Quem não cola não sai da escola?


A frase “quem não cola não sai da escola” se encontra obsoleta, pois depende de que sistema e administração política de ensino estamos falando.Ela valia em especial quando a avaliação era quantitativa. A nota, observada, informava a situação do aluno em relação à sua aprendizagem em um dado momento. Novas correntes pedagógicas criticaram acidamente tal sistema. Os defensores da avaliação qualitativa passaram a advogar que a quantitativa era excludente, instrumento que poderia inclusive alijar o aluno do processo de ensino e de aprendizagem, além de estigmatizá-lo e de ser socialmente injusta. Muitos argumentos foram utilizados contra a avaliação por notas para chegarmos ao status da avaliação mais subjetiva e que opera basicamente por faixas conceituais, em códigos como “na” (aluno não avaliado), “ep” (o aluno atingiu os objetivos propostos em parte), mais tarde substituído por “ec” (a aprendizagem do aluno se encontra em construção), e “s” (satisfatório).

Imagine-se um responsável por aluno, pertencente à classe popular (eufemismo, entre outros, para designar as classes econômica e socialmente carentes e que não tem acesso não somente aos bens de consumo mas também aos padrões culturais ligados ao exercício pleno da cidadania) que vai à escola receber o boletim do seu filho, que cursa o ensino básico. O boletim informa: língua portuguesa n, ciências ep, educação física ep matemática ep arte-educação s história s, geografia ep e filosofia na. Lindo, não?

Normalmente nesses momentos o responsável pergunta aos professores disponíveis “como está o meu filho (a)?”, simplesmente porque os códigos são inacessíveis ao seu – dele – entendimento. As respostas muitas vezes também são vagas, pois mesmo os professores trabalham e informam faixas de avaliação. Essa a realidade das escolas do município de Porto Alegre que adotam a avaliação qualitativa que, para os seus defensores é diagnóstica, não-excludente, cidadã e não classificatória, justa socialmente, etc. Houve algum avanço aí? Discutível. É meridiano que o aluno e seus pais não recebem um background que registre um retrato mais fidedigno do processo de aprendizagem.

Os que defendem a avaliação quantitativa entendem que o injusto é privar o aluno de informações concretas quanto ao seu aprender. Para os que advogam a avaliação qualitativa, mesmo a avaliação externa é injusta, se considerarmos que o aluno é o parâmetro individual de seu processo de aprendizagem, como diz uma das bíblias do ensino por ciclos, o famoso caderno 8 da secretaria municipal de educação – assim mesmo, em minúsculas – de Porto Alegre.

Se considerarmos que a mesma secretaria decretou que somente podem ser retidos os alunos nos anos finais de cada ciclo (A30, B30 e C30), seríamos ingênuos se não disséssemos que a mesma, independentemente de seus méritos ou deméritos é a mais adequada à política da aprovação automática. As faixas conceituais se prestam como uma luva a tais pretensões, contrariamente às avaliações quantitativas. Verifiquemos, por exemplo, situação na qual um determinado aluno tem os registros abaixo em avaliações ao longo de um trimestre. Bem didaticamente,

Avaliação qualitativa

Avaliação (a) na Avaliação (b) ep Avaliação (c) ep

Avaliação quantitativa

Avaliação (a) – Avaliação (b) 5,0 Avaliação (c) 6,0

No primeiro caso, não houve uma avaliação (a primeira), mas nas outras duas o aluno atingiu seus objetivos em parte. Considera-se assim uma evolução do mesmo que na terceira avaliação continuou construindo seu conhecimento. Seria uma situação média e o mesmo seria considerado aprovado no trimestre.

No segundo caso, não houve igualmente a primeira avaliação. Se considerarmos que cada prova valeu dez pontos, e fizermos uma média aritmética, veremos que ela totalizará o valor de 3,66, ou seja, o aluno estaria abaixo da média mínima considerada para se considerado aprovado no trimestre, mesmo que a média para aprovação fosse a menor possível, 6,0 por exemplo.

Talvez por isso a frase inicial deva ser mudada, até porque sequer é necessário colar para sair da escola, pois o sistema se encarrega de tal aprovação…

Isso é um problema da concepção do regime por ciclos de estudos?

Não, mas de como é politicamente gerenciado. É de uma clareza solar que as exigências de um currículo estruturado se esfarelam ante tais critérios de avaliação, além de ocorrerem danos adicionais ao cenário pedagógico da escola. Ora, se este é o sistema posto, de tal modo administrado e gerenciado, onde e em que condições pensarmos seriamente e com conseqüência em ensino de qualidade?

Esta é apenas uma das questões de um oceano chamado educação e que deveriam ser objeto de análises profundas, com bases teóricas formativas profundamente postas, e que, não raro, passam à lo largo do cotidiano das escolas. Por outro lado, podemos considerar, igualmente, que a partir do momento em que um aluno é aprovado sem que tenha demonstrado condições reais para tanto, dá-se uma exclusão interna ao sistema, que será cobrada pela mesma sociedade que cobra da escola cada vez mais uma educação de qualidade.

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