Atravessando o pátio


Recordações escolares – EMEF Mariano Beck, em 1997

 

Me lembro que era um dia muito, muito frio e com uma chuva fina, daquelas que te molham os ossos, como se diz por aqui. Na época, era professor na escola municipal de ensino fundamental Mariano Beck. Por algum motivo, tive de sair da minha sala de aula e atravessar o pátio para o outro pavilhão. Então vi, sentada em uma laje, uma aluna, uma adolescente, dessas que costumamos chamar de rebeldes, ou de alunas-problema, e que deveria estar em alguma sala de aula, mas que efetivamente não estava.

Quando ela me viu, apressou-se a tentar se desculpar, que já ía para a aula, mas tinha sido chamada por alguém (não importa quem) para resolver (também não importa o quê), e que, então, tinha aproveitado para ir (também não interessa, nem na época interessava), mas que “já estava indo para a minha aula”, e que especialmente eu não dissesse para a professora A (ou B ou C) que a havia encontrado. Logicamente ela estava tentando preservar-se de mais uma de suas famosas “matadas de aula”. “- Pára, guria, eu disse com afetividade, eu não estou muito preocupado com o fato de estares matando ou não uma aula a mais ou uma aula a menos.”

Então eu coloquei a mão sob seu ombro e disse: “ –Só queria que soubesses que, se continuares sentada nesta laje, podes ter um problema sério, como, por exemplo uma cistite.” Ela então se interessou e me perguntou o que era uma cistite e eu lhe informei que era um tipo de inflamação nos ovários, que ela teria de ir ao médico se tratar, que não era preciso nada daquilo. Disse também que ela devia se cuidar, porque temos todos as nossas fragilidades.

Me lembro perfeitamente que não coloquei as informações em algum pretenso tom professoral. Apenas falei como falaria com alguém com quem eu tivesse um laço enorme de carinho. Então, ela simplesmente se emocionou, os olhos claros se encheram de lágrimas. Era um rosto tristemente iluminado, e eu perguntei – ora! – porque ela estava chorando. Realmente eu não estava entendendo a sua reação.

Ela então me disse que se emocionara porque até então ninguém havia falado assim com ela, se importado com uma possível doença que pudesse sofrer.

Que quando menstruou pela primeira vez levou um susto enorme, porque a mãe não havia tocado no asssunto, não havia lhe preparado. O pai, havia perdido quando menininha e que, em anos, eu tinha sido a primeira pessoa que efetivamente me importara com ela. Abracei-a, disse para ela se cuidar e não se deixar mais tão exposta àquele vento e àquela chuva.

A mensagem era a de que ela cuidasse mais de si própria, que ela estava apenas iniciando uma passagem, construindo sua própria jornada dentro da vida. Me lembrei do que havia saído para fazer e prossegui até o outro pavilhão, mas essa cena ficou muito marcada, de modo que até hoje sei o nome da menina, que hoje já deve ser uma mulher, talvez com filhos. Mas o nome, esse guardo para mim.

Ocorre que vivemos sem conhecermos nossos alunos, nossos vizinhos, mesmo nossos mais íntimos amigos. Sofremos de uma solidão que só pode ser mitigada na medida em que nos colocamos em uma situação de compartilhamento, no momento em que abandonamos um pouquinho só nossos próprios feudos. No entanto, para o fazermos, teríamos de nos encantar com a fluidez da vida, com um pouco dos milhares de milagres que acontecem todos os dias e que nós teimosamente insistimos em não ver.

Somos pretensiosos demais para admitirmos que precisamos do outro, e que nossa própria imagem é uma leitura de uma miríade de leituras distintas colhidas em ambientes e realidades distintas. Não cabemos em nossas próprias idiossincrasias. Mas de repente uma situação do passado, compartilhada, nos demonstra que, antes de tudo, somos imensamente humanos, que todos compartilhamos desejos e sonhos que, no fundo, buscam também as trilhas dessa mesma humanidade, inscrita em nós como um sinal de água e de fogo, como um momento de intensa solidariedade com o mundo, com a natureza e com nossa própria essência

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