Juventudes, redes e conexões


 

JUVENTUDES: REDES E CONEXÕES

 

Trabalho efetivado para o Curso de Extensão para Educadores Sociais 2009,

do Núcleo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Educação, Exclusão e Violência Social/NUPEEEVS/FACED/UFRGS

1 – Jovem: a base familiar 

A base de todo jovem é sua infância, e ela é produto de múltiplos fatores. A cultura que perpassa pela família será a primeira com que o bebê tomará contato. Suas primeiras referências afetivas, cognitivas serão prioritariamente colhidas de sua família. O próprio saber que está no mundo depende da visão, do carinho e da proteção dos pais.

A criança cresce em um mundo de cultura na qual suas pontes de entendimento são as famílias, os parentes; depois, a comunidade, os jogos, as brincadeiras – e talvez aí já as primeiras violências, as necessidades não atendidas, as primeiras privações patrocinadas pelos adultos, até o ingresso pleno no mundo social, representado pela escola, onde o convívio com os outros e consigo mesmo irão ter um novo significado, uma nova cor.

Bem antes disso, contudo, ainda bebê e nos primeiros dias de vida, dá-se o imprintingcultural, patrocinado figura materna, o que será decisivo para o novo ser que está no mundo. Suas primeiras impressões de calor, de frio, de afeto, de necessidade, de acolhimento e o reconhecer do mundo são determinados aí. Mesmo no útero o feto já reconhece sons, cheiros e especialmente carinho.

O bebê prepara a criança e esta o jovem. Os adultos, pais especialmente, a todas essas fases.

2 – Escola: primeira grande experiência social 

A intencionalidade da educação formal traz a criança para um outro mundo de desejos e expectativas, no qual a interação com o Outro é decisiva. Contudo, não percamos de vista a família, os seus valores e o modo particular como aquela engendrou a criança.

Ao ingressar no mundo social da escola, a participação dos pais é já conhecida pela criança. Suas noções de solidariedade, colaboração, não-violência e de relativa autonomia, ou o contrário disso tudo já integram sua vida. Já se vai longe o imprintingcultural. A educação não formal, não intencional do ponto de vista da aquisição de um conhecimento epistemológico, será de grande valia, em especial na interrelação com o Outro – aqui visto como alguém que está fora da individualidade explícita da criança, o  Outro lacaniano que requer que a criança se descentre para poder se relacionar com os objetos que permeiam o mundo, inclusive os objetos cognoscíveis.

3 – Jovem: quadro de diversidade 

O ingresso no mundo já se vai longe, quando o jovem aprende a desenvolver, de modo prático, o respeito à diversidade e à diferenças, buscando uma integração real. Contudo, as bases dessa integração já foram lançadas no contato com o mundo informal e com a sua capacidade de descentração. Valores, experimentações, interações culturais já informaram ao jovem um background do qual fará uso nas aproximações com culturas desconhecidas. Se o meio cultural onde o bebê, depois a criança e agora o jovem convivem for racista, a tendência desse mesmo jovem em formação será reproduzir essa tendência.

Aqui, não se diz que nada pode ser feito para reverter essa expectativa ou do mesmo modo afirmar que as influências sociais, inclusive e especialmente familiares são deterministas ao extremo, mas sim de se pensar na hipótese de que, para haver alguma mudança real no comportamento racista não basta somente informação, mas especialmente formação. Por isso o papel da escola é essência, seja no sentido amplo ou no restrito.

No restrito, incorporando ao seu currículo formal conteúdos que valorizem a diversidade e os modos como as comunidades interagem; no sentido amplo, discutindo qualificadamente com seus alunos os efeitos do bullying, do currículo oculto e das relações de poder e de aproximação entre os adolescentes, entre outros fatores.

Questões como etnia, respeito ao Outro, diversidade, são assuntos reais que dependem da influência da família e da escola, mas também trazem à responsabilidade social o próprio adolescente, o jovem que já terá construída sua tábua de valores, no sentido axiológico, ao influxo de suas multivariadas experimentações do mundo.

4 – Jovem: cultura e identidade 

Ao jovem é essencial a inserção em um grupo de referência. ABERASTURY, psicóloga argentina, ao analisar profundamente comportamentos adolescentes, concluiu  ser “normal a anormalidade do comportamento do adolescente”, no sentido do seu caráter contestador, gregário, inconstante. Ele, jovem adolescente se encontra em meio a uma passagem importante, em meio a um rio no qual uma das margens é sua infância e a outra o mundo adulto, com a cobrança de responsabilidades ligadas ao mundo produtivo e que se irão somar àquelas expectativas e desejos próprios.

Além desse jovem, há os que trabalham desde a infância, normalmente em serviços pesados, confrontando a lei a partir do mandamento de adultos, de suas próprias necessidades ou para incorporar renda ao salário familiar. Assim, não há um único modelo de jovem. Há jovens, no sentido de compartilhamento de experimentações e de expectativas que trazem histórias bem distintas, que alimentam a diversidade e a cultura de cada eixo comunitário.

A todos, contudo, concorre a necessidade de inserção em um grupo de referência, conforme lemos acima, o desejo de ser respeitado por seus pares e compartilhar de um mesmo status.  Essa passagem, contudo, atualmente ocorre dentro de uma sociedade de consumidores, o que significa que não basta apenas buscar uma identidade, mas mantê-la, o que se dá através de uma recriação constante.

A sociedade de consumidores, contudo, cada vez mais vem conseguindo confundir bens que estão fora do mercado (como dignidade, integração, caráter, sentido de fazer algo bem feito) com bens no mercado (precificáveis, de circulação ilimitada), de modo a tornar tal relação estreita, mesmo que falsamente. O resultado é que as questões identitárias são alinhadas com a possibilidade ou não de consumo, de vestir marcas de prestígio para com as mesmas buscar o reconhecimento do grupo. Esse fenômeno é universal e atinge a todas as faixas etárias.

A reconstrução infinita de identidades e o descarte já programado de bens fazem parte do mundo social em que circulamos. Para uns tênis, para outros automóveis, para terceiros celulares e assim por diante. O jovem, por estar em formação, torna-se um alvo fácil de tais ideologias de mercado. Ou você participa do banquete, ou está fora. E ninguém quer ser degredado. A alternativa, não raras vezes é o crime.

Talvez vivamos uma época especial em que o jovem, para construir-se a si próprio e conviver dentro de seu grupo tenha de exercer precocemente seu senso crítico, já abalado por uma sociedade imagética e cujos valores se encontram, no mínimo, facetados, estiolados. Talvez vivamos uma época em que o mandante do crime não tenha um nome, mas se subsuma nos produtos, nas griffes que consumimos no cotidiano.

É mais do que urgente entendermos tais fenômenos. Boa vontade e altruísmo para lidar com os jovens e para acolhê-los, independentemente do equipamento social para tanto destinado – escolas, abrigos, albergagens e mesmo prisão – talvez não seja o suficiente. Quem sabe o velho e bom caráter e o sentido de ajuda em rede não possam dar um novo caminho e um novo rumo?

Porto Alegre, 24 de novembro de 2009.

Hilton Besnos

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