Bonés e identidades


Muitos dos meus alunos se escondem sob a sombra das abas dos seus bonés. Basta um movimento e pronto: os olhos e a expressão do rosto desaparecem. É uma questão de moda? Será que o uso dos bonés, que algumas escolas querem vetar é uma intromissão indevida no protagonismo do aprendente, expressão – esta sim –  tão em voga dentro do discurso político do pedagogês? As questões que envolvem usos e costumes no trajar são irrelevantes ou estão gritando algo que pode ser lido através da sua cotidianeidade?

É necessário, penso, reportar. Em Buenos Aires, os estudantes usam uniformes das suas escolas: em Montevideo, idem. Para usar um exemplo nacional, em Fortaleza, Ceará, também usam o uniforme (que lá é chamado de farda) das suas escolas, independentemente de serem públicas ou privadas. Aqui em Porto Alegre, escolas particulares e tradicionais usam uniformes, as públicas não, com raras excessões.

Os alunos do Israelita, do Anchieta, do Rosário, do Colégio Militar e outras escolas privadas usam uniformes. Já nas escolas de periferia, não. A cultura da exclusão e a falta real de condições de acesso ao mundo do consumo, faz com que as vestes e os comportamentos sigam esses padrões de não distinção, de uniformidade anárquica. Os níveis de contestação, como supomos, é completamente distinto entre os filhos das classes abastadas e os filhos das eufemisticamente chamadas classes populares. O garoto classe média opta entre usar uma camiseta despojada e rasgada ou usar um tenis Reebok. O menino da classe popular não opta, ele usa o que lhe é possível no momento. Em casos limites, ele toma o que a sociedade lhe nega.

Uma capa de boné abaixada não é só uma questão de moda: dependendo do ambiente que se esteja trabalhando ou circulando, pode ser simplesmente moda ou pode ser a afirmação de integrar um grupo social marginalizado. Rostos sem face, expressões encobertas, cabeças baixas; sem dúvida alguém deveria escrever sobre essas máscaras de identidade ou de negação das mesmas, assim como se escreve sobre o que é socialmente desejável, sobre o que o mundo do consumo dita para a (re)estruturação identitária, diria Bauman.

O mundo do consumo, contudo, pode inclusive usar a marginalidade social para alavancar lucros: lembremos dos hippyes, recordemos a moda youppie, a glamurização do sertanejo e, mais recentemente, dos DJs. Adolescentes e mesmo adultos usarem colares e calças jeans esburacadas são tendências que foram inicializadas nas ruas. A diferença, contudo, é clara: enquanto uns usam colares de ouro e de prata, à grande maioria cabem bijuterias de duvidosíssima qualidade. Os filhos dos Moinhos de Vento usam calças rasgadas com o distintivo social da griffe; os das comunidades pobres, as usam por falta de opção. Nem sempre, é claro.

De todo modo, o vestir já é um signo inequívoco de diferenciação social. É também por isso que usar boné em escolas de privilégio é moda, é fashion, enquanto nas escolas públicas de periferia, é um aviso de que é melhor, ali, manter-se indistinto, misturado à multidão, sob pena de ter de sofrer consequencias nem sempre agradáveis. Avisados todos nós, que tenhamos tento pois, a qualquer momento, a eletricidade carregada pode explodir. Possivelmente bem ao seu lado, e sem qualquer motivação aparente.

Um pensamento sobre “Bonés e identidades

  1. Ok, nas escolas tradicionais particulares é obrigatório o uniforme, mas estou tentando descobrir uma escola pública ensino fundamental e médio em Porto Alegre que esta prática seja obrigatória e não estou encontrando, vcs tem alguma opção, por favorrr.

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