O terceiro instruído


 

À GUISA DE INTRODUÇÃO

Há textos que passam ideias que deveríamos conhecer mas que, por desencontros, não tomamos ciência. E assim atravessamos com nossas vontades e desconfianças ao largo do que nos poderia fazer refletir melhor não apenas sobre nossas práticas, mas especialmente sobre o porquê das mesmas.

Há alguma coisa que aprisiona quando buscamos meramente a razão, assim como ocorre quando reduzimos nossos pensamentos ao dogma e à fé cega. Talvez, no fundo, essa seja a trilha do conhecimento, não daquele com o qual nos querem obrigar a conviver, aquele árido, perfeito em dados e hipóteses, mas pobre em beleza, mísero em  bondades. Ser educador é, sobretudo cultivar valores como solidariedade e humanismo e, por aqui, já me estendo mais do que o suficiente.

Desfrutemos uma parte do texto de Michel Serres, Le Tiers-Instruit, com direitos para Portugal do Instituto Piaget, Lisboa. 

Hilton B.

 


 

O TERCEIRO INSTRUÍDO

Michel Serres

 

 

DE  NOVO SOB O SOL, AQUI

 

Os adultos designam como acidentes escolares, cobertos pelo seguro, esses verdadeiros crimes perpetrados conscientemente, na aparente turbulência das suas brincadeiras, por menores irresponsáveis judicialmente. Na saída seguinte para o recreio, portanto, soava a hora da vingança ou do ajuste de contas, como se fazia nos jornais para o que era a guerra dos mais crescidos, uma batalha preparada pelo campo adversário através de sinais e mensagens que circulavam entre a classe, de mão em mão nas carteiras, sob o olhar paternal e obstinado do professor. O grito geral quando a porta se abria depois de a campainha tocar e em que os adultos julgavam exprimir o alívio bem legítimo de abandonar finalmente os cadernos em branco e o quadro negro, mas que significava simplesmente a reabertura das hostilidades.

Quando escuto o toque de qualquer campainha que divide esses tempos nos estabelecimentos ditos de ensino, sei como estremeço de terror.

Regressados ao nosso próprio meio, o tempo civil e familiar ritmava-se do mesmo modo: sirenes dos bombardeamentos, vários sinais de alerta, informações que anunciam, hora após hora, depois da música indicativa, a abertura de novas bolsas de caça. Entre a revolução espanhola de 1936, a Segunda Guerra Mundial e o seu termo somado a Hiroxima, nenhuma criança poderia perceber a diferença entre essas gigantescas práticas de morte e as vinganças sem perdão que opunham todos os lobos, filhos de lobos e futuros pais dos mesmos, pelo eterno regresso do mesmo sinal para ritmar as horas, lei morna da nossa história pequena ou grande, como sinal nos reflexos dos cães.

Finalmente, soa a campainha. Quem não terá gostado do repouso silencioso e de um certo cheiro de paraíso, na sala de aula, quando a porta impedia as tempestades do pátio de recreio e o bom professor recitava duas quadras sobre idílicas vindimas em que realmente o autor não tinha participado, porque a algazarra não parava mesmo já nas dornas em que os sexos, cruelmente, se entrechocavam: mas o que se canta nos poemas será essa felicidade calma do bucólico? Acreditei durante muito tempo, pelo menos até aos nove anos, na paz ideal do intelecto, nas pastorais, na utopia das figuras e dos nomes, até o momento em que, sete vezes abençoado, compreendi de súbito que as amava porque o professor as distinguia como de primeira classe e me cobria com a sua sombra: desse lado do muro, me reencontrei, pois, sob o mesmo vento de uma outra força, duro e altivo, lutador corajoso, chefe de gang… Um horror, ignóbil desgosto, adivinhando já os elogios servis em certos olhares e a canga às costas. Essa vergonha inundou-me e nunca mais me abandonou, como paixão secreta que me leva a falar agora de nós mesmos, das nossas manigâncias especulativas e do seu mal essencial, ocultos num outro espaço, utopia intelectual, e separados no tempo por qualquer indicativo sonoro.

Passei grande parte da minha vida em barcos de guerra e em anfiteatros para testemunhar perante a juventude, que já sabe isso, que não existe nenhuma diferença entre os hábitos puramente animais, isto é, hierárquicos, desde o pátio de recreio, as tácticas militares e os comportamentos acadêmicos: reina o mesmo terror dentro do pátio, dentro dos lança-torpedos ou nos meios universitários, ou seja, esse medo que pode passar pela paixão fundamental dos trabalhadores intelectuais, sob a dimensão majestosa do saber absoluto, esse fantasma que está de pé atrás perante aqueles que escrevem na sua mesa. Eu sinto-o e adivinho-o, fétido, viscoso, bestial, regressando a cada passo como o retinir da campainha, abrindo e encerrando colóquios em que vocifera a eloqüência para aterrorizar os que falam à sua volta.

