Cegueiras administrativas e discursismo na inclusão escolar


Março de 2006

 

Ontem à tarde, ao ingressar em uma turma nova como professor, eu o vi. Estava lá, sentado, com uma expressão que contrastava com a dos outros alunos. Em meio à agitação adolescente, lá estava um adolescente que não se agitava, que parecia conter em si um instrumento de balanceamento de sons e de cheiros e de vozes e de ruídos.  Este menino, quando falava, igualmente se diferenciava dos demais. Sua fala era normalmente pronunciada em voz audível, mas dentro de uma normalidade de expressão. Não o vi gritar uma única vez. Se havia algum espanto, era o meu.Tinha de administrar minha primeira experiência com uma nova turma, bastante agitada, daquelas que “não se pode abrir um sorriso”, sob pena de virarmos uma marionete, um brinquedinho de estimação, e o meu primeiro contato com um aluno que possui forte deficiência visual. Para usarmos uma expressão que não se preocupe com o politicamente correto, basta trocarmos “forte deficiência visual” por “cego”. Isso mesmo.Eu estou ensinando, desde ontem para um menino cego.

Não recebi qualquer educação especial para isso, não conheço a linguagem Braile, não entendo rigorosamente nada a respeito do assunto, jamais me foi oferecido qualquer tipo de formação a respeito do assunto, mas cinicamente e de forma canhestra, utilizando artifícios de linguagem e um discursismo nojento porque afronta a pessoa do aluno, a Prefeitura de Porto Alegre, através da sua Secretaria Municipal de Educação coloca alguém cego para ser ensinado por quem não tem a mínima experiência para fazê-lo.

Pensem no inusitado, pensem na responsabilidade do ato, tanto por parte do professor como por parte do aluno, mas, de modo muito especial pensem no que vem praticando essa Secretaria Municipal de Educação, no que tange à inclusão tão sonhada e tão democraticamente fundamentada. Pensem em um sistema que joga um aluno com cegueira dentro de uma sala com mais de vinte e cinco alunos sem qualquer problema deste tipo e mais um professor sem qualquer experiência a respeito do fato.  O medo me corrói, o medo de ensinar mal, o medo de não saber agir direito, mas parece que o medo é só meu. Fui colocado ali e pronto. Eu deverei me adaptar ao fato, eu deverei ensinar, eu deverei, eu deverei, eu deverei, eu deverei. O aluno, por seu turno, está fadado a aprender com alguém que não tem experiência alguma em lidar com tal situação.

O sistema? Ah, sim, esse discursa, faz jeitinho de bom moço.  Na hora do recreio, fui chamado para falar com uma pessoa que lida com a SIR visual da Prefeitura, e que irá convertendo os textos em Braile para que meu aluno possa lê-los e entende-los. Fiquei olhando para a profissional e pensando: “Deus, ela sabe muito mais que eu” e, de modo bastante clara, na dependência que está forçadamente estabelecida entre nós três, o triângulo entre o professor inexperiente, o aluno cego e a sua tradutora em Braile.

E então se revelou claro, mais uma vez, o que é discurso, o que é boa intenção e o que é a prática. Poderei dar o melhor de minha capacidade para esse aluno? Isso é secundário. O principal é que existe um sistema canalha a endossar tais situações, nas quais a educação ao aluno é secundária, a educação para o professor lidar com os fatos é secundária, a própria realidade é secundária.O principal aqui, é meramente político, é dizer-se que uma educação cidadã se faz com inclusão, mesmo utilizando critérios materiais e pedagógicos absolutamente errados. Mas afinal, quem se preocupa com isso? Quem se preocupa com o dinheiro para preparar professores para lidar com tais situações? Quem se preocupa com montar equipes multidisciplinares para tratar de tais questões?

Afinal, antes de ser cidadão, o meu aluno é apenas um número perdido em estatísticas, mais um aluno filho da classe popular. E para que mais ele serviria, senão para nutrir discursivamente uma realidade mais fictícia do que real?

Um pensamento sobre “Cegueiras administrativas e discursismo na inclusão escolar

  1. Professor, li o seu texto e compreendo sua preocupação, mas não se desespere.
    Pense que este aluno ouve muito bem e tem a cognição preservada, então o primeiro passo e conhecer este aluno. Converse com ele, avalie seus conhecimentos…..
    Sou professora de Educação Especial e já orientei muitos casos como o seu.
    Um de meus alunos hoje é advogado e sempre estudou em escolas comuns com professores sem treinamento nenhum (infelizmente).
    É possível mesmo assim oferecer uma educação de qualidade ao seu aluno.

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