Lidando com o perigo: códigos


1 – O fato. 

Hoje, 28 de abril de 2006. Terminamos de almoçar e só faltam quinze minutos para as treze, horário limite para que eu pegue o ônibus e vá para a escola municipal, onde sou professor. Deixamos nosso menino na escolinha, próximo à nossa casa e minutos depois estou embarcando no ônibus.Tenho um livro às mãos; gosto de ler durante o trajeto, a não ser que esteja muito cansado. No entanto, hoje De Masi me absorve.Desço na parada habitual; agora devo andar três quadras, pela Martim Felix Berta, sentido bairro e depois dobrar à direita na primeira rua, descer uma quadra e dobrar à esquerda. Levo em média uns seis ou sete minutos para cobrir o percurso. Faltam poucos metros para atingir a esquina onde devo dobrar à esquerda, para entrar no mundo da escola.

Ainda estou pensando na leitura, quando passam por mim, no sentido contrário, dois jovens: enquanto eu desço a mesma pela calçada, em direção à escola, os dois seguem pelo meio da rua para a Martim Felix Berta. O sol brilha intensamente, e ouço um latido forte no quintal da casa à minha direita, do outro lado da rua. “Proteção”, penso.

No momento em que brevemente nos cruzamos, um dos rapazes pergunta/ordena:“Aí, tio, me dá um dinheiro pr’eu fazê um rango! Depois te devolvo!”Olho para ele. Não o conheço. Não é aluno meu, nem foi. Está vestido dentro do código básico dos jovens das zonas periféricas: camiseta larga, com algo escrito em inglês, bermudona larga abaixo dos joelhos, cabelo com uma tintura que o deixa amarelo.Embora não o conheça, abro um sorriso e lhe digo que não tenho dinheiro. Continuo andando em direção à escola, e eles em sentido contrário. É aí que ele explode. Berra, no meio da rua, onde passam alunos, senhoras, transeuntes:“Então vai te fuder, seu filho da puta! Enfia o dinheiro no teu cu. Corno, veado, filho da puta!” – ele continua berrando, ofendendo, jogando seu ódio diretamente em cima de mim. Enquanto grita, faz gestos com a mão, com o corpo todo se preparando para uma briga.

Os xingamentos, a explosão de raiva do jovem me atingem como uma bofetada; de repente estou ali no meio da rua, sendo xingado, humilhado e publicamente constrangido. Sinto-me nu. A adrenalina comanda a minha resposta, no mesmo tom:“Vai você, palhaço! Vai você, infeliz, boçal, imbecil!”

A raiva com que eu grito é tão grande quanto a humilhação que estou sentindo. O jovem continua a xingar, a ofender. Sempre subindo a rua, vem a ameaça:“Tenho vontade de te dar umas porradas, seu filho da puta!”“Então vem dar, imbecil! Vem, canalha!!”, eu respondo.Ato contínuo eu paro e fico esperando que ele venha cumprir o que disse. Faço uma rápida análise visual do mesmo. O rapaz tem no mínimo quinze centímetros a mais que eu, é forte e deve ter quase trinta anos a menos.

No entanto eu fico ali, adrenalina pulsando, aguardando o que ele vai fazer.Enquanto ele está com um amigo que possui o mesmo perfil físico e idade muito próxima, eu trago somente o livro de Domenico Di Masi na mão direita, enquanto a esquerda segura a alça da sacola onde trago meus materiais para a escola.

Entre nós há uma tensão constante; o outro continua a repetir as ameaças, mas continua andando no sentido contrário ao meu, que estou ali, esperando. Quando eu pressinto que ele não irá me atacar fisicamente, começo a andar para a escola, dando-lhe as costas. Parece que a situação toda se fluidificou, perdeu-se em algum ponto entre a estupidez e a humilhação, entre a violência verbal e a resposta física. Quando chego à esquina, instintivamente olho em direção a Felix Martim Berta. Ambos me observam; provavelmente estão considerando as possibilidades reais de agressão. Segundos após, estou entrando na escola.

2 – A reflexão 

Estou na sala dos professores, refletindo sobe o que houve. Estou só, e não contei nada a ninguém. Penso.Até o momento em que respondi que não tinha dinheiro para dar ao rapaz (na situação concreta, usar o verbo “emprestar” era um eufemismo, uma licença semântica), estávamos ambos dentro de uma situação esperável. Se alguém pede algo que você não tem, ou não quer, ou não pode dar, doar, ceder, quem pediu sabe que seu desejo não obriga o outro.

São regras de convívio social, para o bem ou para o mal.

No momento em que parei, fisicamente convidando o rapaz a agir, havia entre nós um abismo, que não podia ser medido em metros, mas em dimensões que se incluíam e se excluíam mutuamente. Ali convivia no mesmo instante a civilização e a barbárie, como faces intensas do humano, do inesperado.Quando me senti humilhado, atingido na minha auto-imagem, reagi fortemente. Embora não tenha dito nenhum palavrão propriamente, a intensidade e a ira com as quais me defendi eram muito fortes.

Penso. No momento em que aceitei o desafio, que não recusei o embate, será que agi bem ou mal? Deveria ter ficado quieto? Passivo, como fui e sou obrigado a ser incontáveis vezes na escola onde leciono?Talvez o mais prudente fosse engolir a humilhação, digerir a agressão, submeter-me ante o agressor, intelectualizar a situação como forma de minorar o agravo que estava sentindo. Mas nem sempre consigo seguir o que é mais prudente, mais politicamente correto, mais conveniente ou o que a razão manda.

Ainda não sou de plástico.

Há situações nas quais a pressão é muito grande, e normalmente elas provêm do inesperado, do agressivo, da abusividade que busca ser artificialmente superior. Ao repensar no que houve, me vem a certeza que eu usei o mesmo código, a mesma linguagem que o meu agressor usou. O não demonstrar medo, aqui, significa ser respeitado. Na comunidade em que trabalho como professor presencio, dentro da escola, vários atos de agressão por dia, patrocinados indistintamente por todos contra todos, desde a violência simbólica de Bordieu até o primitivismo atávico e agressivo dos códigos locais e que envolvem a não representação e a não aceitação do outro.Não creio, contudo, que respeitar diferenças seja um passe livre para a submissão, ou que ao humilhado caiba o papel de humilhar terceiros, indistintamente, reproduzindo um ciclo de insanidade.

Quando fui agredido, defendi-me, para demonstrar claramente que havia sentido a agressão e não concordava com ela, mas que não iria ficar passivo: esse o código do local, e não o código burguês que impulsiona boa parte de nós, professores.Tenho plena consciência de que participo de uma sociedade doente; por isso, não devo ser brutal, sob pena de não apreciar as manifestações positivas, que são muitas e que brotam indistintamente aqui e ali, e nem tolo ou romântico demais no sentido de tudo perdoar, em razão de pretensamente carregar em minhas costas um sentimento de culpa infinito e indefinido, pelo fato de ter conquistado o que até hoje conquistei, fruto do meu trabalho e da minha dedicação.

Sou responsável pela minha história e pelas minhas escolhas; se não devo alimentar a violência, por outro lado uma submissão genérica não pode ser encarada como a única alternativa ou opção possível.

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