O mundo simbólico e Baskhara


Como estudar matemática

Estou em aula, em uma turma C30 (correspondente ao último ano do ensino fundamental), aplicando Baskhara para a resolução de algumas equações de segundo grau. Venho trabalhando regularmente há mais de um mês sobre o assunto, portanto não havia nenhuma novidade. Pura aplicação de fórmula. Contudo, pelo menos três alunos me fizeram perguntas que demonstraram claramente sua falta de conhecimento sobre o tema. Não, não se tratava de erros de cálculo, mas questões mais profundas como, por exemplo, escrever uma equação e entender que assim as suas raízes estavam determinadas. Ou de não saberem operar com cálculo algébrico, ou de não saberem a diferença entre uma equação completa e incompleta, não sabendo nominar seus termos. Isso mesmo tendo algoritmos e cálculos já postos em seus cadernos.

Uma das fontes de angústia quase que perene dos professores é justamente identificar, entender e buscar alternativas em relação ao aluno quando este te olha e pergunta(1) sobre um assunto já visto em aula, com exemplos e exercícios analizados de umodo consistente, como se o tema fosse algo inteira e absolutamente novo, como se não tivesse havido qualquer referência pretérita ao mesmo. Quanto, no caso, equações de segundo grau são explicitadas, exercícios são feitos, dados são coletados e, após algum termpo alunos sequer se dão conta das coisas mais triviais a respeito do assunto, temos a sensação muito clara de que uma construção conceitual erodiu, esfacelou-se como um castelo de cartas. Há simplesmente um não-reconhecimento, uma ininteligibilidade sobre o assunto, e não uma mera desistência ou erro de cálculo. O processo de aprendizagem, em relação àquele ponto, simplesmente faliu.

Ora, se o aluno inclusive possui as fontes seguras para buscar o que necessita para resolver uma determinada dificuldade e sequer se dá conta disso, há questões que, além de interferir na aprendizagem, extrapolam o processo de cognição. Seriam problemas de atenção ou de habilidades precípuas? Seria uma questão de dificuldade de aprendizagem que impede o aluno de aprender ou um comportamento que igualmente o paralise ante o tema? Necessitariam tais alunos de um atendimento especializado, possivelmente de um psicopedagoga incorporado a uma equipe tarefa multidisciplinar? Ou bastaria recomendar-se ao mesmo o uso de Ritalina, tão banalizada nos Estados Unidos como pílula anticoncepcional?

DUFOUR ao analisar as questões do pós-modernismo, se detém sobre a questão simbólica e sobre a influência e o privilégio da imagem em relação à linha argumentativa.  Sendo falantes, a fala nos estrutura, e há uma relação muito próxima e forte entre a autoridade e ao lugar da palavra no discurso. O acesso à fala nos leva não só às nossas instâncias psíquicas como nos põe em contato com um mundo simbólico, construído através de uma instância discursiva.  DUFOUR cita os significantes deiticos indicadores de pessoa (eu, tu, ele), de espaço (esse, este, aquele, aqui, ali, acolá) e de tempo (agora, ontem, amanhã). Quando falo determino, ao mesmo tempo, uma indicação de pessoa, de espaço e de tempo, podendo inserir o mundo no meu discurso. Ao representar o mundo, me insiro neste mesmo universo simbólico que (re)criei.  Assim, o discurso acessa a função simbólica a partir da representação do real ou do não-real, mas sempre dependente da minha insersão no mundo que modifico de acordo com a minha fabulação e na medida em que ocorre tal interação.

Falar, ler, escrever, ouvir se inserem e se interligam através da autoridade e da alteridade da palavra. O discurso, assim, necessita de um fio condutor, de uma alteridade coerente entre os que falam e os que escutam. Se não há tal fio discursivo, está obstruída a função simbólica. Fala-se mal, ouve-se o que é possível, lê-se o mínimo indispensável e escreve-se de modo fonético, não ortográfico. Como desenvolver uma autonomia cognitiva se é falho o ingresso no mundo simbólico, se não é o consumo ou a mídia que garantem o processo de aprendizagem? Uma vez que a exposição e o privilégio de um mundo imagético torna um espaço que, pelo própria essência do homem, era destinado para a linguagem e a fabulação, os efeitos são sensíveis e imediatos.: a minoração da capacidade de se inserir em um mundo socialmente construído com base na linguagem, uma dificuldade maior de assimilação e de adaptação a um universo no qual os significantes e o grafismo cada vez mais ocupam espaços significativos nos cenários do dia-a-dia.

Assim, uma vez que ocorrem dificuldades na formação do ingresso ao mundo simbólico e que se perdem os fios do discurso, onde se irá instaurar o senso crítico que permite a descentração de si próprio em relação ao objeto a ser conhecido? Como organizar de modo minimamente satisfatório um background que permite acercar-se do conhecimento e como entender, se entendendo, a curiosidade cognitiva benéfica e sã da qual nos falou FREIRE? Como prestigiar uma auto-imagem que rapidamente se deteriora nos meio edulcorado e acrítico da passividade imposta pela midia e pelos avanços publicitários? E, de todas, a mais grave questão: como, através de que meios fortalecer a identidade humana buscando sua autonomia real e não fictícia?

Na escola, ao aluno que se comporta passivamente ainda mais acorrem e confortam teorias e psicologismos de caráter duvidoso, que se apóiam ou em sentimentos de culpa ou em políticas educacionais compensatórias. Aos alunos que cada vez mais menos sabem, cola-se a idéia de que efetivamente eles são menos, do ponto de vista cognitico e, portanto, merecedores de créditos adicionais que os equiparem aos demais. Pensemos, por exemplo, na distorção naturalizada da aprovação automática. Se aceitarmos realmente que dificuldades profundas existem, não é tratando uma infecção com bandaid que iremos resolver a situação.

Compreende-se, pois, que a apreensão do conhecimento via conceito depende basicamente do acesso ao mundo simbólico, através da insersão em um mundo discursivo, no qual haja preponderância de uma linha argumentativa em detrimento ao mundo imagético. Esse acesso, contudo, esse caminho não se torna razoável na medida em que o desejamos, mas na medida em que possamos detectar as suas ausências, determinadas pela dificuldade no exame do objeto que se dá a conhecer.

DUFOUR, Dany-Robert_ A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Companhia de Freud Editora. Rio Comprido. RJ.2005

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