O processo do não saber e a autonomia


O não-saber, assim como o saber, é também cultivado, produzido a partir da negação da autonomia, a reboque do projeto da submissão. A dependência do não-saber alcança comportamentos proativos e vicia os sonhos e as pretensões a uma autoria social. Não vislumbro instrumento, metodologia, técnica que possa, de per si, em conjunto ou separadamente, influir e debelar o ciclo da submissão mental, quando assumido pelo sujeito em sua subjetividade e convertido em significante para si próprio.

Habituado à dependência, à não-autonomia, ao não-saber, à submissão, o sujeito dilacera sua capacidade criativa, sua curiosidade natural e reprime  o potencial de habilidades e de novas perspectivas que poderia desenvolver se tivesse cultivado o hábito de ser protagonista de sua própria história e se tivesse marcas culturais que o impulsionassem para uma melhoria de vida e de relações interpessoais.

Envolvido no desconhecimento e no desimportar-se, o sujeito recria e reforça, em relação à si mesmo, o imaginário de que é incapaz de solucionar suas próprias questões. Tal ciclo do não-saber necessita, assim como o ciclo do saber, de uma matriz volitiva, de uma constituição subjetiva identitária.

Não raras vezes o ciclo da submissão ao não-saber se desloca subjetivamente em relação a fatores externos, ou a um misto deles, que justifique e qualifique tal matriz volitiva e identitária. Para tanto, pode se invocar a pobreza, os pais ausentes, os pais repressores, as disciplinas escolares desinteressantes, os professores “ruins”, a escola “fraca”, o “não dá nada”, os sentidos ou sentimentos nutridos em relação à essa ou aquela pessoa ou, simplesmente, a integração a um grupo identitário que proporcione uma satisfação pessoal ou um sentido de inclusão.

Seguir um grupo, no caso, é não apenas fazer parte dele, mas construir-se subjetivamente e assumir a sua cultura. Pessoas totalmente motivadas por questões identitárias a um determinado grupo, assumem na quase integralidade o modus vivendii e o modus operandii desse grupo. Assim, do mesmo modo que podem buscar o conhecimento, podem também, por igual, ficar de braços cruzados, rindo, ridicularizando a si mesmos e  aos outros, utilizando um código de violência simbólico e real bastante contundente e agressivo.

Aqui, a escola irá tratar do assunto como um problema de disciplina. Trata-se de o professor ter o que se chama de “domínio de classe”; no entanto, o foco da questão é outro. A discussão não é a presença ou não de disciplina, menos ainda “domínio de classe ou de turma”. Trata-se de uma questão de identificação cultural com um determinado grupo, de analisar-se o que faz com que determinados grupos de pessoas se associem de modo tão efetivo em situações negativas, que se auto-sustentam a si próprias. Portanto, a questão, aqui, não é o professor, mas as subjetividades e a formação identitárias  construídas. E, para isso, não há que se buscar nem figuras redentoras  nem  frustrar-se o  professor, esperando  simplesmente que  sentimentos de  raiva, culpa  e frustração  possam minar ainda mais  o ambiente. É uma questão multidisciplinar que somente assim pode ser vista e que envolve situações  tão distintas como cultura, desejos, constituição física e psicológica, influências familiares, enfim, um histórico de relações que possam explicitar tal constituição grupal.

Deslocamos nossos desejos, nossas privações, nossas necessidades para o que nos circunda, direta ou indiretamente. Observo constantemente os movimentos que ocorrem nas salas de aula. Bem mais do que questões formais – transposições didáticas, modos de avaliação, coerência curricular, relações diretamente estabelecidas entre os estudantes e os professores – são os jogos de (re)afirmação grupal, as linguagens utilizadas, o bullying, os modos de comunicação verbal e não verbal, a utilização de qualificações ou de desqualificações do outro, a vontade de constranger, a sexualidade e os sentimentos ligados ao físico e ao emocional que criam um substrato necessário ao não-saber. Romper com isso não depende, em absoluto, de uma figura heróica de professor, se o meio cultural que constrói a sala de aula decidir que isso não importa.

Qualquer processo de aprender depende de uma relação de significantes e de uma construção identitária e subjetiva que deve estar presente no sentido desse mesmo aprender. Aulas mais interessantes, estudantes mais ou menos motivados, professores com melhor ou menor capacitação são, antes de qualquer coisa, linhas discursivas nas quais os substantivos continuam sendo as aulas, os estudantes e os professores. Significar o conhecimento é qualificar tais substantivos, e além deles.

Muitas vezes, é uma questão de escolha. Muitas, de indiferença. Sempre, de cultura.

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