Farra pedagógica


Sábado fomos com a escola para uma atividade no Parque Chico Mendes. Uma aluna (que está sentada agora bem à minha frente) me olhou e, com uma expressão entre o desprezo e amargor disse: “chato!”. A intenção era a de ferir, falar mal, mostrar desprezo. Em aula desde março de 2009, a mesma nada fez no sentido de aprender algo, qualquer coisa, e isso não ocorre unicamente comigo, mas com vários colegas. Isso é rebeldia de adolescente? Não, é mera falta de educação, um modo consciente de agredir, escudado pela sua condição de adolescente e integrante de uma classe eufemisticamente chamada de popular.

Ela não só aposta no sistema escolar que a acolhe, como empiricamente tem a certeza de que tanto faz estudar ou não, cumprir tarefas escolares ou não, comprometer-se ou não com a aprendizagem; ao fim e ao cabo, ela será promovida, aprovada. Eu diria que ela tem cem por cento de razão.

No conselho de classe do final de 2009 haverá uma leva de argumentos no sentido de que ela deve ser promovida; uns alegarão que ela tem um enorme potencial de aprendizagem, embora no ano em curso nada indique que isso é verdadeiro, pelo seu real não-envolvimento com o aprender; alguns citarão que ela tem alguns problemas sérios, ou que ela “evoluiu muito de 2008 para agora”, seja lá o que isso signifique; sempre haverá os que dirão que ela assistiu a maioria das aulas, como se o curso fundamental não fosse presencial e o fato de assistir aulas fosse uma concessão da aluna.

Por fim, duas razões levarão à aprovação automática da mesma:

(a) alguém dirá que “foi provado” que a reprovação apenas estigmatiza o aluno, etc, e/ou

(b) brotará o documento da SMED que impede a retenção de qualquer aluno em quaisquer dos anos ciclos, à exceção dos anos finais, que são as B30 e as C30.

Como a aluna está matriculada em uma C10, correspondente à sexta série no regime seriado, ela está blindada contra uma possível reprovação. Como ato final della comedia, passarão todos os professores envolvidos à decisão do Conselho, que é tão favorável ao parecer do professor em relação à aluna quanto o lobo a favor de sua caça.

Esse é o cenário real.

Dizem alguns que “a culpa é dos ciclos”. Penso que não. Afinal os mesmos não gerem a si próprios, não praticam autopoiese, nem são passíveis de geração espontânea, de toda espancada por Darwin. Para o meu entendimento o desmando atende a critérios de gestão financeira.

Do ponto de vista do Município de Porto Alegre a situação é muito interessante, bastando para isso ajustar o timing da Secretaria Municipal de Educação (SMED) aos seus propósitos e controlar via administrativa à rede municipal de ensino. Tais ajustamentos atendem a aprovação automática, o que aumenta consideravelmente os índices de qualidade de vida de Porto Alegre, servindo para efeitos políticos e como perfil favorável do Município quando este necessite de algum aporte financeiro externo no qual tal índice figure; o fluxo do aluno no curso fundamental é basicamente contínuo, o que diminui as despesas públicas em relação a alunos que, não aprovados, as aumentariam: a não aprovação permitiria a formação de gargalos que deveriam ser resolvidos do ponto de vista pedagógico e econômico, o que é de todo desaconselhável.

É, portanto, cínico o argumento da SMED quando faz todo o empenho possível para que o aluno “passe de ano” para não ser vitimizado pelo fato de ter uma vida social longe do acesso aos bens culturais e de consumo das classes média e alta. Ah, sim, mas se por acaso a aluna fizesse parte de uma C30, somente poderia ser retida a partir da elaboração de um dossiê que prove que realmente ela não pode ser promovida; tal dossiê é exigência da SMED e será analisado pela Secretaria e não no âmbito da escola; em outras palavras, a política é esvaziar ao máximo o papel do professor enquanto profissional.

Não importa se é ele quem conhece os alunos, se é ele que convive com os mesmos no dia-a-dia, se é ao mesmo que os alunos se reportam durante o ano letivo e se é dele a responsabilidade pela regência de classe. Embora padeça de todos os ônus, atualmente o professor somente decide o gosto da pizza que vai comer.

A minha aluna pode ficar tranqüila quanto a sua aprovação, e, além dela, a imensa maioria dos alunos que cursam as B 10, B 20, C10 e C20; na verdade ela somente poderá ter problemas na C30 (oitava série do ensino fundamental), isso daqui a dois anos. Recebido o diploma de formada no ensino fundamental, deixará a escola e somente aí perceberá o que significaram esses anos de farra pedagógica.

O Estado do Rio Grande do Sul não adota o regime de ciclo de estudos no ensino médio, e a mesma será submetida então aos critérios de avaliação quantitativa, a uma média de aprovação pré-estabelecida e terá, talvez, um primeiro choque de realidade. É possível então que ela desista de estudar, ou talvez progrida. De todo modo, isso já será uma outra história, talvez bem mais interessante, até porque o enredo da atual, que agora concluo, é, no mínimo deprimente.

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