Os flautistas de Hamelin


 

Há momentos em que ocorre um ponto de ruptura. A partir daí, inexiste situação de continuidade possível. Mesmo que você tente retornar, mesmo que você reconsidere, sempre vai estar lá, em qualquer tipo de relacionamento, a lembrança, a memória viva do que aconteceu, de porque aconteceu e de como aconteceu. Muitas vezes situações limite já levaram ao ponto de ruptura. Já aconteceu comigo, talvez tenha acontecido ou vá acontecer com você.

Do ponto de vista educacional isso também pode ocorrer. Não é simplesmente desistir, pois a desistência normalmente ocorre após momentos mais ou menos intensos de introspecção, de reflexão. A ruptura ocorre abruptamente: simplesmente algo acontece ou deixa de acontecer, mas tem a força de uma tempestade. Rompeu, quebrou, não tem volta. Dramático? Eu diria real.

Muitas vezes fico pensando nos meus alunos, nos seus códigos e nas limitações de ambos: as deles e as minhas. Há, parece, uma desistência em abandonar a zona de conforto, e talvez isso seja o que mais me abale. Quando aprendemos realmente algo, é muito grande a gratificação. Escutei e escuto muito o discurso que elege a afetividade e o desejo como motores principais para a aprendizagem. Concordo, mas também aprendemos para nos sentirmos bem, aprendemos por necessidade, por ambição, por simples prazer, para cultivarmos nossa auto-imagem; aprendemos por curiosidade, por indignação, por termos uma causa.

Para Sartre, todo homem se constitui a partir de seu próprio projeto de vida. Mas pouco aprendemos quando não temos uma auto-imagem sadia, quando não conseguimos nos enxergarmos dentro de um contexto social. Não aprendemos no caos, a não ser que queiramos aprender sobre o mesmo.

A ruptura ocorre a partir do momento em que não buscamos nos reconhecermos humanamente através do conhecimento. Rompemos com nossa humanidade quando nos negamos a sair da zona de conforto, do conhecido, do já explorado, daquilo que, em nós, se tornou banal. Ao rompermos com o conhecimento, buscamos eliminar as dores e as angústias do crescimento, as dúvidas da desacomodação.

Se não queremos os lutos, as angústias que são tão eximiamente camufladas pelas nossas zonas de conforto, resta-nos a consciência de nossa inconsciência assim como a recorrência do pensamento mágico. Temos uma enorme necessidade de nos filiarmos às instituições, aos grupos que, se por um lado tão bem nos confortam, de outro nos conduzem docilmente como as ratazanas do Flautista de Hamelin. Mas, quanto ao pensamento mágico, sem dúvida, Philipe Meirieux fala bem melhor que eu.

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