Matriculados, alunos e estudantes


Não são poucos os alunos que, pelos mais variados fatores, sendo incompetentes em relação a uma ou mais disciplinas, comprazem-se em não manter o foco nos assuntos tratados e, após o professor(a) concluir um tema, manifestam um prazer quase sádico em dizer que “não entendeu nada” do que foi explicitado. É claro que isso é um exercício sado-masoquista, um kamikase intelectual.

Muitas vezes a pretensão, além de molestar-se a si próprio (do ponto de vista psicológico, o não aprender é um luto que afeta a autoestima) é deixar claro ao professor que

(1) o mesmo não sabe ensinar ou está fazendo suas tentativas de modo anárquico e meramente empírico,

(2) que não há interesse pelos temas tratados e que, em decorrência

(3) seria aconselhável que o professor passasse a ser um objeto de disponibilidade constante para “explicar” mesmo se ele, aluno, não manifestar qualquer tentativa de entender o que está sendo dito. Alguns alunos, ao agir desse modo, ao dizer que “não vão fazer nada” ou que “não entenderam nada” ainda emendam um sorriso melífluo à lá Mona Lisa.

Os mesmos, em verdade, não são alunos: são apenas matriculados. Não sei se para você, mas eu entende que há distinções claras entre ser matriculado, ser aluno e, finalmente, ser estudante.

Um matriculado é alguém que, tendo atingido idade mínima para ingressar no sistema formal de ensino, o faz, ou melhor, é compelido a tanto pois os pais ou responsáveis tem o dever legal da matrícula, sob as penas da lei, especialmente regidas pelo estatuto da criança e do adolescente, juizados da infância e da juventude, conselhos tutelares e assim por diante.

Um aluno é, segundo a etimologia da palavra, que deriva do grego, uma pessoa “sem luz” (a-lumem), que será iluminada pelo seu preceptor, no caso seu professor, que lhe transmitirá as luzes do saber, do conhecimento. O aluno, assim entendido é um receptáculo de conteúdos, passivo em relação ao processo de ensino e de aprendizagem. Um estudante é um aluno qualificado pela importância e reconhecimento em relação à sua aprendizagem.

Deveríamos ter muito mais estudantes, assim como bem mais educadores, ao invés de professores. Infelizmente a maioria esmagadora varia entre matriculados e alunos. Ser estudante não é ser alguém que tem baixa margem de erros (embora isso seja razoavelmente comum, pela sua aplicação e por manter o foco na aprendizagem), mas alguém que se valoriza enquanto pessoa em formação dentro da educação formal. É alguém que se convenceu de que, entre escolher a força bruta e a inteligência produtiva, decidiu pela segunda. Com o tempo, e na medida em que progride e amadurece, o estudante passa a se (pre)ocupar, cada vez menos com a avaliação (seja de que natureza for) e cada vez mais com o estudo. Não há a figura do estudante sem motivação e boa autoestima.

 Os matriculados estão na escola por estar. Por outro lado, há uma indefinição quanto ao que fazer com os mesmos, que, entre outros factóides, brincam de tornar reféns dos seus comportamentos os demais, sejam alunos, professores, outros matriculados, etc, etc, etc. Há uma densa corrente pedagógica e ideológica que entende que os mesmos são os excluídos injustiçados pelo sistema (qualquer que seja) e que, portanto, devem ser protegidos, devendo toda e qualquer situação de fracasso ser irrogada ao sistema de ensino, aos professores, aos pais, aos funcionários ou, de modo geral, à sociedade no qual tais matriculados são indiscutivelmente pários que devem ser resgatados, aprovados de qualquer modo como forma de compensação social, mimados, adulados por todos que indistintamente tem culpa pela situação dos mesmos.

Os matriculados sempre tem problemas, enquanto os estudantes parecem não ter qualquer tipo de problema, não tem pais irresponsáveis, não vivem sob más condições, tem todo material didático e pedagógico disponível e a vida lhes sorri de um modo especial. Nem um argumento está correto nem o outro. Nem sempre os matriculados tem tantas dificuldades externas e nem sempre a vida é agradável aos estudantes. Como se trata de uma escola, onde a finalidade é a aprendizagem em todos os níveis, quando se trata de cognição pensa-se erradamente que bons conceitos ou boas notas são sinal de que o estudante tem a vida mansa, enquanto os que não tem tanto são quase mártires.

O que mais incomoda é que os matriculados construíram de modo eficaz, na base da culpa (dos outros) e da carência (muitas vezes existente) uma rede de compensações que os torna quase que inatingíveis. Há um sistema jurídico, legal e, no caso da escola, uma linha de pensamento dominante, segundo a qual os matriculados são um pouco mais que coitados, devendo ser constantemente objeto de compensações sociais e, no caso da escola, pedagógicas. Se isso já é uma distorção, imagine-se quando se junta aos matriculados a noção clara de que podem ser indisciplinados, não necessitam cumprir as suas tarefas e que serão aprovados de modo automático que premia do mesmo modo o pertinaz e o inconstante, o responsável e o “tô nem aí”, o atento e o “não dá nada”, o merecedor e o “e daí? vou passar de qualquer modo…”

Concorre para tanto não apenas o laissez faire instituído, mas uma política educacional gestada para a promoção da ignorância, por um lado, e para a melhoria das aprovações automáticas por outro, o que, sem dúvida, ajuda a contemplar os IDH (índice de desenvolvimento humano) de alguns municípios, com as devidas conseqüências benéficas do ponto de vista político, social e econômico.

Por conta dessa política, os matriculados podem mesmo ser sarcásticos, irresponsáveis, violentos, usarem de deboche e, na prática, desestabilizarem um ambiente educador e3 manterem professores e colegas reféns, gritando pelos corredores e cometendo toda série de estupidezas possíveis, a partir do momento em que concorrem algumas condições básicas:

1) a escola, enquanto instituição, de modo implícito em seu discurso, desiste, abre mão, se mantém omissa em relação à sua função principal, que é a de ensinar, seja do ponto de vista cognitivo, seja do ponto de vista social, e

2) há um sistema legal e pedagógico que estimula e corrobora o principado da estupidez e, por fim

3) o corpo discente não apresenta consciência suficiente para exercer sua profissão e encará-la de modo coerente e socialmente compatível com a importância que possui.

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