Boçalidade e trabalho


Estou saindo de uma sala de aula. Uma colega me pergunta algo e estamos conversando quando um aluno que eu diria pré-adolescente simplesmente berra a todos os pulmões. Não havia ninguém ao seu lado, nem ele estava chamando ninguém. Imagine-se o que é alguém berrando (não gritando nem falando alto) a todos os pulmões em um corredor praticamente fechado. Eu chamo a atenção do mesmo e ele olhando de modo insolente diz que “a boca é minha e eu grito quanto eu quero do jeito que bem quero”, e assim ele entra na sua – dele – sala de aula, ainda berrando.

Então não se trata de método pedagógico, nem de didática, menos ainda de processo de ensino e de aprendizagem, mas do simples fato de que os pais desse pré-adolescente o (des)educaram para que ele seja um imbecil, sem qualquer responsabilidade consigo ou com os outros, e que ele cumpre à risca o script geracional. Tal garoto seguiu simplesmente a boçalidade que os pais lhe ensinaram, ou, se não foram os pais, quem o tinha sob guarda. Assim, seu comportamento é autocentrico, individualista. Age como se o mundo devesse lhe suportar, tivesse a obrigação de tanto. Para incentivá-lo, o famoso “não dá nada”, o que significa que, pelo menos na escola, ele agirá como lhe convém, com os pais (!?) sendo chamados de quando em quando para uma conversa, o preenchimento de infindáveis atas e promessas a final, de que nas próximas chuvas o vento não atrapalhará.

Como o próprio garoto descobrirá, mais cedo ou mais tarde, o mundo pouco se importará com ele, de que tanto faz quanto desfaz a sua rebeldia de papelão. A sociedade tem duas alternativas básicas para esse tipo de comportamento: ou a marginalização social ou o aprisionamento, se a boçalidade tender para o crime. Não há mais paciência para suportar pessoas que não participam do mundo do consumo.

Quando Bernardo Lo Toro criou os Sete Códigos da Modernidade, apôs: 1- Domínio da leitura e da escrita; 2- Capacidade de fazer cálculos e resolver problemas; 3- Capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos e situações; 4- Capacidade de compreender e atuar em seu entorno social; 5- Receber criticamente os meios de comunicação; 6- Capacidade de localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada; 7- Capacidade de planejar, trabalhar e decidir em grupo.  Portanto, importa ao mundo aqueles que sabem pesquisar, trabalhar em grupo, ter critérios de decisão, que saibam expressar-se, que sejam criativos e que possuam e/ou desenvolvam empatia. Caso contrário, a mensagem é clara: você está fadado a executar tarefas quando e se elas aparecerem. O mundo produtivo diz: “ei, garoto, novidades, você está despedido antes mesmo de ser empregado!”

No livro O fim do emprego, edição clássica da Makron, de Jeromy Rifkin, publicada em 1966, o autor comenta, com uma enorme preocupação, que, para a economia pessoas que se encontram em estado de marginalidade, que não podem participar do banquete do consumo são ditas “irrelevantes”, são o peso social que  o capitalismo não consegue absorver. As pessoas irrelevantes, contudo, cada vez crescem mais em número pelo mundo todo.

A escola deveria se preocupar, penso, em diminuir tal carga, claramente mostrando aos alunos projetos de vida, algo pelo que lutar. O processo de aprendizado ensina isso, de tal modo que o estudo sempre, em qualquer circunstância, abre possibilidades. No entanto, a escola não é privativamente encarregada disto. A educação não se faz, como querem alguns, nos bancos da escola. É preciso muito mais.

Às vezes me vem a idéia de que deveríamos ensinar primeiro aos pais, depois aos filhos e assim por diante. Querendo ou não, enquanto a boçalidade e a estupidez se dá na escola, sem que haja uma compreensão real do mundo, haverá muito a fazer. No entanto, tal encargo, em absoluto, não depende apenas dos professores, mas, sem dúvida, do ambiente social onde se dá a aprendizagem – ou,como diria Bordieu, seu simulacro.

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