Conhecimento: get out


Há uma tendência pedagógica que diz, em suma, que professores e alunos tem ou devem ter uma relação simétrica no que tange ao processo de ensino e de aprendizagem. Paulo Freire diz que “ Ninguém ensina ninguém. Tampouco ninguém aprende sozinho. Os homens aprendem em comunhão, mediatizados pelo mundo.”(1). Dá-se, no processo de ensino e de aprendizagem uma mediação, que é abordada de forma brilhante por Vigotsky (1895-1934). Para o mesmo, ”…as origens da vida consciente e do pensamento abstrato deveriam ser procuradas na interação do organismo com as condições de vida social e nas formas histórico-sociais de vida da espécie humana e não, como muitos acreditavam, no mundo espiritual e sensorial dos homens. Sendo, portanto, necessário analisar o reflexo do mundo exterior no mundo interior dos indivíduos a partir da interação destes com a realidade” (2). A questão da mediação é, portanto, indissociável do processo educacional formal.

Ora, simetria é uma correspondência de posição, de forma, de medida em relação a um eixo entre os elementos de um conjunto ou entre dois ou mais conjuntos (3), como nos casos da simetria arquitetural, ou nos quadros assim dispostos. Logo, uma possibilidade clara de congruência, como planos com elementos iguais a uma mesma distância em relação a um eixo. Há, muitas vezes, uma confusão em relação aos conceitos de mediação e simetria. Embora haja mediação no processo de ensino e de aprendizagem, não há simetria em relação aos agentes que produzem, de um lado o ensino e de outro, a aprendizagem. Isso fica claro quando, em discursos sucessivos fala-se sobre protagonismo juvenil, sobre a hipótese de que o professor deve adaptar o ensino ao mundo e às pretensões dos aprendentes ou sobre como se procura superestimar um dos atores em detrimento do outro. Os sentidos de tais discursos partem de uma situação na qual o aprendente é revisitado como uma personagem vitimizada dentro do sistema social, mormente se provêm da classe popular, pelo que deve haver uma compensação que deve ser contraprestada pelo professor e pelo sistema educativo formal.

Se pensarmos em dois ou mais aprendentes em processo de aprendizagem, é, sim, necessária uma mediação com o outro, não apenas porque a aprendizagem é um movimento que impele à saída da zona de conforto, mas porque, não raro, a mesma ocorre de modo mais palatável em razão do compartilhamento e da troca de experiências e de objetivos em comum. Se uma pluralidade quer aprender algo, melhor que adotem um sistema solidário, o que é enriquecedor em nível individual e de grupo. Nesse sentido há uma simetrização de papéis e de objetivos pois a relação se dá entre iguais, mesmo considerando que a aprendizagem ocorre individualmente, sendo esperável que os aprendentes tenham diferentes níveis de conhecimento, o que pode ser extremamente interessante para todos os participantes, além do fato de que a mediação em grupo é um dos requisitos que habilita a convivência e o respeito mútuos. Aliás, talvez seja sobre isso que Bernardo Toro (4) explicita quanto ao desenvolvimento de habilidades e competências necessárias não apenas para dinamizar os processos sócio-cognitivos mas, por igual, pensar em questões como cidadania e trabalho.

Na relação professor e aprendente não há simetria, e por varias razões. Por primeiro, o professor tem uma formação profissional que lhe confere a condição de entender, planejar e executar o ato do ensino, com todas as decorrências aí implicadas. Por segundo, a tarefa primeira do professor é ensinar, preferentemente com eficiência e eficácia, e que ensina ensina a alguém, o que pressupõe que aquele alguém deverá mover-se de sua zona de conforto para aprender. Por terceiro, o professor avalia, enquanto o aprendente é avaliado. Por último, o professor participa de uma estrutura hierarquizada de modo vertical onde, na condição de profissional, deve satisfações à gestão administrativo-pedagógica da escola em que esteja lotado. Seja a aprendizagem, seja o aluno, seja o processo o centro da tendência pedagógica, caberá ao professor o papel socialmente reconhecido de ensinar. Por fim, independentemente do locus pedagógico do professor,caberá ao mesmo as responsabilidades pela aprendizagem. Somente por essas características se vê que não há confusão entre os papéis do professor e do aprendente. Assim quer a experiência, assim quer o ato pedagógico. Se analisarmos o termo pedagogia, ele será vinculado à questão da formação educacional. Para os gregos do século V a.C., pedagogia remete à crianças (paidós) sendo conduzidas (agogé) à escola (paedagogium), traduzindo a noção de paidéia (ciação ou formação de crianças), adotada mais tarde como o ideal grego de educação. Ora, havendo um condutor e um conduzido, não são, portanto, iguais entre si.

