Ir à escola


O triplo de um número subtraído de -2 é igual a -5. Que nº é esse? A terça parte de um nº subtraída de -2 é igual a -5. Que nº é esse?

Dois exemplos de uma equação de primeiro grau. Resolver. Este é o momento de mostrar o que se está aprendendo, de mostrar o que se sabe, ou o que não se sabe. A hora da verdade, não porque essas equações possam ter uma relevância ímpar, menos ainda por serem decisivas em um processo avaliativo. Não, nada disso. O motivo é simples e, por isso, ladinamente escamoteado por argumentos múltiplos: é o momento do feed back da aprendizagem.

Vamos à escola por muitos motivos: porque interessa ao Estado, no que configure minimamente ao conhecimento da História do próprio país, de seu povo, de seus mitos e de suas lendas, enfim, do que amalgamou o território e seu povo, ou porque necessitamos da língua como um elemento de união entre os nacionais, bem como da formação qualificada da cidadania; porque as crianças, imersas em um mundo simbólico e de múltiplas linguagens necessitam se integrar ao mesmo; porque é na escola que se aprende a socialização e o compartilhamento e se exercitam, em nível prático, lições de moral, de solidariedade, de compartilhamento e de ética; porque é ali que se abrem possibilidades de conhecimento do mundo, outras pessoas e culturas, de exercer mesmo as primeiras tentativas de sedução, porque é lá que conquistamos novos amigos; porque a escola universal, laica e multicultural não só é um dever do Estado de Direito mas também é, do ponto de vista social, a possibilidade concreta da melhoria da capacidade de vida de um povo; porque a educação é (ou deveria ser) uma atividade de caráter estratégico para o país, se pararmos para pensar no desenvolvimento de tecnologias de ponta, como a informática, a indústria de comunicações, a biogenética, a indústria dos alimentos, os princípios de sustentabilidade ecológica, o compartilhamento de saberes, as pesquisas financiadas ou pelo Estado ou pelo mercado, et caterva, enfim, há muitos porques e justificativas plausíveis, concretas e coerentes quando se trata de pensar os benefícios sociais e pessoais do estudo, que inicia lá no ensino fundamental e pode prosseguir até o pós-doutorado e muito mais, ou pode redundar em cursos tecnológicos ou em atividades que proporcionem uma melhoria da qualidade de vida de todos, o que inclui um substancial avanço da sociedade. A escola é um dos meios de contenção da marginalidade.

Sobretudo vamos para a escola para aprender, e se a aprendizagem não é o foco principal e inarredável da escola, a mesma perde a sua função ipso facto. Agora, provavelmente, os pedagogos new age estão ansiosos, esperando a lógica discursiva que argumenta que a escola é um presídio, que ela não ensina, que não respeita o protagonismo juvenil, que é excludente, responsabilizando-a por todas ou quase todas as mazelas que afligem historicamente a relação de ensino e que se consubstancia no abandono da escola, na relação idade-série, e na não promoção dos alunos; enfim que ela, como instituição não compreende o que deve compreender e que batalha pela marginalização do aluno na medida em que este se sente desprotegido etc etc etc. Ledo engano. Não bebo deste veneno, administrado em gotas de paternalismo e alimentado por um vago sentimento de culpa. Outros, talvez, eu não.

Continuo refletindo que a educação formal somente se efetiva de modo partilhado entre quem ensina e quem aprende e que nada ocorre sem esta intencionalidade sincera, clara, aberta e que a aprendizagem não se dá sem que o educando se mova para. Não acredito que mecanismos artificiais e artificiosos engendrados em gabinetes cuja maior preocupação é a financeiro e a gestão pública de despesas possa servir de paliativo à realidade. A educação não se dá no imobilismo, não se dá através da pedagogia da auto-ajuda. Voluntariosa, ela desnecessita e perescinde de ensaios discursivos compensatórios. Sei que na escola, em qualquer escola o objetivo dos docentes e dos discentes é ensinar e aprender. Se houver um rompimento desse pressuposto, todo o resto ficará em solução de continuidade. E essa decisão não é tomada por uma pessoa só, por uma direção, por um decreto; passa pelo significado que se dê ao que seja aprender, mover-se, sair da zona de conforto, propor e realizar atividades, organizar-se para tanto.

Por outro lado, é justamente ali, no momento em que alguém tem de mostrar o que sabe ou não, o que erra e o que acerta, o que é indubitável ou um mar de dúvidas, é justo aí que crescemos, que demonstramos, especialmente a nós mesmos se estamos ou não em processo de aprendizagem. Se nos alheamos, não há diploma que dê conta nem sistema de ensino que possa alcançar algo que não nos motivamos para obter. Trata-se de uma farsa, oficial ou oficiosa, mas sempre uma farsa.  A educação nos incita a pensar. E para tanto, embora muitos discordem, não me parece necessário armar um teatro ou nos travestirmos, enquanto educadores, em animadores de auditório. Definitivamente o ensino e o conhecimento podem passar pelo espetacular, mas corre bem distante do espetaculoso.

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