O que a escola não ensina


Há alguns anos atrás, fui assistir uma palestra de Frei Betto aqui em Porto Alegre. Um de seus argumentos que mais me impressionou foi a afirmação de que as escolas não se proecupam em ensinar os fatos da vida para os seus alunos. Ou seja, passei a pensar no que as escolas não ensinam, e que estão além do currículo linear que até hoje se pratica. Creio que ele tem razão.

As escolas não ensinam a lidar com as questões que mais afetam as pessoas. Os lutos, as perdas, a afetividade, os aborrecimentos, a sexualidade, os valores éticos e morais (não moralistas, por favor!), como negociar, como entender-se dentro de um mundo tão simbólico e fragmentário, como fazer um prato de comida, como ouvir o outro, como compartilhar, o que é ser solidário, de que modo e como funcionam as instituições, para que ou para quem especialmente servem, a diferença de público e de privado e suas interações, as questões da mídia, o mundo do consumo, o erotismo como meio de venda, o uso dos espaços públicos, a tecnologia, o desenvolvimento de talentos, como pesquisar, como trabalhar em grupo, como expressar claramente suas idéias, seja por escrito, seja pela fala, nada, nada disso é assunto específico da escola, e os tratamentos que esses assuntos recebem são pífios ou indiretos ou nulos.

No entanto, é disso, e muito, que todos nós precisamos. As famílias hoje, muitas vezes desdenham ou, se não o fazem, pouco avançam em relação a esses assuntos, e, como a escola institucionalmente não lhes dá atenção, fica um hiato muito grande em termos de formação. Não adianta saber fazer o cálculo de uma equação se não sei ou não quero  compartilhar com o meu colega ao lado o conhecimento que consegui apreender. De que vale saber escrever com acentos, parágrafos, porquês colocados corretamente, se não consigo transmitir minhas idéias, se fico vagando entre interpretações tão variadas que simplesmente o sentido do que quero expressar se perde? Que adianta escrever redações que ninguém (a não ser o professor) vai ler, se ela não me fizer crescer?

Não adianta, portanto, simplesmente ser um bom aluno no sentido meramente institucional; bem melhor é ser alguém que cresce com seu conhecimento, não apenas do ponto de vista cognitivo, mas, essencialmente, social. Vivemos em uma época repleta de especialistas que foram ensinados que as coisas não se relacionam entre si, que basta possuir uma tecnologia que faça medições e me dê valores exatos ou aproximados para que isso baste. Não se entende um mundo como um sistema orgânico, multidisciplinar, não linear e, não raro, imprevisível. Queremos dar um tratamento anti-humano ao que é humano, queremos que comportamentos competitivos sejam um padrão.

Repetimos ad nauseam o que sabemos desde que nascemos, e por isso as pessoas criativas tem certas dificuldades em lidar com os conservadorismos atávicos, e acabam por aí, tentando entender porque as pessoas não olham a lua e preferem ver qual o índice Dow Jones do dia. Nossos parâmetros são pautados por um pensamento industrial. Somos homo faber, para o bem ou para o mal. Todos filhos e aprendizes do Sr. Mercado.

 Os pais não se importam com os filhos na escola, desde que eles passem no vestibular. Mudando um pouco o ângulo, os pais não se incomodam com os filhos na escola, desde que eles possam fazer uns bicos por aí, cuidar de um irmão, vender algo na sinaleira e aprender as quatro operações. Se os filhos dos segundos atacarem os filhos dos primeiros, serão considerados marginais, mas haverá uma ideologia para resgatá-los do argumento que os marginaliza. Se os filhos dos primeiros atacarem os segundos, haverá um exército de psicólogos para entender o comportamento errático daqueles.Enquanto isso, a escola ensina geometria, ensina geografia física e não geografia humana, ensina gramática ao invés de ensinar a escrever, ensina competição esportiva e não esporte como lazer e saúde, ensina o que for possível curricularmente dentro de um espaço mínimo de abertura e de flexibilidade, e especialmente ensina de modo totalmente dissociado da família dos seus alunos e da comunidade que, por vezes, não se importa absolutamente com o que está acontecendo. Enquanto isso, el tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos…    

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