Fluidez e escola


Atualmente os sistemas de crenças, valores e de culturas são constantemente postos em xeque; há uma compressão do tempo e do espaço, bem como mudanças expressivas nos processos produtivos, o que faz com que o homem sinta-se desfiliado e, de certo modo, ausente de si próprio, imerso em um mundo simbólico, no qual perdeu sua capacidade identitária, alienando-a ao mercado ou participando de movimentos com regras rígidas e alinhadas.

Pois dentro de tais referenciais absolutamente fluidos, no dizer de Zygmunt Bauman, temos um local especial que se chama escola. É especial porque é um pólo cultural de formação e por isso o cotidiano da escola tem sempre uma face ideológica. O próprio verbo formar pergunta: formar quem, para que, com qual intencionalidade?

Essas perguntas, contudo, demandam algo mais do que palavras de ordem ou defesas de regimes de estudo. Suas respostas são o fundamento da escola, a diferença entre tratarmos a mesma como um centro de cultura, como uma área privilegiada de lazer ou um local utilizado pelos governos como um locus de retenção, controle e filtro social.

A estigmatização é extremamente dura e excludente, mas isso não é uma novidade. O dado atual é que muitos adolescentes com comportamento beirando a periculosidade social não estão nas ruas, mas sim nas escolas e é com eles que os professores tem de lidar no cotidiano, na maior parte das vezes de modo precário e empírico, porque não tem os apoios necessários para tais situações prementes mas totalmente previsíveis. Assim, a “inclusão escolar” tão justa e ansiosamente querida pela sociedade pode disfarçar uma sofisticada forma de controle social. Por isso responder a tais indagações é premente e faz uma enorme diferença na concepção pedagógica da escola e, sem dúvida, nas conseqüências sociais de tais escolhas.

Não perguntem aos que tem interesse político-partidário aberto ou velado na continuidade ou não de uma determinada estratégia educacional, mas sim aos professores, aos alunos e aos diretores de escola próximos e que você conhece. E, especialmente escute o que eles tem a dizer, sem ilha de edição ou cortes publicitários. Alienar-se não é confortável, pois os miasmas sociais persistirão, e você não vai poder evitá-los. Saber o que acontece nas escolas, sair de uma perspectiva meramente discursiva e semânticamente oca é o mínimo que podemos fazer se quisermos efetivamente uma escola digna, justa, de qualidade e que respeite a comunidade e a sociedade onde se insere.

Ou então, que se instale definitivamente o panóptico de Bentham.

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