Eu não sou burgues (reinterpretando o óbvio)


Maio de 2006

Descemos, eu e duas colegas, do ônibus que regularmente nos deixa a três quadras da escola. Íamos já atravessando a rua, quando uma terceira colega pára seu carro e nos oferece carona. Decido ir à pé enquanto minhas companheiras aceitam o convite. O carro se afasta. Quando finalmente vou atravessar a rua, um homem fala em voz alta, da porta de uma lanchonete:”-Muito bem, professor! O senhor sim é professor, não é como essas burguesas que só andam de carro. O senhor merece ganhar bem, elas não!”

Simplesmente não tenho tempo de dizer nada; entre surpreso e constrangido agradeço e apresso-me. Fico pensando sobre o que diz o homem. Ele perfilou-me, talvez sem consciência, junto a si, no sentido social. Eu não sou como os outros professores que ele vê andarem de automóvel. Naquela tarde quente eu estava como habitualmente, com uma calça jeans do estilo não-tão-novinha e uma camiseta. A escola onde trabalho é de periferia, situada numa comunidade com altos índices de violência e pobreza. É uma briga diária conseguir o mínimo.

Meninas novinhas engravidam para adquirir o status de mulheres. Se o marido puder proteger a prole, a menina-mãe realmente vai evoluir socialmente aos olhos da comunidade. Mulheres, na maioria das vezes são quem sustentam as casas, porque têm maior facilidade social de conseguirem empregos como domésticas, cuidadoras dos filhos de outras mulheres que, por uma questão de circunstâncias, estão em uma situação melhor. Professores? Estão ali para ensinar os filhos. Portanto, para serem melhor professores têm de entender a comunidade. E, como tudo que acontece no mundo, professor de comunidade carente tem de, em primeiro lugar, parecer ser de comunidade carente. Neste ponto, não há divergência quanto a ser um religioso fanático, um agente da bolsa de valores, um médico ou um executivo: temos de parecer o que pretendemos.

Vivemos em uma sociedade na qual a aparência é o estilo, a pessoa. A aparência é, portanto, a presunsão do que a pessoa seja. É um mundo tolo? Nesse sentido, sim. É um mundo narcísico, orientado pelo espelho.

Como eu estava vestido como um “não-burguês”, segundo os códigos daquele homem, me foi deferido um discurso de proteção. O burguês é uma ameaça e representa um mundo que exclui, que marginaliza, que derrota continuamente aquele homem. Não me identificando visualmente com tal ameaça, passo a fazer parte de um clã, de uma família social absolutamente apartada do que seria um locus burguês. Sou, portanto, confiável. É um mundo, digamos, narcísico.

No caminho, penso que o fato poderia gerar novas interpretações e penso, em um dia escrever sobre isso; se estender um pouco mais, escrever sobre as relações e as im/possibilidades sociais de uma relação escola/comunidade, na qual os valores são díspares entre si. Apenas querer a educação não é suficiente, especialmente quando dizemos ao outro como será a educação que lhe daremos. Dissemos qual será o prato da noite e queremos que nossos comensais lambam os beiços. Nem sempre é fácil, nem sempre é real.

Pensando nisso, de repente estou na escola, enquanto o sol, alheio, engole a tudo e a todos, e liquefaz meus argumentos.

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