Suportamos o erro? Uma visão escolar


 

Suportamos o erro? Uma visão escolar.

 

Hilton Vanderlei Besnos

 

 

Trabalho apresentado no XIII Encontro Internacional Educação e o Mercosul/Conesul Desafio Político e Pedagógico,

de 14 a 16 de outubro de 2004 em Caxias do Sul – RS promovido pela ASSERGS.

 

Buscamos analisar o erro e suas implicações dentro do processo escolar, especialmente em relação a educação nas séries finais do ensino fundamental.

O início do processo industrial e a ascenção capitalista (meados do século XVIII) vincularam o  tempo à produtividade e o erro à execração. O último alimentaria o tempo não-produtivo, daí sua negatividade. O aforisma inglês “time is money” é um reducionismo dessa visão, que passou ao status de senso-comum, orientando os continentes mentais norteadores dos eixos da educação formal (escola) e informal (família e comunidade).

Os sistemas de ensino emergiram em um contexto cultural de mudanças de paradigmas de uma sociedade agrária para uma industrial, de um consumo familiar no qual o excedente era comercializado para um consumo de grande escala, na medida do avanço tecnológico. Assim o ensino visava, por um lado, atender as necessidades de mão-de-obra melhor qualificada e, por outro, formar uma massa de consumidores.

A escola foi formatada dentro do papel social imposto pela cultura dominante ou, em outras palavras, pelo mercado. Temos, em resultado, a submissão do ensino a parâmetros exógenos, de gênese financeira, política e jurídicas ideologicamente hegemônicos. Em tal cenário compreende-se uma escola e um fazer pedagógico  conservadores e engessados em uma visão conteudista e hierarquizada. Uma variação do processo industrial a exigir a demonização do erro. Se não for possível expurgá-lo, exclua do sistema aquele que erra.

Estar dentro do sistema escolar era reconhecer-se e ser reconhecido como socialmente ativo, não engrossando a fila de párias sociais alijados das melhores oportunidades de ascenção econômica e de status. “Ser alguém na vida” necessariamente passava pela escola, realizando uma função de um inconsciente coletivo de desejos e tensões altamente ideologicizado.

O erro socialmente estigmatizado é absorvido pelas crianças (vale dizer, mais tarde, pelos alunos). Para BANDURA (1987:68) as crianças, em todas as culturas, adquirem e modificam padrões complexos de comportamentos, conhecimentos e atitudes, por meio da observação de adultos. BANDURA (1978), demonstrou que a aprendizagem por observação permite a aquisição de regras, conceitos e estratégias de seleção, procura e processamento da informação.(LA ROSA,  2001: 77).

A valência negativa contaminará o processo educacional e contribuirá para o isolamento e o desconforto do aluno já a partir da sala de aula e contribuirá para a formação de uma imagem negativa do mesmo, graças ao mecanismo psíquico da transferência, própria do pensamento primário, associativo. Talvez a primeira transferência da história da humanidade tenha sido o deslocamento que se produziu no paraíso entre a atração de Eva e a maçã. Aceita-se a maçã porque se aceita Eva e é ela que a oferece. A primeira mordida da maçã é o resultado desta transferência (FERRÉS, 1998:51) .

Instaura-se no aluno um processo psíquico de rejeição, seja à escola, seja ao aprender. Não se trata aqui de um fator racionalizado que impede ou obstaculiza a aprendizagem, mas das tensões provenientes de seu id. O aprender é uma atividade humana e, portanto, sujeita às emoções, provenham de quem provierem.  Disse Ernest Dichter, psicólogo austríaco que “a racionalidade é um fetiche do século XX; nossa cultura não nos permite admitir a verdadeira irracionalidade como uma explicação de nossa conduta. E, no entanto, a maioria dos sistemas religiosos e políticos, assim como aspectos da conduta humana, tal como a lealdade, o amor e o afeto, são todos irracionais” (FERRÉS, 1998: 17).

  1. Lemos em PEREIRA (2004:100), citando ARANHA e MARTINS (1997:273) que “diante dos seres – sejam coisas, seres vivos ou idéias – somos mobilizados pela afetividade,                                                                                                                                                                                      somos afetados de alguma forma por eles…portanto, algo possui valor quando não permite que permaneçamos indiferentes.”  Assim sendo, o erro nos mobiliza – e desde uma via não racionalizada – as emoções, porque nos faz entrar num jogo de tensões psicológicas que radica no id e na luta eterna entre thanatos (sentido da destruição, da morte, do obscurecimento) e eros (pulsão da vida, da atividade, da libido).

O erro igualmente é objeto de um julgamento moral, que dá-se pelo e através do grupo em que o aluno está inserido. Infelizmente a tendência é a de que se julgue o aluno pela sua pergunta, pela sua dúvida. Esse critério subjetivo novamente burla o racional. Minha experiência como professor ensinou-me que muito do que é perdido em termos de conhecimento – tanto cognitivo quando afetivo – pelos alunos dá-se em razão do constrangimento em perguntar. Em outros termos, de exporse.

Por outro lado, há uma sensação de estranhamento do grupo em relação ao aluno que pergunta, especialmente se nos referirmos ao ensino fundamental. Não vivemos numa época tolerante ao outro. A ordem do dia é manter-se a individualidade a qualquer preço. BAUMAN (2004:96) ao analisar a frouxidão dos laços afetivos em nossa sociedade diz:  “A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor”.  Cabe a analogia à sala de aula quando ao aluno cabe o desconsolo de saber-se só, mesmo quando sua pergunta (que mitigaria a tendência ao erro) significa a dúvida de muitos.

Entendemos que o erro não pode ser compreendido através de noções parcializadas, mas deve ser objeto de estudo multidisciplinar, buscando determinar os processos culturais que o estruturaram e potencializaram seu caminho ideológico. O erro construtivo é a ponte cognitiva que aproxima o próprio erro de sua extinção. Mesmo assim, não é pacífica sua utilização de modo largo no âmbito escolar.

Concluímos que a estruturação da escola, seguindo uma face moldada inicialmente por parâmetros industriais mostrou-se desde seu início conservadora. Submetida a uma visão ideologicamente dominante de mercado, ratificou o erro como algo a ser exilado. Outrossim, tensões radicadas no inconsciente coletivo fazem com que o erro seja visto como uma valência negativa. Aprofundar o estudo do erro é fundamental para a construção de uma escola cuja visão de mundo não se esgote na superficialidade, mas que, especialmente, procure no sentido de humanidade sua essência e praxis.

 

Palavras: Erro. Ideologia. Escola.

 

Hilton Vanderlei Besnos.

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