Conveniências e realidades


Pois, em algum livro de interesse, li que a sala dos professores é um dos locais mais estressantes que existe. Infelizmente a minha experiência me faz concordar com tal assertiva. Há muitos anos lecionando, já perdi a conta de quantas impropriedades, tolices, desmandos e idiossincrasias me brindaram em tal ambiente. Talvez por isso a minha tendência seja a de não permanecer ali nas horas de intervalo. É claro que, ao longo do tempo, algumas raríssimas amizades vão se solidificando.

O que ocorre é a proximidade de pessoas que, por se respeitarem, potencializam tais contatos diuturnos, o que pode ser potencializado e vir a se transformar em algo mais do que o cumprimento de uma agenda profissional. Contudo, isso depende de tempo, de confiança e de um envolvimento todo especial, que não pode ser confundido com conveniências que nada mais são do que os ajustes de interesses, que podem ser mais ou menos nobres, egóicos ou narcisistas, mais solidários ou individualistas até as raízes dos cabelos.

De qualquer modo, as conveniências existem e continuarão existindo. Satisfazê-las ou não depende de uma tábua de valores que vamos incorporando ao longo das nossas histórias e, que são elementos constitutivos de nossa personalidade. A questão de fundo é quando você, de modo ostensivo, sacrifica deliberadamente a sua tábua de valores em nome da conveniência, sua ou de outros.

Você deixa de ser o que o identifica consigo próprio ou a de outros. Você deixa de ser o que o identifica para ser simplesmente agradável, querido, etc., pelo outro. Você fratura a si mesmo e expõe a si mesmo, pois, por várias circunstâncias, pretende ser conveniente, azeitado, aceito por esse outro; você não se sustenta porque renunciou a sua identidade, não coloca seus pontos de vista e sua visão de mundo porque “não vale a pena”. Sua submissão o afoga e você simplesmente esqueceu como nadar ou apenas abandonou a si próprio.

O que alavanca esse processo de perda de auto-imagem, em princípio é a conveniência, mas também pode ser o sentimento de culpa, de depressão, de sentir-se vazio, pelo que você busca, para compensar tal situação, naturalizar o que não é de forma alguma natural, mas tão-só ideologicamente construído. Dentro de uma sociedade complexa, vários papéis devem ser exercidos e, para cada um deles, espera-se o desenvolvimento de habilidades específicas: a atenção no caso do aluno, o comprometimento profissional, a perícia em atividades de risco, a prontidão quando necessárias respostas rápidas, e assim por diante.

Há papéis sociais, contudo, que exigem mais do que habilidades, mas uma simbiose entre aquelas e o sentimento, o feeling, uma prontidão afetiva, amorosa, que pode mesmo levar a doses mais ou menos razoáveis de renúncias e sacrifícios pessoais. O mais evidente de todos esses papéis é o da filiação. Se você abre mão das suas convicções simplesmente para atender aos desejos dos seus filhos, você deixa de ser pai, passa a ser simplesmente uma pessoa com a qual eles entretêm relações de conveniência.

Cabe a você decidir o que fazer. A paternidade – de modo genérico – consciente leva a lidar com múltiplos cenários e com uma carta de valores distintos: amor, ética, compromissos, responsabilidade e educação, cada um significando e sendo significado dentro de uma relação que muitas vezes é confundida com mera conveniência.

Sendo tais fatores muito mais que especulações, temos ainda de considerar que vivemos em uma sociedade de consumidores, de alta rapidez e volatilidade, em que conversas necessárias com adolescentes são muitas vezes trocadas por bens materiais, como tênis, viagens, celulares, festas, etc. Mercancia-se com os adolescentes da mesma maneira como mercancia-se com um comerciante o preço de uma camisa. Isso implica em que o adolescente sofrerá uma perda no que respeita aos valores sociais e éticos que teria de desenvolver e seguramente desempenhar quando adulto. O mundo se resolve através da negociação e não através da mediação, o que é um erro. Há valores que não são passíveis de ser negociados; para bom entendedor, há situações e cenários que não se prestam para tanto.

De qualquer modo, a conveniência se presta sempre a quem não sustenta a sua posição ou tem interesses em se demonstrar desta ou daquela forma. A conveniência busca a submissão e se alimenta de vagos sentimentos de culpa, reais ou manipulados por terceiros. Ser conveniente é igualmente uma escolha pessoal, que pode ser evitada. Talvez a consideração desses fatos seja uma opção para refletirmos sobre nós mesmos e, especialmente, matutarmos sobre exercermos ou não o direito inalienável de nos respeitarmos, deixando de ser marionetes teleguiados pelo desejo de terceiros.

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