Indiferença


Há uma passagem simbólica importante, mas notoriamente evitada, na qual o professor simplesmente se desimporta em relação à aprendizagem de uma turma, ou de um grupo de alunos. Neste ponto, ele já foi tão contestado em sua autoridade legítima que provêm do seu conhecimento, já foi tão humilhado pelo constante comportamento de seus alunos, já foi tão depreciado enquanto profissional, tão pressionado pelo deboche dos seus alunos ou teve de escutar tantos discursos  compensatórios que, finalmente ele diz: chega!

Quando esse basta! ocorre em razão de algumas situações específicas, mesmo que prolongadas, ele, profissional, irá refletir, como faz incontáveis vezes, e continuará a buscar um ambiente de aprendizagem. Levemos em conta que um professor não é um revolucionário, mas é constante, insistente em sua tarefa de ensinar e por isso ele tende ao retorno. No entanto, por melhores os votos e desejos, sempre há possibilidades de rupturas e mais do que ninguém, ele sabe que não é possível ensinar a quem não está interessado em aprender. Simples assim.

Quando os recursos se esgotaram, temos de nos render à realidade, a não ser que queiramos infartar precocemente; trata-se aqui de uma mudança de perspectiva. Se é impossível o contrato pedagógico, uma opção possível, embora não confortável, é abortá-lo.

Se você é sistematicamente e de modo consistente impedido de ensinar e se tal fato é recorrente em relação aos seus pares, é hora de buscar recursos nos serviços da escola, e se isso não funcionar, a despeito de reuniões, chamamento aos pais, confecções de atas recorrentes, conversas formais e informais com alunos, pais, colegas, se já houve todo o possível e nada disso funcionou, entenda que está na hora de você parar de mentir para você mesmo e para os outros. Corajosamente, com seu senso crítico funcionando plenamente, sem culpa, sem achar que o mundo depende de você, sem querer ser pai e mãe, sem pensar “no futuro dessas crianças” – o que é de tudo um embuste ideológico -, simplesmente objetivando preservar sua saúde mental e psicológica, está mais do que na hora de parar.

Treine sua indiferença para não se tornar algo patético, perdido, alienado, castrado em seu direito de agir e pensar. Ou então jogue-se no infortúnio: sempre haverá alguém para visitá-lo, para dividir lágrimas purgadas em meio às lamentações e aos achaques de culpa, não se preocupe quanto a isso. Mea culpa, mea maxima culpa.

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