Insights, abstrações e imaginações (nem sempre nesta ordem)


Contamos várias histórias para as crianças, e cada vez que o fizemos, as ajudamos a representar o mundo, recriando-o interiormente através de suas fantasias. Ler o mundo é abstrair, mas o termo abstrair é mais pesado do que o imaginar. São estranhas essas definições, uma vez que, se não tenho a capacidade de imaginar, como terei a de abstrair e vice-versa?

Uma criança imagina um dragão atravessando paredes e inundando tudo com o fogo que lhe brota da bocarra e o herói que irá mata-lo para sempre, mas muitas vezes tem dificuldade em abstrair o que o (a) professor (a) diz sobre alfabetização. No entanto, lá na fase pré-silábica – para outros pré-letrada de acordo com a escola pedagógica que se adote – diz que a palavra formiga é menor do que a palavra boi porque, imageticamente, associa tais animais – o boi e a formiga – às respectivas palavras. Portanto, imagina a partir do que (re)conhece, e apresenta uma lógica consistente dentro do seu nível de apreensão da realidade. Se o boi é maior que a formiga, logicamente a palavra que o representa deve ser maior do que a palavra que representa a formiga.

Mais tarde, quando em matemática ouvir falar em conectores lógicos (se a é verdadeiro e b é verdadeiro e ambos implicam em c, igualmente c será verdadeiro, por exemplo) irá, na maioria dos casos, entender que essas implicações são difíceis de assimilar e, não raro, perderá qualquer interesse real pelo que está compelido a aprender. As inferências lógicas que fez lá na alfabetização parecerão não ter qualquer ligação com os conectores lógicos matemáticos.

Se a é formiga e b é boi, a palavra formiga será associada a a e a palavra b será associada a boi.

Se a formiga é menor que o boi, a palavra formiga é, logicamente menor que a palavra boi. O raciocínio é lógico e a conclusão idem. Ocorre, porém, um erro de origem: nem sempre os significantes são associados logicamente com aquilo que representam.

Assim, imaginar parece um significante associado à coisa lúdica, ao entretenimento, ao prazer, à livre associação enquanto abstrair remete para situações mais densas, mais complexas e comprometidas. Quando imagino, estou livre, mas quando abstraio, parece que não.

A escola, em sua estrutura linear, quer que o aluno seja capaz de abstrair, nem tanto de imaginar. Parece bobagem semântica, mas não é. O abstrair está ligado a um tipo de pensamento linear, a uma intencionalidade, a um prestar contas para alguém de algo que precisamos saber, ou que deveríamos saber.

 A imaginação, contudo, é normalmente associada ao ócio. E o ócio só é abençoado, na média, pelos que o entendem como absolutamente necessário para uma vida saudável, enquanto é demonizado pelos demais, aqueles que trabalham para que os primeiros lucrem e gozem do mesmo ócio.

Quando alguém tem uma ideia, quando entende algo e realmente se apropria do conhecimento, o faz porque usou a imaginação ou a abstração? Ou isso é uma armadilha?

Na escola, é importante abstrair para alavancar o processo ensino-aprendizagem. Também o é para cumprirmos o currículo formal. Currículo é uma palavra grega cuja significação é a de uma pista fechada onde se corre durante um determinado tempo para atingir um determinado objetivo, portanto não tem muito espaço para discussão. É cumprir, fazer e pronto.  O currículo, portanto, é um sistema fechado e a abstração o instrumento eleito para que se perfaça o que de nós esperam que façamos. Daí a linearidade, a convenção de que currículos e abstrações são entidades, grosso modo, que são auto complementares. Currículos necessitam de uma  estrutura formal lógica, os denominados pré-requisitos, mas em tudo é indispensável abstrair.

Imaginar, contudo, é um produto mental que não depende de absolutamente nada, que não requer anterioridades, que vaga entre conceitos e que, portanto, tem uma flutuação que se assemelha às redes complexas tão explicitadas por Morin, por Capra, pelos fundadores do pensamento complexo, pelos que entendem que não basta entender as partes para deduzir o comportamento do todo. O todo tem um comportamento distinto. O todo é emergente, dispensando estruturas rígidas, não flexíveis. O todo não se esgota, porque pode ser associado a outras instâncias.

Quando um profissional imagina uma solução criativa a um problema que o vem estressando, não se diz que ele imaginou a solução, mas que ele teve um insight. Adultos tem insights, crianças imaginam. Interessante isso, e não apenas do ponto de vista linguístico…

Abstrair é cartesiano, imaginar é fluido. Devem caber ainda muitas outras considerações, mas o texto acaba aqui. Por enquanto, estou apenas imaginando o que mais possa ser dito a respeito do tema. Quando tiver um insight, saberemos…

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