Chuvas, Educação de Jovens e Adultos e o cotidiano


 

Estou na escola, no intervalo do turno da tarde, aguardando a chegada dos alunos que freqüentam a Educação de Jovens e Adultos, durante a noite, enquanto a chuva, o frio e a umidade desaconselham suas presenças. Sei que praticamente não haverá alunos em sala, se considerarmos o universo de alunos matriculados, porque a ausência vem aumentando significativamente ano a ano. É claro que se a maioria dos alunos faltassem apenas hoje, não haveria problemas. Mas não é isso que ocorre.

Se consultarmos, por exemplo, as listas de presença de alunos, verificaremos que se efetivamente os mesmos viessem às aulas, algumas salas teriam de ser relocadas, ou mesmo haveria a necessidade de uma programação distinta quanto ao horário dos professores. Alguns dos motivos para tais ausências são conhecidos: o cansaço de quem trabalha o dia inteiro, muitas vezes em tarefas estafantes ou repetitivas, as pressões sociais no sentido de que muitas vezes o estudo tem um valor meramente utilitário, e muitos não vêem perspectivas de melhoria profissional a curto e médio prazo, uma história de fracasso em suas vidasescolares ou mesmo a não possibilidade de cursar uma escola durante muito tempo, não raro décadas.

Enquanto a chuva vai traçando seus caminhos entre telhados, ruas e enxarcando o que possa, penso que além dos motivos já conhecidos, há dois que se relacionam com a própria configuração da Educação de Jovens e Adultos. Um deles é a migração, cada vez maior, de alunos adolescentes egressos, não raro, da própria escola, e que estavam no ensino regular. As questões ligadas a tal ingresso na EJA tem sido objeto de discussões internas, especialmente porque os alunos devem trabalhar, e isso é um pouco complicado quanto à verificação, porque normalmente tais atividades são informais, sem carteira assinada. Na prática, pode ser um logro, simplesmente para que o aluno migre para a noite.

Ocorre que nem sempre o convívio entre adolescentes e adultos pode ser agradável, pois, originalmente pensada como uma estrutura educacional para acolher trabalhadores e com uma visão pedagógica estruturada a partir de suas necessidades, foi aos poucos demandada por uma razoável parcelas de alunos com um histórico de dificuldades no ensino regular. Perfis comportamentais não raro distintos, reconhecidos e prestigiados pelos adultos trabalhadores findaram por criar atritos e intolerâncias, reforçando um clima de competição e de individualismos que mais fizeram afastar tais alunos do convívio com aqueles adultos.

As questões relativas às fases de vida e os desejos represados por uns e outros trouxeram uma baixa tolerância à convivência comum.  Mais uma vez demonstrou-se, às escâncaras, os papéis importantíssimos do currículo oculto, do currículo nulo, do bullying e dos (pre) conceitos culturais, que se sobrepuseram claramente ao currículo formalmente estruturado.

Deve-se notar, aqui, que discussões teóricas e aprofundadas sobre tais aspectos praticamente inexistem. Nos conformamos, enquanto escola, com comentários pífios sobre tais temas, isso quando alguém se dispõe a dizer algo, muitas vezes sem ter uma conceituação das mais claras sobre os temas. Por outro lado, a tendência a tornar a educação de jovens e adultos um simulacro do ensino formal, repetindo alguns de seus padrões, somente que em turno inverso, também trouxe uma demanda de exigência curricular para a qual a formatação da EJA não se adéqua.

Mesmo as matrizes avaliativas tendem a ser as mesmas, assim como os parâmetros para as promoções às totalidades seguintes. Como se pensar atualmente a EJA é um caminho que deve ser construído, considerando-se, em primeiro, que tais características devem ser motivo de aprofundamentos que busquem uma definição mais atualizada e clara de tal modalidade de ensino, tornando-a mais coerente do ponto de vista de sua essência educacional. Se tais problemas são sentidos pelos professores, igualmente o mesmo ocorre em relação aos alunos adultos trabalhadores que responde aos mesmos esvaziando a escola de significância e de significado. A ausência parece gritar que algo não está bem, que algo deve ser reformulado. Fica para a direção da escola e para o corpo discente a mensagem clara do vazio das salas, do oco, da infreqüência, do desencanto.

Os adultos voltam, conformados, a um nicho comum: o da desvalorização de sua própria presença ante o conhecimento, o do retorno da baixa auto-estima que já faz parte de sua historiografia escolar. Penso que se a escola efetivamente desse tempo, vez e voz para a qualificação e se as questões de ética e de convivência fossem trabalhadas de modo a suscitar uma nova formatação da EJA enquanto agente de uma política educacional mais solidária e mais eficaz, voltada para a reinvenção do educacional, provavelmente a chuva que ora cai seria a da semeadura e não a da erosão.

Um pensamento sobre “Chuvas, Educação de Jovens e Adultos e o cotidiano

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