Longe de nos aproximar da paz, a ciência e a inteligência distanciam-nos mais do músculo, da garganta ou da estatura. A cultura continua a sua guerra por outros meios – talvez através ainda dos mesmos. Encontramos nos gangs teóricos os mesmos pequenos chefes, com efeito, os mesmos lugares-tenentes, por entre a mesma obediência servil e em semelhantes legiões pacíficas, curvados humildemente sob os ventos da força, que por vezes julgam estar na moda, ou pior, que eles tomam com freqüência por verdade. Chamar campus ao ambiente das universidades é uma coisa tão literal dado que esse termo designava outrora o campo ocupado à noite pelos soldados de Roma antes do ataque ou durante a sua defesa. De facto, os peritos sabem a que facção, a que gang pertence este ou aquele campus e que grupo de pressão tem aí a palavra.

Ora, os meios intelectuais, lingüísticos, teóricos, sabem que no travar dessa guerra não se comparam aos arrogantes e lutadores no pátio do recreio: revelam-se mais finos, astutos, globais e transparentes até à irresponsabilidade inocente da especulação pura. O mais forte pugilista do mundo apenas se deixa cair perante um golpe inesperado, com um swing ou um uppercut, e parece-me um santo do paraíso ao lado do físico teórico cuja equação pode fazer abalar a Terra ou do filósofo escravizador de povos inteiros ao longo de algumas gerações – ou a seita que o imita durante a sua carreira. Criamos hoje filosofias tão globais que elas irradiam por toda a história e encerram o futuro, com estratégias tão poderosas que atingem a mesma dissuasão conseguida com a arma atômica e decidem sobre um genocídio cultural perfeitamente eficaz.

Eis assim definido o mal próprio dos nossos trabalhos: como qualquer coeficiente, a inteligência multiplica até onde quiser a sua própria vingança e parece mesmo anulá-la dissimulando-se. Mas por muito vingativamente que actue, a violência cresce pouco e lentamente, através dos punhos e dos pés, mas sobe até o céu e invade o tempo e a história, desde que a razão assuma os comandos.

Assim, as nossas políticas tradicionais, como as ciências actuais dos jogos de estratégia, sobrevalorizam gravemente o papel pacificador do conhecimento racional: esse contra-senso dá origem à autopublicidade dessas disciplinas. A razão gira sempre em redor da proporção e da dominância. Estabelece, pois, uma ponte entre a classe e o pátio dito de recreio.

Porque é que, pelo contrário, a filosofia tende a designar-se deste modo? Porque não se lhe pede para amar a inteligência, o saber ou a razão, mas antes Sofia, a sabedoria. Que sabedoria?

O conhecimento pacificado.

Sem saber isso, o saber entrega-se a um ofício arriscado, para os sábios e para os outros, isto é, um perigo que apenas descobrimos em momentos de tensão ou de crise. Como filósofo universitário francês do pós-guerra, tenho infelizmente sobrevivido a vários terrores desencadeados por teóricos serventuários de ideologias políticas ou acadêmicas, principais directores de grupos que mantêm sob a sua pressão o espaço do campus, as nomeações e as notas de pé de página, proíbem a todo o custo qualquer liberdade de pensamento, mas são terrores de que não torno responsável qualquer determinado indivíduo nem uma dada seita, dado que isso equivaleria a vingar-me, e antes condeno o próprio funcionamento da inteligência na instituição e desta na primeira, a implicação recíproca da ciência na sociedade.

Assim, por higiene do corpo e do espírito, pude imaginar para meu uso privado algumas regras de moral ou de deontologia:

Depois de um exame atento, não se deve adoptar nenhuma idéia que revele, com evidência, qualquer vestígio de vingança. Por vezes a raiva ocupa o lugar do pensamento, mas sempre o diminui.

Nunca se meter em polemicas.

Evitar qualquer dependência: fugir não apenas muito simplesmente de qualquer grupo de pressão, mas também de toda a disciplina científica definida, campus local e sábio na batalha global e societária ou diminuição sectorial no debate científico. Portanto, nem mestre, nem sobretudo discípulo.

 

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