de culpa. Por outro lado, simplesmente revoltar-se e discursar contra esses padrões também não é suficiente ou eficaz para encaminhar alternativas plausíveis. A questão, pois, é não nos perdermos nesse cipoal de subjetividades, procurando encaminhar a aprendizagem sem o estigma que normalmente é reservado à mesma.

Em princípio, temos muito a aprender sobre o próprio aprender. Entendo que:

  • Só aprendemos ao focar o objeto do estudo. Aprende quem observa possibilidades e alternativas.
  • A aprendizagem não é um processo mecânico, único ou rigorosamente lógico; contrariamente, é não-linear, social, encarnado, cultural, multidisciplinar por seus atores e complexo. Aprender é um exercício de autopoiese.
  • Muitos podem participar do processo de aprendizagem, mas esta é eminentemente individual. Ninguém aprende por outro ou como se fosse esse outro. Aprender requer arriscar-se e desalojar-se do que já é. Cada qual aprenderá na medida em que lhe for sustentavelmente possível.
  • Ao aprendermos somos uma estrutura viva, sujeita a nossos próprios padrões e às nossas organizações internas e ao conferimento de significantes e significados, de tal modo que há uma interdependência encarnada e uma fluidez entre o que somos e o que aprendemos.
  • Aprendemos por interesse ou por necessidade. Não há aluno sem professor, mas o contrário nem sempre se aplica.
  • Aprender sem integrar é receber informações sem o desenvolvimento de habilidades suficientes para interpratá-las.
  • Mentir em relação à aprendizagem ou acumpliciar-se a tanto, independentemente do motivo alegado ou subentendido, traz conseqüências sócio-individuais, incentiva a irresponsabilidade social e ética e fomenta, direta ou indiretamente a exclusão cognitiva, interna ou externa ao sistema educacional.

Muitas vezes nós, educadores, somos levados à amargura, ao desânimo e especialmente a duvidarmos de nós mesmos quando se torna visível o descomprometimento de alguns alunos em relação à aprendizagem, o descaso quase deplorável e insultuoso com que somos brindados no dia-a-dia. Nesses momentos, sempre haverá quem diga, direta ou indiretamente que a culpa é do professor, que ele tem de se esmerar mais, que o aluno tem problemas de ordem emocional, seguido por um relatório circunstanciado das origens do aluno e de suas famílias e mais um inventário atualizado das circunstâncias que o acompanham, ele em tudo vítima social, um ser que se não for acarinhado, mimado, infantilizado e, por fim, levado à aprovação pelo sistema, será um ser fadado ao fracasso, à decomposição social, um pária, um anacrônico, um zero à esquerda.

Por outro lado, os pedagogos de conveniência sacarão os seus discursos compensatórios, e uma infinidade de livros falarão sobre a importância de tornar a sala de aula mais atraente, mais cativante, mais… mais em suma. Os professores deverão se esforçar, deverão ser mais abertos, mais flexíveis, mais interessados, mais inteligentes, mais criativos, mais PAIS, mais MÃES, deverão se comprometer com os alunos, e todo o rosário que se descortinará. Talvez comprar uns presentinhos de quando em quando e ofertar aos aluninhos, órfãos de uma vida melhor, visitá-los, fazer uma social, et caterva.

Poucos são os que indagam a respeito da responsabilidade do aluno em relação à sua aprendizagem. Poucos os que tem o papel muitas vezes antipático de perceber, além da autocrítica necessária, que não em poucos casos, que são os alunos, de vontade própria, que se alienam, que ficam ali esperando não só que o sistema os resgate, mas que opere por eles, que lhes facilite a vida, que não os aborreçam, que os substituam em seus papéis.

Há um provérbio português que diz “mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo”. Embora, com 57 não me considere exatamente um idoso, o dito encara a experiência como um marco no que diz respeito ao conhecimento do outro. Talvez por isso eu fique indignado quando tentam me irrogar papéis que não me cabem. Não sou responsável por mais ninguém, assim como ninguém se responsabiliza por mim. Isso não significa não ser solidário, mas, em meu entender, ser socialmente justo.

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