SOE, uma falsa comodidade


Serviço de Orientação Escolar

SOE: não há supersetores em escola.

 

A orientação escolar brasileira tem distintas fases históricas mas, em princípio, podemos dizer que, ao cabo de um largo tempo de experiências, a mesma desempenhou alguns papéis claros. Um deles foi o de contenção social e de acomodação do aluno a uma cultura e ideologia de domínio, utilizando dois modos de visualizar a realidade profissional: no primeiro, seguindo pelo trilha do psicologismo reducionista, criando situações de neo-consultório escolar e o outro o aconselhamento com base nos standards sociais mencionados.

Outro papel claro desempenhado pela orientação escolar foi no sentido de procurar dar um norte para uma possível carreira profissional especialmente para os adolescentes, através de testes que apontavam para uma profissionalização futura, utilizando-se testes de q.i e outros que, muitas vezes de modo isolado não contribuíam eficazmente para os propósitos buscados.

Se ponderarmos tais papéis, veremos que a orientação escolar pautou-se, basicamente, por uma intervenção normalizadora do ponto de vista social. Somente a partir de meados da década de sessenta do século vinte novas idéias iriam iniciar a gestação de novos caminhos profissionais, a partir do momento em que a escola foi invadida pelas premências sociais e pelos novos tempos de instabilidade que se seguiriam, sob o pano de fundo das inovações tecnológicas que sacudiam o mundo pós-segunda guerra e sob a influência dos movimentos anti-ditatoriais no Brasil.

A escola nova, os movimentos de enfrentamento ao regime não preparavam apenas um caminho distinto para o país, mas, em termos de escola, influíam para um constante repensar da orientação escolar dentro de uma sociedade que buscava cada vez mais uma independência que lhe era negada, sonegada e, cem vezes! postergada em nome da continuidade de um regime político sem nome que amordaçava consciências e liquidava iniciativas mais fluídas e flexíveis de ação.

O surgimento de um pensamento crítico-social passou então a reavaliar a própria orientação escolar, no sentido de explicitar os problemas que tinham sido até então conduzidos dentro de uma perspectiva meramente conservadora do ponto de vista ideológico e falsamente psicologizante do ponto de vista de enfrentamento às demandas da escola, especialmente aquelas nas quais o protagonismo adolescente se fazia mais visível do ponto de vista tido pela instituição como negativo: conflituações, antagonismos, diferenças, irresponsabilidades, não aprendizagem. O novo caminho trilhado pela orientação buscava justamente mediar tais circunstâncias, além de envolver de modo responsável todo o processo e os agentes escolares (reconhecidos mais tarde como comunidade escolar), ou seja, os professores, os pais, os alunos, os funcionários, que funcionariam, na escola, como um leque de pessoas envolvidas dentro do processo de aprendizagem.

A partir de uma maior criticidade das funções profissionais da orientação escolar, deslocaram-se os eixos norteadores que apontavam para a normalização comportamental, para o psicologismo e para os testes vocacionais, que passaram a ser substituídos pela mediação dos conflitos, pela possibilidade real do aluno construir sua história e pelo envolvimento mais efetivo da orientação no processo ensino-aprendizagem.

Ocorre, contudo, que as direções das escolas ou seu staff executivo administrativo-burocrático encaram de modo restritivo tais novos papéis da orientação, seja por conveniência, seja por desconhecimento ou pela imagem já firmada no sentido do que a orientação devia cumprir, tendo em vista sua história. Tais papéis seriam, além dos eixos anteriormente citados e já obsoletos, os de “bombeiro” (encaminha-se para o SOE os casos de indisciplina independentemente de qualquer outro fator) e a associação do SOE a uma função punitiva e de registro de ocorrências negativas.

Deste modo, o SOE passa a ser assoberbado por ocorrências, registros, invariáveis retiradas de alunos das salas de aula, tumultos e reclamações constantes, enfim, por uma parafernália de solicitações que se associam muito mais ao desconhecimento de suas próprias funções pelas direções de escola e demais membros da comunidade escolar do que pelos assuntos que deveriam realmente pautar suas práticas: mediação de conflitos, e não conflitos ou chamadas policialescas, envolvimento no processo de aprendizãgem (relações curriculares, relações entre professores-alunos, questões ligadas a sociabilidade dentro e fora da sala de aula, construção de códigos próprios de comunicação entre a comunidade escolar) e projetos específicos (sexualidade, datas relevantes a serem comemoradas, drogas, midia, eleições escolares, PPP, etc). Outrossim, as escolas deveriam ter muita consciência de que as questões de indisciplina não são resolvidas sem projetos específicos nos quais, por evidente, é necessário o envolvimento do SOE, o que não significa que o mesmo deva ser um órgão consagrado à punição e repressão dos alunos.

O SOE é feito para integrar, não para entregar, para mediar os conflitos e não para servir de amortecedor entre contendores; é para ajudar no processo de conscientização e não para evitar os fatos através de perspectiva do castigo. Por outro lado, enquanto as direções continuarem a entupir a orientação escolar com casos de indisciplina, os professores e os alunos continuarão se queixando da falta de projetos, de organização de de perspectivas alternativas dentro do dia-a-dia das escolas.

Dentro de uma perspectiva de médio e longo prazo, é uma estratégia equivocada o engessamento dos serviços da escola para tratarem de assuntos que deveriam ser objeto de uma discussão séria e de providências de fundo pedagógico-administrativas cuja iniciativa pertence a quem detém o poder de conduzir os rumos da escola. Mexer com a estrutura da escola e repensar administrativamente as questões das funções de cada um dos setores da escola é, sem dúvida, buscar uma retomada de posição que pode premiar o que está posto, e muitas vezes não funciona, ou procurar produzir uma estrutura mais flexível, arcando com os eventuais problemas surgidos, tratando-os dentro de uma perspectiva dialógica.

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