Mudando o discurso


Dezembro de 2006

Observe outras profissões, liberais ou não. Um mecânico de automóveis fala de novos lançamentos, de peças, de motores, comenta a performance dos combustíveis, conhece os desempenhos mais ou menos econômicos das diversas marcas. Um engenheiro fala de cálculos, de estruturas, de aproximações, de projetos, de visitas de campo, de cronogramas físico-financeiros, de qualidade de produção. Um empresário fala de produtividade, de negócios, de investimentos, de nichos de mercado, de possibilidades de lucro.

Um economista fala de PIB, de aplicações financeiras, de capital, de especulações em bolsa, de flutuações de moeda, de índices e projeções financeiras, de planos a médio e longo prazo. Um arquiteto fala de cores, de espaço e de tempo, de ergometria, da cultura de um determinado local para entender os gostos estéticos e funcionais, de projetos, de adaptações e confortos. Um técnico de futebol fala de sua equipe, dos esquemas de jogo, das oportunidades de uma partida, das especificidades de um jogador ou de um grupo de jogadores, fala a respeito da posição de seu time em um campeonato, explica suas opções.

Assim, senhor(a) professor(a), pense, pense, pense…

Não é aceitando que lhe chamem de tio ou de tia de aluno, ou dizendo que estima profundamente o seu aluno e se preocupa com ele, que conhece a sua família e que sabe de sua história, que você conferirá uma imagem profissional à sua atividade. O respeito e a visibilidade social se confundem com o discurso que a sustenta.

Enquanto você, professor (a) utilizar uma fala meramente afetiva, será socialmente decodificado como alguém vagamente familiar que “dá aula”, e irá para o imaginário popular como uma figura romântica, missionária, o que conduzirá inevitavelmente a uma desvalorização dos anos e anos de formação e de experiência que você acumulou. Mostre o que você sabe, especialmente quando estiver falando com pessoas ou instituições alheias à educação formal.

Sejamos rigorosos, específicos quanto à linguagem a ser utilizada sem perder, contudo, a inteligência emocional e os liames que conferem personalidade e pessoalidade à arte de ensinar. Há uma infinidade de temas que necessitam ser conhecidos, e que merecem visibilidade.

Tendências e escolas pedagógicas, escolas enquanto nivelamentos de estudo, educação enquanto interesse estatal, conselhos de classe, gestão democrática, currículo, informação, educação à distância, educação holística, planos de aula, PPP, orientação educacional, supervisão educacional, avaliação, relação tempo-espaço,direção de escola, educação em locais e espaços não-formais, tecnologia voltada à educação, escola tradicional, escola progressista, leitura e escrita sociais, letramento, alfabetização, linguagem matemática, simbolização, psicogenética, pedagogia, psicopedagogia, reformas educacionais, conselho de pais, conselho de alunos, qualificação continuada, qualificação profissional, oportunidade de assistir encontros, palestras, forii, conselho participativo, segmentos escolares, distribuição da carga curricular dentro de um parâmetro temporal, história da educação, filosofia da educação, educação como fenômeno social e econômico, transposição didática, projetos em sala de aula, multi e transdisciplinaridade, escola como sistema aberto e fechado, escola vista como empresa, alunos e aprendentes como conceitos distintos, professores e educadores como conceitos distintos, educação de jovens e adultos, há um mundo a ser lido e decodificado.

Vigotsky, Piaget, Wallon, Marx, Gramsci, Enguita, Freire, Santo Agostinho, Aristóteles, Teberosky, Manheim, Durkheim, Foucault, Vasconcellos, Rogers, Hernández, Toro, Bruer, Ambrósio, Collis, Sacristán, Ferreiro, Bruner, Santomé, Guattari, Habermas, Saviani, Decroly, Kilpatrick, McLaren, Freire, Gouvêa, Freinet, Libâneo, Grinspun, Dewey, Sinclair, Giroux, Lyotard, Weber, Comênio, Ghiraldelli Jr., Herbart, Manacorda, há um mundo teórico a ser compreendido, lido e construído e que não se esgota, claro, nesse rol…

Economia, ciências, sociedades, culturas, multiculturalismo, estudos culturais, transposição e contrato didático, sociologia, antropologia, ecologia, planejamento, história, questões sociais, objetivos, processos ensino-aprendizagem e suas releituras, urbanidade, relações interpessoais e interpares, grupos de poder, tolerância e abertura ao outro, socialização de conhecimentos, tudo abre possibilidades de crescimento individual, de uma visão mais crítico-social do mundo, das comunidades, do entorno social das escolas, de suas angústias e de seus discursos ou mais ou menos alienantes.

Participe. Não se intimide pelos efeitos paralisantes da crítica de terceiros. Não carregue em si a culpa do mundo, nem queira depositar o seu fardo em ombros alheios. Dê-se o direito de errar, sinta o erro como algo empírico, construtivo.

O educador deve procurar cada vez mais o estudo e a qualificação, mesmo que não haja qualquer estímulo exterior para tanto. Não se trata, simplesmente de ignorarmos que há contradições enormes que vitimizam a profissão ou a arte de ensinar.

Seja firme e leia sobre temas atuais, sobre filosofia, sobre ética, honestidade, princípios. Procure sempre melhorar a visibilidade social da sua profissão. Não permita que a espezinhem, não deixe que a sociedade tenha um discurso conveniente a respeito do ensino. Mostre claramente as contradições vivenciadas no dia-a-dia, no cotidiano.

Não caia na armadilha edulcorada de exercer papéis paralelos de psicólogos, pais, mães, assistentes sociais, mas procure qualificar seu discurso a partir de uma abertura consistente e integrada ao mundo e suas circunstâncias. Participe de um grupo social, tenha um hobby que não seja o de criticar os seus pares, a escola em que trabalha e os alunos aos quais busca ensinar. Arrisque-se!

E, cá pra nós que somos educadores, quanto há para ser explorado, reavaliado, revalidado, rediscutido. Ser educador é mergulhar em um mundo que mistura técnica, habilidade e convívio. Só falta o mundo real saber disso.

Para sabê-lo, tem que ser informado, detalhadamente. Cabe-nos noticiarmos e anunciarmos, como diria Freire, que temos nossas especificidades e que uma linguagem condescendente e falsamente humanizadora apenas nos coloca frágeis e desvalorizados. Não nos apequenemos diante de outras profissões de prestígio social, por dois motivos: não fôssemos nós, educadores, elas não existiriam como hoje e, segundo, mostremos que há ainda uma história a ser escrita pela escola e pelo ensino, história essa da qual somos participantes diretos.

Seja, enfim, um educador, mas, acima de tudo, uma pessoa lúcida, crítica e socialmente visivel. Seus alunos, sua comunidade e sua história pessoal agradecem.

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