Ler é fundamental


 

Ler é preciso, tanto quanto navegar, eu diria, recordando Fernando Pessoa.  A tecnologia hoje aportada para a comunicação é indiscutível; no entanto nunca nos sentimos tão isolados, e isso porque as pessoas, basicamente, não tem o que dizer, não sabem o que dizer ou ainda não querem dizer. Assim, o celular passa à condição de fetiche. O ato de ficar um bom tempo teclando o celular, em busca de alguma mensagem mostra que as pessoas querem se sentir inseridas, buscadas por outras, de modo que se pensem participantes de algo real, de uma tribo qualquer. Alguém tecla obsessivamente o celular porque tem a necessidade premente de se sentir acolhido(a)  em um determinado grupo social. A busca é pela inserção e pelo reconhecimento de seus possíveis pares. Vivemos em uma época na qual temos a possibilidade real de nos (re)construirmos identitariamente. Uma época pontilhista, fluida, móvel, na qual, mais do que consumirmos mercadorias, somos mercadorias expostas ao mercado, conforme a assertiva de Bauman (1).

Por sermos seres discursivos, nos é primário respeitar a autoridade da palavra. Quem discursa terá ou não autoridade, mas esta, ocorrendo ou  não, tem natureza diferente da autoridade e da alteridade apostas no discurso. Enquanto um fala, nos descortina suas idéias, e em razão disso temos de aguardar a fala, para então nos manifestarmos. Há um tempo de quem fala e um tempo de quem escuta. No entanto, a leitura entra, aí, como uma possibilidade concreta de ingressarmos no mundo altamente simbólico da fala argumentativa. A leitura nos impele a experiências que nos creditam não apenas a alteridade da palavra, mas a autoridade da fala. Mesmo que nosso argumento não seja acolhido pelo outro, de modo genérico, saberemos o que dizer e como dizer. Ler, portanto, não implica em que seja aceita ou recebida a nossa palavra sem crítica, mas permite que nos manifestemos de modo mais coerente, mais coeso, mais preciso. Mesmo o ser vago com a experiência da leitura ganha outras cores.

Sendo discursivos, precisamos de livros para que nos alimentemos: nossa alma, nossa vida, nossas expectativas, nossos projetos não prescindem de leitura. Ler é um ato natural de cumprimento de nossas necessidades do uso da fala e da escrita, além de cumprirmos uma trajetória humana de conhecimento de outras culturas e de outras histórias (ou estórias, em sentido distinto mas não excludente). O bicho homem necessita de histórias, necessita reconstruir-se através do Outro lacaniano.  Podemos contra-argumentar que nem todas as culturas necessitam de escrita, mas as mesmas não dispensam o padrão da oralidade, que desempenha o papel de recontar o passado, entender o presente e projetar o futuro. Na essencia, livros que se transformam em griots ou em sábios-sacerdotes quando informam às gerações atuais a cultura e a história de seus povos.

Por outro lado, sabemos da importância que o “contar” desempenha nas funções de entendimento do mundo e da empatia em relação às crianças. O código da leitura e da escrita irão se seguir dentro de nossa cultura. Contudo, independentemente da formalidade que seja conferida aos mesmos códigos, muda a própria noção de mundo quando lemos. Domenico di Masi (2), declara que se duas pessoas, uma culta e outra não apreciarem o mesmo filme, não terão visto o mesmo filme. Nada mais certo, nada mais correto. A influência da leitura traz, em si, não apenas o caráter informativo mas, especialmente o caráter formativo. Portanto, participar de redes sociais até pode ser interessante, desde que você receba informações com senso crítico. E se você não faz isso, pode ter certeza: você não lê, e se não lê, não entende, e se não entende, não se forma.

A cada qual cabe tal decisão inderrogável e intransferível.

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