Analogicamente uma possível igualdade entre professores e alunos levaria a uma situação simétrica, o que não é possível se tomarmos o conhecimento como eixo comum a ambos. Realmente o que une professores e aprendentes é o conhecimento intencionalmente formulado em uma agenda educacional. Não há, pois, sentido em elocubrar-se discurso no qual ambos – aprendentes e professores – são iguais ou apresentam congruência dentro do processo de ensino e de aprendizagem.

A assimetria é clara, o que não descarta um discurso socialmente compensatório, do ponto de vista pedagógico que busca simetrizar tais relações. Para tanto, ocorrem duas alternativas possíveis: ou simplesmente se extingue o conhecimento como eixo referencial, o que seria absurdo, portanto idéia natimorta ou, alternativamente se instaure uma política de pesos e contrapesos instrumentalizadores, objetivando gerir e alavancar artificialmente tal simetria, naturalizando uma relação falsa na origem. Para tanto, é necessária uma ideologia que seja no mínimo esboçada por pedagogos úteis de plantão e de uma política educacional equivocada. Contudo, notamos alguns importantes elementos que, gestados por políticas locais, que tendem a tanto.

Como há vários interesses interligados, nos quais a educação é uma das variáveis e não uma constante, a simetrização pode se tornar atraente do ponto de vista economico-financeiro, além de conferir um plus político aos gestores educacionais públicos. Havendo uma situação na qual os aprendentes entrem em fluxo contínuo de aprovação, a mantenedora terá menos gastos com o ensino, o que torna-se ainda mais interessante considerando-se a universalização do ensino, com o constante ingresso de novas matrículas. A equação bem vinda é a que objetiva zerar índices de reprovação. É claro que podemos criar discursos pedagógicos convenientes, especialmente ressaltando o direito das minorias, dos adolescentes e assim por diante, enfatizando de modo conveniente topos de linguagem vinculados à educação (acolhimento, protagonismo juvenil, situação de risco social, aprovação automática, bonus por índices de aprovação, et caterva).

Tais interpretações, mediatizadas por interesses políticos são os ingredientes que bem interessam às administrações das políticas educacionais mais propensas a avaliar decisões financeiras do que embretar-se nas complexidades e dificuldades do campo educativo.

Admitir um discurso socialmente compensatório do campo pedagógico, contudo, traz conseqüências. A regra de ouro é que a aparência é tudo, pelo que importa menos o conhecimento do que a diplomação, a certificação. Neste cenário, quanto mais desempoderados os professores, melhor; quanto menos as decisões pedagógicas lhes fugirem das mãos, mais conveniente e quanto menos os conselhos de classe e outras instâncias tiverem poder de influência, haverá uma menor resistência ao fluxo de alunos, independentemente de outros fatores. Há algumas situações muito claras que facilitam o que antes se explicitou.

Havemos de compreender, por certo, que a exigência peremptória do conhecimento não é exatamente o que o cálculo de uma gestão política econômico-financeira, especialmente pública, deseje. Os tolos de profissão ou os maliciosos por opção exercitam um discurso compensatório, edulcorado por um ideário que se pretende social, democrático e preocupado com o ensino. Às custas de premissas verdadeiras, instituem um discurso eivado de falsidades. Desse modo, esvaziar o papel do professor é uma preocupação sintomática.

É claro que reprovar alguém não é um ato simpático ou sedutor, mas necessário quando o aprendente não demonstra condições de ser promovido ao nível de estudo seqüencial imediatamente superior ao que se encontra. Não fazer isso é excluí-lo por dentro do sistema, ou seja, brindar alguém com uma aprovação construída sob bases falsas. O resultado é uma situação real de incapacidade, a formação de turmas inteiras despreparadas. Do ponto de vista ético, é demonstrar claramente e na prática que tanto vale aprender ou não, porque o bom bocado da aprovação aguarda bocas cada vez mais gulosas. Famélicas, eu diria.

