Filhos querem pais


12 outubro de 2006

 

“[…]… a criança constitui seus esquemas comportamentais, cognitivos e de avaliação através das formas que assumem as reelações de interdependência com as pessoas que as cercam com mais freqüência e por mais tempo, ou seja, os membros da família. […] Suas ações são reações que ’se apóiam’ relacionalmente nas ações dos adultos que, sem sabê-lo, desenham, traçam espaços de comportamentos e de representações possíveis para ela”.
LAHIRE, B. in Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável, p.17. São Paulo. Ática.

 

 

Senhores pais:

Por favor, convençam-se: os filhos são seus.Eles não são da escola, nem da sociedade, menos ainda dos professores ou de qualquer instituição. São seus. E são seus apenas pelo tempo suficiente para que se tornem pessoas adultas, éticas e socialmente responsáveis.

Entendam, pais, que a responsabilidade maior pela educação dos seus filhos não é, nunca foi e nem será da escola. Que a educação é um oceano e que o ensino formal, comparativamente, é um laguinho. Que, no máximo, tal responsabilidade será compartilhada com a escola. Mais: que é uma mentira deslavada que os professores são os segundos pais. Eles não são, e não há o mínimo sentido em se procurar atribuir aos mesmos esses papéis. Portanto, a responsabilidade pela educação das crianças é, em primeira e última análise, dos pais. E é intransferível.

Enquanto um professor tem cerca de vinte e cinco a trinta cianças (talvez mais) por turma para tentar construir noções de conhecimento e sociabilidade, os pais tem apenas seus filhos. Portanto, não deleguem à escola responsabilidades adicionais, porque a mesma não tem estrutura nem condições de suprir o papel dos pais.

Pais.

Convençam-se de uma vez por todas que cada vez que você bater, espancar, humilhar ou tratar de modo frio e irresponsável ao seu filho, não acompanhá-lo na escola, não saber quem são seus amigos e interesses, descuidar de sua higiene, saúde, alimentação ou ainda entregá-lo como se fosse uma camiseta a algum parente distante para “criá-lo”, você estará incentivando a infelicidade do seu filho e sobrecarregando a sociedade.

As redes sociais de atendimento não dão conta das crianças e adolescentes que apresentam problemas neurológicos, psicológicos, pediátricos, psicopedagógicos, de fracasso escolar, de carência afetiva, de drogadição, de falta de amor, de violência passiva ou ativa na qual são protagonistas, das infreqüências escolares, das ausências materna e paterna, dos abusos sexuais, da pancadaria e da mais brutal indiferença.

Portanto, senhores pais, não sejam ignorantes em relação aos seus filhos, mas carinhosos e atenciosos. Escutem-nos.Tracem limites sem violência. Na verdade, amem seus filhos. Se vocês não o fizerem, ninguém irá fazê-lo na medida que vocês o fariam.

Não vivam de ilusões e procurem, senhores pais, aprender, e muito, sobre seus filhos. Leiam, conversem, troquem idéias, procurem, agilizem, investiguem comportamentos, interessem-se pelos seus filhos, saibam o que é infância e o que é adolescência. Vão à escola, falem com os professores, indaguem quando há Conselhos de Classe, oportunizem possibilidades de crescimento, não fiquem jogando suas responsabilidades para os outros.

Conversem para que as adolescentes não engravidem. Cuidem de seus interesses, assumam o lugar de pais e mães, do ponto de vista social e afetivo. Eduquem seus filhos para o mundo e não o contrário. Ensinem que a felicidade pessoal não se encontra na arrogância ou a partir da submissão de terceiros. Que a violência tem várias faces, e que uma das mais claras é a do individualismo e da vitimização.

Não se constituam, senhores pais, na principal dificuldade que seus filhos devam superar para se tornarem pessoas felizes e que se entendam valorizadas na sociedade e no mundo.

Se, contudo, optarem pela transferência de responsabilidades, fiquem certos: o preço cobrado será alto. Na maioria das vezes, impossível de pagar.

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