Are you ready?


 

Entrei em uma turma de C 10 (correspondente à sexta série do ensino fundamental), para substituir uma colega por uns dez ou quinze minutos, nos quais escutei palavrões, xingamentos, gritaria, vi alunos se atirando no chão, vi outros com os pés jogados displiscentemente por cima das carteiras. Faixa de idade? Treze, no máximo, quatorze anos, talvez. Não é uma turma na qual eu seja professor regente.

O que me espanta é como, de que modo, usando quais caminhos esses alunos conseguiram chegar até aqui. A outra pergunta que se impõe é: de março a dezembro de 2007 o que foi feito pela escola em relação à tal turma? Sei que o Setor de Orientação Educacional esteve em sala diversas vezes, chamou pais, promoveu reuniões, enfim, tomou vários procedimentos. No entanto os alunos continuam a se ridicularizar, a serem hostis, provocadores, deseducados o máximo que podem e durante todo o tempo possível. Ora, a minha experiência como educador não pode, nesses casos, simplesmente atribuir, creditar o que acontece à instâncias genéricas como “o sistema”, “dispersão”, “problemas de aprendizagem”, “débitos sociais” e tantos outros. No meu entender há uma grande responsabilidade dos meus colegas. Em algum momento eles simplesmente desistiram.

E desistindo, abriram mão de sua autoridade em aula, se deixaram derrotar em premissas básicas, como a de estabelecer um ambiente de aprendizagem em sala. É óbvio ululante, parafraseando Nelson Rodrigues, que criar um ambiente assim implica em suportar, em lidar com crueldades diárias, ironias, deboches e, especialmente, muito, mas muito estresse. Uma carga emocional que se prolonga por duzentos dias letivos durante quatro horas por turno de trabalho, lidando com o improvável, com uma lógica de desgaste que se auto-gera como resultado. Uma estrutura autopoiética.

Embora muito possa ser dito e escrito a respeito do tema, de um ponto você, como professor, não deve abrir mão: da sua presença e da sua autoridade. Os alunos devem saber quem é você, como são as suas aulas e, especialmente, o que podem esperar de você. Como o processo de aprendizagem é longo, não-linear e sujeito a mudanças nem sempre queridas ou esperadas, você, professor, deve se tornar um ponto referencial em meio ao que virá. Não se trata, aqui, de planejar aulas no sentido formal, mas de executá-las. Não, não é fácil; ao contrário, exige por vezes uma paciência franciscana, uma tolerãncia de um monge.

Se você tentar sinceramente e não conseguir, procure em si próprio descobrir o que pode ou o que deve ser mudado e tente. Não caia no engôdo de infantilizar o cenário havido, culpar-se ou contemporizar. Procure ir sempre ao ponto que mais exige a sua atenção, mesmo que ele insista em escapar. Seja profissional e fuja da tentação do psicologismo barato de fundo de quintal. Como educador, procure sempre uma melhor qualificação, leia mais, se informe, pratique self learning. Se, mesmo assim tudo continuar complicado, concentre-se nos pontos positivos que você ajudou a construir.

No entanto, se não fizer nada disso, se os alunos não lhe reconhecerem e respeitarem, se não enxergarem em você um estilo pessoal, um jeito de “dar aula”, prepare-se: vão rir de você e ridicularizá-lo durante todo o ano letivo. E vão dizer para o resto da escola o que você é, ou o que não é. As suas pretensas aulas vão virar um circo, e vai acontecer o que eu descrevi no início deste post. Uma vez que sua imagem já esteja formada, os alunos farão com que você conviva com a mesma durante muito, muito tempo, bem mais do que você gostaria.

Saiba de uma vez por todas: embora você não precise ser nem um Átila nem Madre Tereza de Cálcutá, determinados limites tem de ser estabelecidos e quem faz isso é você. Não é o sistema, não é a direção, não é qualquer serviço da escola. É você. Se necessitar, peça ajuda, mas não transfira responsabilidades. Ninguém vai aceitá-las.

Neste ano tive (como a maior parte dos meus colegas) também a minha turma na qual era praticamente impossível ter minimamente um ambiente de aprendizagem. Não tenho dúvidas de que para muitos dos alunos ali, a educação, enquanto processo formal e a escola em si não tinham a mínima significância, a não ser para o aproveitamento narcísico de seu lado social; nesses casos você tenta falar com quem não quer ouvir, tenta argumentar com quem não está interessado, seja por qual motivo seja. A conseqüência direta é a perda de qualidade de ensino, a instauração do caos e uma brutal assimetria entre os atores educacionais.

Esse cenário desencadeia uma baixa densidade de ensino/aprendizagem, um absurdo tempo dispendido em tentativas de impor limites razoáveis à turma, gerando uma “quebra de braço” para saber quem detém o fugaz “domínio” da classe: os alunos ou o professor, o que acarreta um estresse para além do normal. Por outro lado, a perda do eixo do processo educativo é uma decorrência normal em meio a esse tipo de processo de degradação.

Todas essas questões demandam um forte trabalho do eixo condutor de qualquer escola: a área pedagógica. A atuação do pedagógico, aqui, implica não só em uma visão educativa a médio e longo prazo, mas no acompanhamento do dia-a-dia do educador e do educando, bem como das relações de aprendizagem. O pior, no caso é que, em boa parte dos casos, as escolas estão tão contaminadas pela burocracia administrativa que o que é de mais importante muitas vezes ela não cuida: o ensino. Se a área pedagógica não consegue, desimportando aqui os motivos, estabelecer uma linha coesa e coerente de atuação do seu corpo docente, os problemas só fazem avolumar pelo sentido de isolamento que passa a dominar o professor, e com inteira razão.

Em tal cenário resta ao educador ou ter uma atuação responsável e pró-ativa em relação aos seus educandos ou aderir ao conformismo. No último caso, por maiores que sejam os argumentos utilizados, o laissez faire sempre é uma prova incontestável de que o profissional não tem condições reais de lidar com os problemas que o pressionam. O professor entrará em crise, necessitando repensar criticamente sua atuação, não somente em relação a uma ou mais turmas de modo específicom, mas especialmente nas demandas que tem de atender enquanto presença de educador.

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