Humilhação explícita e abismos de algodão


 

Oi. Agora são 16h55min e eu acabo de sair de uma sessão de humilhação explícita. Fui substituir uma turma (dou nome aos bois? Sim, eles, os bois merecem), a C 22, porque a sua professora titular não veio à escola. Não importa o motivo, não vou criticar isso. Vamos à humilhação. Nessa turma, que deveria teoricamente estar em uma sexta-série, os matriculados gritam, berram, dizem palavrões à todo instante. Expressões como “vou te fuder”, “vai tomar no cú”, “buceta” e outras menos cotadas são parte do vocabulário incorporado. Palavras como “puta”, “macaco” e por aí afora são tão utilizadas como quaisquer outras. É impossível dar aula nesta turma. Temos na mesma um adolescente que coordena as ações dos demais. Um sociopata escarrado e cuspido. Assim como eles há outros na escola. A doença que infelicita a turma é de tal ordem que ele, o sociopata, sequer precisa estar no ambiente para que os demais o tentem imitar.

Tentei dar aula, não consegui. A todo instante era interrompido por risadas, palavrões, tentativas explícitas de ridicularização. Uma me pediu caneta, o outro lápis, mais outro um caderno. Vários sequer tiraram a mochila das costas. Disse que eles eram responsáveis pelos seus materiais e fui chamado de cavalo. Havia um grupo que ficou rindo e empurrando cadeiras e classes junto à janela dos fundos o tempo todo. Tentei, embora me sentisse um idiota, falar com a turma e trazê-los à razão. Tsk tsk, ficaram rindo, em pleno deboche, como se nada estivesse acontecendo. Fui para o quadro e comecei a escrever quais os conceitos e fundamentos de uma equação de primeiro grau. Reclamaram que não entendiam a minha letra, que eu era analfabeto. Disseram que não tinham material para escrever. Como eu estava substituindo a disciplina de ciências, e sou professor de matemática, alegaram entre risadas e deboche que a aula não era minha. Aliás, mesmo antes de entrar na turma, já havia alunos dizendo que era uma merda assistir a minha aula. Enquanto isso, durante a peleia, qualquer coisa era motivo para olhar pelas janelas e dizer um belíssimo palavrão, ou novamente rir e debochar.

Parece um desabafo isso, mas não é, até porque não adianta. Na verdade é um chamamento à razão. A escola sabe, de há muito, que não é possível dar aula na C22. Os professores sabem, a direção sabe, os serviços de orientação e de supervisão sabem. Papéis pra lá, chamamentos prá cá e a sociopatia continua dominando. Os professores são reféns dos alunos. Literalmente. Então o convite à reflexão implica em uma brevíssima mas salutar observação: o conhecimento, a aprendizagem não se dá em mão única. Não é possível conversar com quem se nega a tanto, não é possível ensinar a quem não quer aprender, não é possível … quando… . Pura linguagem matemática: conectores lógicos… se… então. Ora, se não é possível, com sabidas razões o que escrevi agora, por outro lado também não é possível promover cognitivamente quem não demonstra capacidade para tanto, não é possível criar-se artificialmente situações que favoreçam de modo descabido tal matriculado. Que não se prejudique, mas que não se abençoe tais estupidezas por vias transversas. É claro que sempre corrremos o risco de haver uma intervenção branca da SMED, que dias antes dos resultados finais, sem ter a mínima noção de quem é o aluno, vem à escola nos brindar com um show de escapismo pedagógico, simplesmente determinando que o aluno A, B ou C seja promovido, com base em critérios feitos pela própria área pedagógica da SMED, como já aconteceu diretamente em 2008 e 2009.

Enquanto isso, alguns continuam mandando seus professores tomar no cú, se fuderem ou irem reclamar na buceta da mãe. Assim mesmo, sem considerar o fato de que está falando com professores, com educadores, com adultos, enfim, com um mundo no qual eles estão precariamente conhecendo e que irá marginalizá-los duramente por isso, independentemente do que pensem ou deixem de pensar os professores, a escola, o conselheiro tutelar, etc. Serão considerados irrelevantes pelo mercado e um peso cada vez mais insustentável que deverá custar bastante ao Estado.  E o mais ironico é que todos nós sabemos aonde isso irá parar, mas, infelizmente, temos de suportar tais bastardias e estupidezas, o que, no mínimo afeta a nossa saúde física e mental. Não merecemos isso, não estudamos para isso, e temos certeza de tais fatos. Já eles igualmente não merecem isso, mas, infelizmente, pela não-escuta, perceberão, mais cedo ou  mais tarde,  em que abismo se jogaram. Na maioria das vezes, sem paraquedas. Dizem que, inclusive nesses voos solitários rumo ao nada, inexistem pedagogos de plantão com chazinhos acautelatórios e acolhimentos de algodão.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s