Atacar o eixo do conhecimento é obter minorias de investimento público com uma otimização precária e irreal que a sociedade acabará pagando, de um modo ou de outro. Relativizar a importância do conhecimento, das habilidades e das competências é uma tarefa insidiosa, transversa e oblíqua ao que deseja a sociedade, especialmente se levada a cabo, ou por ingênuos úteis ou por pedagogos e gestores públicos educacionais cuja maior preocupação é o comportamento financeiro da Administração.

Enquanto isso, o mercado continua chiando. Sua Santidade o Mercado precisa de empregados que detenham conhecimentos mínimos, competências a ser desenvolvidas e habilidades que possam ser otimizadas, em suma que saibam ler, interpretar, calcular, trabalhar em grupo, tomar decisões, ponderar; tratar os demais com urbanismo e não ter comportamentos borderline ou instáveis, sem o uso das expressões típicas de quem diz que “não entendeu o que é para fazer” ou de quem se move apenas se houver um bonus a ser conquistado ali adiante. Alguns professores dirão que não é tarefa da escola preparar para o mercado de trabalho. Erram. Sua Santidade não é ingênuo. O que Ele quer é que os aprendentes egressos das escolas possuam mínimas condições de empregabilidade. A experiência profissional virá com a vivência e, dependendo da necessidade, através de cursos on board orientados pelas próprias empresas e dirigidos para determinadas funções. Se, por exemplo, as escolas mormente as públicas de periferias das grandes cidades conseguissem implantar o que sustenta Bernardo Toro, já seria triplamente gratificante, seja para Sua Santidade, seja para a vida pessoal e futuramente profissional dos aprendentes, seja para a escola. No entanto, não é isso que ocorre, pois a escola está afundada em um mar de perplexidades e paradoxos, se entredevorando entre discussões estéreis e, portanto, sem dar retorno ao que dela minimamente se espera.

Situação prática 1: alertei uma turma de sétima série que escreveria um texto conceitual de radiciação no quadro com alguns exemplos. Pedi-lhes que copiassem e disse que após concluída a tarefa, prestassem atenção pois eu iria explicar tal conceito. Pelas tantas, um aluno pergunta: “professor é pra resolver as contas?” Ora, não havia “contas” a serem calculadas.

Situação prática 2: pedi a uma turma para efetivar o cálculo da fatoração de um número, via mínimo múltiplo comum. Não o fizeram, alegando que não sabiam as regras de divisibilidade. Traduzindo: uma turma que no final do ano que vem estará formada no ensino fundamental e ingressando no ensino médio “não sabe” quando um número pode ser diretamente dividido por outro em uma divisão exata. Pois bem, disse-lhes que pesquisassem sobre as regras supracitadas e me trouxessem suas conclusões na aula seguinte. Passaram-se cinco dias entre o meu pedido e a aula seguinte. Pergunto: houve pesquisa? Não, não houve, a tarefa não foi concluída, porque sequer foi iniciada.

Situação prática 3: substituindo um professor que havia faltado, ingressei em outra turma, que não as minhas habituais. Fui brindado com palavrões, gritos, palavrões e assim por diante. Ao meio de uma tarefa, uma aprendente diz ao seu colega: “Não adianta tu falá, eu não gosto dele porque ele não me comeu direito”. Ela, adolescente, ele idem, que disse “é porque não fui eu que te comi”. Tanto faz retirar ou não uma pessoa com tal porte de sociabilidade da aula ou não. A escola onde trabalho não vê como solucionar tais questões. Até faz as incontáveis chamadas aos pais e lavra mais infindáveis atas, mas fora do acúmulo de papéis, não há consequencias para os(as) aprendentes. Como um professor sustenta sua autoridade em tal ambiente doentio?

