Conceito: nova janela?


Acredito muito no privilégio do conceito, se compará-lo com a simples decoreba, reminiscência da época em que aprender era saber recitar as catilinárias. Infelizmente não há, muitas vezes uma maior preocupação com a questão conceitual. Não tem grande significancia você decorar os afluentes do Amazonas se você não souber o que é um rio ou uma mata ciliar e qual o impacto desse rio e de seus afluentes na vida das pessoas que tiram dali o seu sustento, que irrigam os campos que servirão para as plantações ou se, em função daquele rio, há lendas e histórias, ou estórias que passam de geração para geração. Os nomes dos afluentes, em si, não dizem absolutamente nada. Vejamos:

“O Amazonas recebe os seguintes afluentes: Tapajós, Xingu, Paru e Jari. Estima-se que o Amazonas mande uma descarga equivalente a 11% de toda a massa de águas continentais para o oceano. Nas águas baixas, tem uma imensa largura que é camuflada por muitas ilhas, que dividem o rio em braços chamados paranás. Entre a enorme quantidade de afluentes que recebe, os mais importantes da margem direita são: Huallaga, Ucayali (Peru); Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu (Brasil). Através de sua margem esquerda recebe: Pastaza, Napo (Peru); Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari (Brasil). ” (retirado de http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080612171818AAqfZYq) 

Isso é informação, não é formação, o que fica bem claro se a mesma não for significante na economia de uma região. Assim também não adianta você saber de cor e salteado que 1789 foi o ano da revolução francesa e que esse evento inaugurou a idade moderna se desconhecer suas implicações no cenário sócio político não só da França mas também as modificações que foram alcançadas a partir desse evento. O mesmo em relação à revolução russa, igualmente à revolução industrial. Reduzir tais fenômenos a simples informações é quase um crime. O conceito, portanto, em o caráter não somente de esgotar-se em si mesmo, mas o de abrir novas interrogações, aguçar a curiosidade, propor diferentes temas, enfim, ensinar e aprender dentro do conceito de rede, o que mais privilegia o conhecimento.

A mim impressionam alguns comportamentos quando a aula é de matemática. Um exemplo típico. Se eu perguntar em aula quanto é 3 vezes 9 dirão que é 27, se novamente perguntar quanto é 9 vezes 8 dirão que é 72, mas se eu pedir o conceito de multiplicação, todo o processo trava.  Simplesmente porque o foco não é entender o que é multiplicação, mas decorar a tabuada. Isso é bom ou ruim? Claro que é bom você decorar a tabuada, mas isso é pouco se você não souber o porque a tabuada diz que 5 vezes 8 é 40 e não 45, por exemplo. Somente o conceito de multiplicação esclarece. Se este não for conhecido, a informação (e não o conhecimento) pode ser esquecida. Se eu souber o conceito (multiplicar é adicionar parcelas iguais entre si), mesmo que eu não lembre a a tabuada decorada poderei deduzí-la a partir do meu conhecimento.

Ah, sim, no meu entender conhecimento é informação significada apreendida de modo crítico.

Ocorre que – sejamos realistas – o ensino massificado continua premiando bem mais o aluno do que o estudante, o comportamento passivo do que o ativo, o normalizado ao criativo, o aluno submisso ao curioso, o que implica em uma decisão político-pedagógico que privilegia o informar e o memorizar em detrimento do significar e do conceitualizar. Assim estabelecida a hierarquia compete ao professor a figura do condutor unilateral do processo de ensino e de aprendizagem. Por outro lado, a proposta conceitual não prescinde da autonomia do estudante. Em relação ao aspecto didático, o aprender ganha cores e significado pelo fato de que o estudante ao efetivamente tomar a si o conceito, realiza uma desacomodação no sentido piagetiano e sai de sua zona de conforto no sentido vigotskiano. Há uma qualificação do processo de ensino e de aprendizagem no sentido real. O estudante tem um acréscimo em sua auto-estima e confiança, por ter a certeza de que está progredindo a partir de seu próprio esforço e, portanto, aumentando de modo competente sua possibilidade de novas aquisições cognitivas.

Mais: em crescendo enquanto essência, o estudante passa a depender menos do professor, que passa então a representar alguém que o estimulará a novos vôos, diferentemente de representar apenas um terceiro que prima pela exigência de conteúdos memorizados que nada significam. A questão maior não reside, portanto, apenas nas práticas didáticas, que nada mais é do que um desaguadouro natural de uma visão educativa e da cultura que se estabeleceu na escola; há portanto uma orientação político-pedagógica informada e formadora do pensar e agir médio de uma escola enquanto sede do saber social e politicamente privilegiado.

Se planos políticos-pedagógicos podem resolver tais problemas? Sim se realmente ele for a expressão do pensamento médio da cultura escolar e da sua posição majoritária em relação ao papel da escola e não se ele for tão só um instrumento para ser entregue para a mantenedora dentro de um determinado prazo e privilegiar muito mais questões discursivas do que a realidade vivida pela comunidade escolar. Não se faz uma carta de intenções que não reflita a realidade, pois ela passa a ser desrespeitada antes mesmo de sua conclusão.

Voltando à questão do conceito, seu conhecimento é algo que deveria permear o fazer pedagógico com o que, em meu entender, ganhariam todos os atores educacionais envolvidos; a conceitualização, a partir do momento em que estabeleça ligações fortes entre as diferentes áreas cognitivas, recria a gosto pelo estudo, mas não só ele, havendo um reflexo necessário no processo educativo formal, o que demandará novas posições de desacomodação em relação às próprias estruturas curriculares, além do não aprisionamento do conhecer às falsas promessas que o uso da memória traz.

É preciso, contudo, combater a inação e o conformismo, propor novas questões e realmente desacomodar a cultura da escola e suas práticas pedagógicas, o que, se é desejável, nem sempre é exeqüível, simpático, pois sujeito à perturbações que podem ser desencadeadas a partir daí. No entanto, as turbulências são normais em qualquer proposição distinta da que já se encontra encastelada, cristalizada e, em muitos casos e infelizmente, morta.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s