Nem anjos, nem demônios


Os professores de matemática são considerados algo entre malévolos, bruxos, seja lá o que você quiser, mas, sem dúvida alguma, inteligentes. Isso significa muita coisa? Sim e não. Sim se você usar essa possível inteligência para resolver questões e melhorar a vida das pessoas, seja do ponto de vista pessoal quanto do ponto de vista profissional. Se você fizer isso, será quase um ser mitológico. Não, se você se encastelar com o seu entendimento matemático e se usá-lo como uma disciplina de prestígio e de submissão. Em suma, como uma arma.

Comecei assim este post porque fico admirado com os comentários que escuto na sala dos professores a respeito da matemática. Tentam convencer seus alunos de que matemática não é difícil, que somente é necessário prestar atenção, mas a execram como se fosse um obstáculo que não se presta para ser vencido por qualquer pessoa. Assim, uma boa parte do que falam para os alunos contradiz o que realmente pensam. Fica difícil você articular um discurso se não acredita nele; sempre há uma nesga de falsidade quando você tenta fazer outros crerem em algo que você não crê. Esse é o primeiro ponto.

Segundo, porque as linhas de pensamento matemáticas obedecem a um rigor, que é o da razão e a uma nomenclatura própria, que precisa ser entendida. Faz parte do domínio da disciplina o domínio da lógica, da abstração e de uma semântica toda particular.  Nem sempre temos o hábito de submetermos nossas assertivas à lógica e à razão. Aliás, na esmagadora maioria do tempo nossos pensamentos e ações (ou inações) transitam na área dos sentimentos e não na área da razão. Usamos bem mais nossas regiões límbicas do que o neo-córtex.

Terceiro, porque nos acomodamos dentro de uma zona de conforto (lembra Vigotsky?), o que significa que não gostamos de problemas, mas sim que os outros, os terceiros os resolvam e, de preferência, que não sejamos muito solicitados. Se formos, estressamos, brigamos, ficamos amuados, aborrecidos. Matemática é inequivocamente relacionada à solução de problemas. Daí decorre que…

Quarto: nessa era de consumo desenfreado, cada vez ficamos menos tempo refletindo, matutando, pensando em como as coisas se desenvolvem, como elas são criadas. Vivemos em um cenário no qual preferimos consumir e descartar para continuarmos consumindo e descartando. Não há muito tempo nem muita preferência em cultivar a curiosidade. Os outros criam e eu pago o que eu posso consumir ou o que o sistema produtivo quer que eu consuma. Esse parâmetro é o que passamos para os nossos alunos, de modo consciente ou inconsciente.

Quinto: os professores de hoje, que tanto criticam a matemática, a aprenderam como algo que deveria ser decorado. Pergunte à queima-roupa o que é uma multiplicação, assunto que é ensinado dia-a-dia nas séries iniciais. Depois marque quantos disseram que ela é uma adição de parcelas iguais entre si. Pronto, você terá uma idéia do que estou falando.

Há muitos outros motivos que levam as pessoas a crerem sinceramente que basta saber somar (adicionar), dividir, diminuir (subtrair) e multiplicar e pronto! O resto todo é dispensável. Não é bem assim, por vários motivos. Alguns:

a) Matemática, assim como a Língua Portuguesa, é um filtro social. Em suma, se presta de modo bastante prático como selecionadora de candidatos, sendo utilizado assim tanto pelo sistema produtivo quanto pelo sistema educacional latu sensu.

b) Cada vez mais é necessário que a matemática seja entendida como uma tecnologia, com uma visão própria do mundo e do universo. Possui um sistema de semântica que, não entendido, leva ao conceito de analfabeto matemático, em analogia ao analfabetismo da língua, diminuindo as possibilidades reais de sucesso na educação e em alguns processos produtivos, em que seja necessária a habilidade e a capacidade de compreensão dessa área científica.

c) O desenvolvimento de capacidades de calcular, de entender juros, o desenvolvimento das idéias de espaço, tempo, medição, áreas, volumes, representações e a competência para efetivar a leitura de situações gráficas não implica somente na aprendizagem da disciplina, mas como um qualificador da cidadania, na medida em que oportuniza uma melhor compreensão do mundo e, portanto, atitudes menos passivas em relação às ocorrências mediadas pelos meios de comunicação e pelas instituições socialmente organizadas.

Assim, não somos nem bruxos nem deuses, nem monstros nem anjos de ternura, mas, sem dúvida, precisamos de uma maior proximidade com nossos colegas e com nossos estudantes. Sob pena de termos, ainda, de decorar a tabuada.

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