Não tenho dúvida alguma que este é o perfil exato do futuro trabalhador que Sua Santidade o Mercado não quer, a não ser para que ele(a) cumpra tarefas altamente subordinadas e subalternas, provavelmente de caráter mecânico e repetitivo, com um salário compatível à falta de esclarecimento do(a) trabalhador(a). Então, sequer Sua Santidade o Mercado é atendido, simplesmente porque a escola não dá conta de desembaraçar-se de suas atribuições mínimas. Em outros termos, dentro de um mundo laboral cada vez mais exigente, muitas escolas, mormente as públicas de periferia formam para a acriticidade e para a passividade social. Em outros termos, para o imobilismo.

Tem sido notável a interferência dos gestores públicos educacionais em tal proposição. Para implementar o fluxo de alunos, desimportando seu conhecimento, implementa-se a aprovação automática, que é um claro desvirtuamento do papel democrático de implementação dos ciclos de aprendizagem. Mais adiante, dilui-se a atividade do professor em outras pseudo-atividades: a de conselheiro, pai, mãe, como se ele, professor devesse prestar contas e resolver situações de vida que absolutamente lhe fogem das mãos e de suas competências. Com isso força-se um sentimento de culpa eterna e de desgaste permanente. Depois, a própria mantenedora interfere nos critérios de aprovação ou de reprovação dos alunos, manu militari e sem ter o mínimo conhecimento da realidade da sala de aula. Criam-se embaraços de toda ordem para possíveis reprovações. A ordem é passar o aluno, nem que seja à fórceps. Dossiês, turmas especiais por idade e não por competência, intervenção na área pedagógica, tudo é válido. Mas faltam ainda alguns itens, como, por exemplo, criar uma parafernália didática com o objetivo de desacreditar a prática do professor que deve, a todo custo, portar-se como um entertainment. Uma boa parte de adolescentes são basicamente contidos dentro da escola, para que ali pratiquem seus atos de vandalismo social. Aula expositiva? Nem pensar.

Dentro dessa escala, os pedagogos da injúria, os apóstolos da burrice consentida e incentivada, sejam doutos ou não, armam-se com um repertório considerável de considerações e de argumentos que teimam pela mesmice, interpretados aos seus gozos e fruições, de modo que cada vez mais se dilapide o conhecimento e se imponha o reinado da ignorância pedagógica, didática e social. Muitas vezes os argumentos de parte dos pedagogos buscam, no fundo, beneficiá-los ante um professor orientador de alguma faculdade, de modo que possam, não mais que de repente, receberem de bonus uma indicação para trabalhar em algum projeto de pesquisa, enquanto o anêmico sistema gerenciador de ensino trava inapelavelmente.

Contudo esta é uma conta que a sociedade irá pagar. Pelo menos que não se diga que as intenções eram as melhores. Não, não eram.

 Bibliografia 

(1) Paulo Freire, in Pedagogia do Oprimido. 9 ed., Rio de Janeiro. Editora Paz e Terra. 1981, p.79

(2) De dizer-se que a primeira obra de Vigotsky traduzida no Brasil, data de 1984 (Formação social da mente, publicada pela Martins Fontes). O trabalho do psicólogo bielo-russo foi tardiamente conhecido no Brasil. Para o autor, o desenvolvimento intelectual ocorre em função das interações sócio-sulturais do aprendente e das mediações que se dão entre aquele que ensina e aquele que aprende. Tal mediação pode acontecer entre o aprendente e sua interação com signos, símbolos culturais e objetos. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lev_Vygotsky

(3) Fonte: http://www.dicio.com.br/simetria/.

(4) Bernardo Toro é um psicólogo, filósofo e educador colombiano que criou o Código da Modernidade que trata das capacidades e competências mínimas para a participação produtiva em um mundo estruturado dentro dos conceitos de pós-modernidade econômica e cultural. Seu Código apregoa os seguintes pontos: 1º alta competência em leitura e escrita 2º alta competência em cálculo matemático e em solução de problemas 3º altas competências em expressão escrita, especialmente na precisão para descrever fenômenos e situação, para analisar e comparar e expressar o próprio pensamento 4º capacidade para analisar o ambiente social e o ambiente político 5º recepção crítica dos meios de comunicação de massa 6º capacidade para planejar, trabalhar e decidir em grupo 7º localizar, filtrar, acionar e usar a informação acumulada.

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