Se dessem…


Está terminando o ano letivo de 2007. O calor invade tudo.

Os alunos são do segundo nível do terceiro ciclo, equivalente à sétima série da ensino fundamental. Muitas vezes perguntam: que dia é hoje? é para escrever de caneta? professor, é prá fazer o que está no quadro? que horas são? professor, tem apontador? tem lápis, eu esqueci em casa o meu…amanhã tem aula? Professor, eu não fiz o tema, porque (a) não vim na última aula (que foi quinta da semana  passada e hoje é terça); (b) não entendi nada; (c) não sei fazer ou (d) me esqueci.

São todos adolescentes, e daqui até dezembro de 2008 a esmagadora maioria estará apta formalmente a ingressar no ensino médio e serem avaliados por nota, quantitativamente. A vida, que com eles  não é um lago onde um barco tranqüilo navega, vai virar muitas vezes um turbilhão, uma tempestade. Mas a inconsciência genérica e a falta de reflexão (que, diga-se de passagem não deve ser atribuída isoladamente aos mesmos, sob nenhuma hipótese) os está encaminhando para um cenário de exclusão social.

Exclusão aliás que ocorre, não raro, por dentro do sistema ciclado, na medida em que, declaradamente outorga ao aluno um diploma ao qual ele não fez juz. Mas isso são considerações genéricas e muitos dos alunos, claro, tem condições de obtê-lo.

Philipe Meirieu fala genericamente de um jovem que, muitas vezes, entende que vá obter bens materiais e sucesso tendo unicamente por base o pensamento mágico, o destino, algum lance de sorte, algo como the right man in the right placecases de estudo.  Não é assim que ocorre, não na maioria das situações e na aridez da realidade. No entanto, lá estão eles, os alunos adolescentes, se chateando porque o professor irá fazer uma prova daqui há duas semanas ou porque ele, professor não tem um apontador “para emprestar”. Hora de pensarmos no provérbio judaico: “Não te preocupes com os vidros quebrados da janela enquanto a tua casa arde em chamas”.

Embora tenha se passado quase duzentos dias letivos e eu praticamente tenha de me munir de toda a minha improvável paciência para conviver com o que convivo, observando, na maior parte do tempo e em relação a maioria dos alunos o ensino, os métodos, os diálogos, as insistências, as vontades e os dias-a-dias esboroarem-se, caírem como um castelo de cartas; embora tenha de me habituar a escutar palavrões, manifestações claras de ironia, displiscências, inações, tolices, racismos, infreqüências e irresponsabilidades consigo próprios e com terceiros, entre os quais me incluo, tenho de admitir que a maior parte desses alunos são, em verdade, facilmente manipuláveis e, em essência ingênuos.

A ingenuidade vem da incompreensão do cenário que os envolve e que, se não tiverem cuidado, os devorará. Penso que somente valorizar a educação enquanto um valor em si (e não algo vagamente utilitarista) poderia dar-lhes acesso a posibilidades de melhoria de vida (não confundir com o reducionismo que linka educação diretamente à empregabilidade), uma visão mais centrada, mais crítica, mais socialmente participativa.

Mas isso se dessem à educação um valor intrínseco em si mesmo. Se dessem, se dessem…

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