Alienando por dentro do sistema


Hoje, dia 18 de dezembro de 2007.

Um aluno, que vou chamar de Abílio, cujo comportamento foi absolutamente relapso durante todo o ano letivo de 2007, percebeu que o soldadinho-do-passo-certo, o estranho, o off road, ou seja, eu mesmo ia realmente dar aula de matemática em sua turma no último dia letivo.

“Ah, não! Que merda!”, gritou contrariado.

Contrariado deveria estar eu mesmo, porque sei que ele, assim como tantos outros irão “passar de ano” graças ao sistema educacional implantado pela SMED e jamais por méritos próprios, Ontem, em conselho de classe, descobri tardiamente que, se um aluno é mantido por um ano em qualquer um dos ciclos, não pode ser retido pela segunda vez no mesmo ciclo, à exceção de casos de infreqüência ou infreqüência prolongada. Essa regra só não vale para os alunos que estão em B 30 ou C 30, ou seja, nos anos que são os finais dos ciclos. Lembra-me muito um “bônus” pedagógico, um passaporte, uma isenção.

Agora, já tendo participado do conselho de classe da turma do Abílio, vejo os mesmos alunos inconseqüentes se apinharem, brincando de riscar as carteiras, O próprio Abílio simplesmente não trouxe material, obviamente por motivos por demais conhecidos, sendo também de notar que ele não vai pedir material para qualquer dos colegas, porque é “melhor” ficar sem fazer nada em sala de aula. Outro desses “Abílios” tentava conversar com outro colega de sala, mas aquele não lhe dava muita atenção. Uma pena, para ele que os demais alunos estavam realmente fazendo suas tarefas e não estavam interessados na bagunça que o mesmo tentava organizar.

Daqui a um ano, no final de 2008, todos (ou quase todos) estarão ingressando no ensino médio, para serem avaliados de modo quantitativo, com objetivos a serem cumprido sem determinado tempo e, provavelmente, sem acolhimento.

Então, o que se constata é que é inútil, é enganador que alunos que não tem condições de progredir, progridam. Você está escamoteando a verdade, mas ela vai surgir, mais dia menos dia, e por isso as realidades se impõem sobre o demais. Tenho alunos que tem todas as condições para prosseguirem e irão ser promovidos, mas tenho alunos que não tem a mínima condição de progredirem e também irão ser promovidos, e este é o nó górdio, um estranho cenário de exclusão por dentro do sistema educacional.

Nesta espécie da exclusão você tem uma preocupação maior com o discurso político do que com o fato; com uma pedagogia pseudo-social e não com uma pedagogia voltada para o desenvolvimento real do humano. Não se trata, absolutamente, de erguer uma clava ou de tornar o ensino inacessível, mas de torná-lo compatível com o que a sociedade espera daqueles que detém um diploma de conclusão de curso. Se não houver compatibilidade real entre o que é oferecido pelo sistema educacional e o que é necessário para a melhoria da condição social do estudante, estaremos cavando um poço no qual o aluno será o maior prejudicado, pois terá tão somente um documento, mas não o conhecimento que o valide. No meu ponto de vista, uma exclusão cruel, pois ilude, mascara e aliena.

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