Aprendamos, pois


O que me encontrou já é passado e fez de mim ontem o que sou hoje. Não sei se devo, por ora, lamentar aquele que se foi, o que se tornou aparentemente livre, o que aprendeu a nadar e mergulhou em busca do outro lado do rio, onde se completará enquanto pessoa e identidade. Meu acordo não é com o homem-peixe, mas sim com aqueles que estão no processo de aprender a nadar; os últimos podem contar comigo. Aqueles que já se julgam completos, inteiros e integrais em suas essências por terem alcançado a outra margem, comigo não precisam nem podem contar. Julgam errado, pois diante do conhecimento são um nada, mas saberão isso com o tempo; sua única vantagem é a auto-confiança, e pouco mais além disso.

Enquanto me comprazo a ensinar, alguns se comprometem consigo mesmos a aprender, e vão me dizendo dos seus mundos, das suas experiências, das suas expectativas, enquanto os escuto, atento e interessado. Todos os que não entendem essas aprendizagem, pois, deverão vagar muito, do Atacama à Amazônia, do Chile à África, da Tunísia ao Cairo, até que seus corpos mintam sobre si próprios, indicando as ilusões às quais irão, jubilosamente, se submeter.

Penso que estamos incompletos todos, uns mais outros menos e que o sentido da incompletude é o que nos impulsiona além da própria margem que ainda não atingimos.

Se aos homens-peixe, os que já atingiram a margem adiante resta o orgulho de o terem feito, também lhes acode a arrogância do sucesso. Eles não mais tem, diante de suas prepotências, a visão de sentir que adiante há novos cursos de rios, extensões novas a serem exploradas e aí reside toda a ilusão e o vício da falsa completude: o da miragem.

Os homens-peixe irão se encastelar em seus pequenos feudos de materialidades e, ao invés de perseguirem o conhecimento e a sabedoria dosados com o humor que agrega, apenas atormentar-se-ão uns aos outros em uma guerrilha contínua de egos o que os levará a uma recôndita e não tão feliz infância, na qual pelejavam entre si para demonstrar, afirmar e provar que seus brinquedinhos eram melhores ou mais bonitos que o das outras crianças. Ontem, os bonecos de plástico, os soldadinhos de chumbo, os carrinhos de rolimã, os jogos de bolita, as bonecas femininas, os artefatos de dona de casa mirim, os anéis, as amarielinhas, as bolas de futebol e todos os brinquedos-jogos que ajudaram a criar e a separar as identidades de gênero e pela primeira vez mostraram a face do poder de possuir, de ter, de mandar e de submeter.

Hoje, os automóveis, os apartamentos, os dinheiros depositados, em crédito, a receber, a emprestar, a cobrar juros, a negociar, as gerências, os cargos de mando ou de submissão no sistema produtivo, as tevês de plasma e especialmente os cartões de crédito -muitos!– além dos desejos plastificados, mapeados e prontos à saciedade.

Esses os brinquedos preferenciais que provocam a luxúria e aumentam a guerrilha dos egos entre os homens-peixe, os que se conformaram onde estão. Aí o seu reinado, dos que, ao obterem a satisfação de terem chegado à primeira margem, onde todos os brinquedos os esperam, crêem firmemente que nada mais lhes resta a descobrir e por isso se sentem completos. A ilusão da matéria e da mercancia é forte e os trava na medida em que se comprazem aos seus novos brinquedos de infância atualizados e customizados. É como se tivessem aprendido a nadar em uma piscina, enquanto o oceano os aguarda, mas eles não conhecem o oceano…

Os homens-peixe são portanto incompletos, mas se entendem a si próprios completos, firmes: são tênues mas se entendem sólidos: são do comércio mas se pretendem filósofos ou talvez mesmo nem consigam se identifiquem. São, em tudo, homo faber, pessoas cujas aspirações, sonhos e projetos se esgotam no consumo e no imediato descarte do que por ora consumiram ou desejam consumir.

O homem no qual busco a identificação se sabe incompleto, mas também bem mais: que as materialidades e que os gadgets da vida são apenas isso, temporários em suas manifestações reais. Mesmo que não tenham ainda tomado a si de forma consciente tais pensamentos, se entendem como homens em formação, planetários, nos quais o seu desejo não é a autorização para a predação do outro, nem para se espojar de modo cínico e cruel sobre a mãe-terra. Aqueles que aprendem e buscam o conhecimento são flexíveis e neles as teorias não se transformaram em dogmas e nem a religião em cadeia. São sadios esses por essência, na sua capacidade de optar e sabem que a mesma somente será real através do que aprendam com o mundo e com o outro, não pretendendo, por isso matar esse outro, ou torná-lo seu refém.

O homem que aprende continuamente fala a língua do compartilhamento, da solidariedade e do não embrutecimento e por isso é parte das contradições da vida e das suas circunstâncias nem sempre humanas. Sabe, de antemão e instintivamente de sua incompletude e aceita com prazer o processo da aprendizagem. O que para o homem-peixe é uma finalidade última, para o homem em busca é um devir. Todos os bens que adquirir em sua história serão decorrência do que pacientemente aprendeu e todo seu conhecimento é uma dádiva a ser partilhada. O homem em processo busca quase que de modo sagrado sua própria essência humana e é humilde em aprender e generoso em compartilhar.

O homem em busca é como uma estrada helicoidal na qual a praxis e a teoria são flexíveis e abertas, diferentemente do homem-peixe que, tendo alcançado sua margem de repouso ali repousa, se cristalizando e trazendo do senso comum e dos reducionismos seus principais argumentos. Suas dúvidas são as do comerciante, do perde-ganha, das aparências. Ao homem-processo importa a criação do que antecipadamente vê, em um projeto sempre sujeito às mutabilidades do que seu aprendizado exige. No mais, sabe que as ilusões são isso, fantasias travestidas de realidades. O homem-peixe é um retrato de si próprio e o mundo foi criado para si e não o contrário. O homem-processo flui como um pássaro que se abandona às correntezas do vento, enquanto o homem-peixe busca controlar esse mesmo vento.

O que me faz ser o que sou não é o que pretendo ser, mas a ultimação das minhas vivências e das visões com as quais mergulho, incessantemente, no meu processo de aprender. Aos interessados, aprendamos, pois.

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