Indisciplina e controle


Sério: por que, em sala de aula, alguns alunos simplesmente não fazem as atividades propostas? Simplesmente baixam a cabeça, não trazem material, não se interessam? Por que parecem fazer questão de promoverem um linchamento ético e moral em sala e por que debocham de tudo e de todos? O que provoca tal reação de desprezo por tudo e por todos, a não ser por aqueles que já foram capturados por sua influência? E por que ridicularizar aos outros e a si próprios, se auto-imolando do ponto de vista social e cognitivo?

As respostas são muitas, são várias, mas nenhuma delas, separadamente, faz com que tenhamos uma visão muito clara. Não se trata, como alguns poderiam admitir, de “domínio de classe”, termo que imputa ao educador função de controlar.  Além do que toda ação tem limites. Se um aluno simplesmente passeia pela sala ou sai da mesma não creio que tenha que ser eu, educador, após ter falado com o mesmo, que tenha que pegá-lo e colocá-lo sentado onde deveria estar: aliás, se tocar em um aluno, ele simplesmente pode fazer com que eu responda a um processo civil diante da Vara da Infância e da Juventude. Por outro lado é impressionante o tempo perdido (e que poderia ser melhor aproveitado) pelo educador, justo por ter de se envolver com questões disciplinares.

Responda rápido: qual a categoria profissional na qual o mais profundo desrespeito e chacota é considerado compatível com a função exercida?

Tentei responder e fiquei aborrecido com as minhas conclusões. Cada um dos itens abaixo pode, sem dúvida, ser explorado e abordado de forma mais aprofundada, mas não é o caso aqui. Vejamos:

1) a escola não está ensinando a pensar, assim como não está dando respostas efetivas ã degeneração das relações sociais e pessoais; estando o ensino narcotizado pela inércia e pela cristalização, a memória continua sendo o top do ensino massificado, o que significa que a aprendizagem pelo conceito do objeto a ser estudado não tem o mesmo privilégio;

2) a narcose acima induz claramente à simples preguiça mental, com alunos recebendo conteúdos da forma mais fácil, mais rasteira, seja por comodismo profissional, por inadequação curricular, pela falta de uma ação ou perspectiva pedagógica, de modo que a cognição chega em pílulas  ruminantemente facilitadoras de índices de aprovação;

3) há uma promoção indevida de alunos aos anos-ciclos seguintes. A crítica é feroz e procedente ao falar a respeito da promoção automática, pois realmente há alunos que passam adiante sem condições, para o que colaboram efetivamente a intromissão indevida e desqualificadora da mantenedora e o psicologismo infanto-juvenil e corporativista dos conselhos de classe;

4) há toda um sistema legal que protege o aluno, o que é bom para ele, mas não uma contraprestação correspondente, restando um enorme desequilíbrio na relação entre aluno e escola, celebrado pela conhecida frase: “não dá nada!”, com a qual os alunos reconhecem de pronto que podem continuar irresponsáveis dentro da escola, pois não haverá qualquer conseqüência pelos atos praticados pelos mesmos, além de desestimular professores que se sentem reféns dentro da instituição;

5) há uma escola pedagógica que prega que o desejo do aluno deve ser um forte motivador da sua capacidade de aprender. É correta? Sim e não. Sim a partir do momento em que é verdadeira a assertiva, e não porque a vida não será assim, o mundo não se curvará ante a vontade do aluno e cobrará dele próprio a sua formação deficiente;

6) cada vez mais temos notícias de que a violência física ingressa nas salas de aula de modo triunfal e estúpido; se alguns alegam, com razão, que a própria escola é produtora de violência simbólica, agora a violência é objetiva mesmo o que constrange muitos educadores, que se sentem reféns em sala e sem qualquer proteção legal que os ampare, devendo pois seguir as regras estabelecidas pelos alunos indisciplinados, por falta de opção real;

7) a escola apresenta dificuldades para lidar com a tecnologia de informação e seus gadgets, permanecendo ainda sem um programa ou sem projeto que estimule seus alunos a não serem meros receptores passivos das mensagens publicitárias e formadoras de opinião da mídia, em nada ajudando culturalmente para a formação de uma massa crítica;

8) a escola sempre chega atrasada aos fatos do mundo, que explodem em mil canais, enquanto a mesma se ocupa burocraticamente de suas tarefas; não existe uma disciplina que discuta assuntos do dia-a-dia ou interprete as questões que afetam a todos, indistintamente, como trabalho, terrorismo, violência, sexualidade, criatividade, lazer, cultura geral;

9) há uma tendência cada vez maior no sentido de que os assuntos de gestão -portanto de interesse administrativo – tomem lugar dos temas pedagógicos, além do que muitos professores entendem como chato se aprofundar nos temas aos quais deveriam ter acesso e conhecimento por se tratar de sua profissão;

É claro que as possibilidades não se esgotam aqui, mas estas linhas rápidas demonstram que aprender e ensinar não passa por apenas um desses itens, mas pela combinação de todos, pois nenhum deles, de forma isolada poderá dar conta dos problemas citados no primeiro parágrafo e nos demais que assolam as escolas e desestabilizam um ambiente que deveria ser educador.

Uma vez que haja dificuldades nesse sentido, se cria e se reforça uma cultura na qual misturam-se impropriedades, inconsistências, irresponsabilidades dentro das quais se torna possível uma promoção de alunos aos níveis seguintes de estudo sem maiores méritos e um cenário no qual se cria cada vez mais justificativas para uma realidade que é o fato de que cada vez ensinamos menos e com menor qualidade; os níveis de exigência estão se aproximando rapidamente do sopé da montanha. Por melhor que seja o discurso, e por mais competente se estabeleça, entendo uma dilapidação consciente do que existe de mais importante na escola, sua influência pedagógica, que é rifada entre vaidades pessoais e corporativismo.

Indisciplinas prioram o quadro, pois o professor não mais ensina, apenas controla e substitui – às vezes bem, às vezes mal, sejamos francos – as figuras paterna e materna. Talvez por isso receba tanta carga negativa. Ded todo modo, a perda é sempre grande, seja pelo desgaste provocado, seja porque gera tensionamentos desnecessários. Os únicos a ganhar com isso – ilusoriamente – são os alunos que promovem a anarquia, pois se tornam intocáveis e agressivos em relação aos demais, que se submetem por medo ou por coação. A terceira via é a submissão para ser reconhecido em um grupo dominante.

Ensinamos cada vez menos e tentamos inutilmente controlar cada vez mais. Foucault, sem dúvida, escreveria muito mais se visitasse nossas escolas.

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