Queria ser um polvo!


Ah, como gostaria de estender meus braços como se fossem expansíveis e pegar, tocar, trazer para mim num milissegundo, num átimo, num zás! todos os papéis, papelotes, bilhetes, lembretes, recados, avisos, recomendações por escrito, todos esses ao mesmo tempo e então, ajuntando também os instrumentos certos para a escrita, fosse lápis, caneta, computador, notebook ou qualquer outro engenho planejado para tanto, preencher, dar um fim, concluir, arrematar, aviar, liquidar com todos os planejamentos do primeiro, do segundo, do terceiro e de quantos mais infernais bimestres, trimestres ou outros mestres quaisquer houvesse na escola e que são exigíveis, exigidos, cobrados, lembrados até a exaustão e depois novamente passam a ser tema de um procedimento redundante de exigência, de cobrança e tudo o mais que se leu antes e especialmente do que não se leu mas fica nas entrelinhas.

Assim, como um huno, um deus inflexível, um demônio ou um santo empunhando os instrumentos anteriormente citados e com as ganas de quem porta uma serra elétrica, um bisturi, um martelete, me concentraria com todo ardor para o registro fundamental, imprescindível, inesgotável e sempre perquirido das quadrículas e da meticulosa e imprescindível linha horizontal que se traça nos cadernos ou nas folhas de chamada para então, com todo o cuidado de um perito em explosões, ir apondo ali, dia a dia letivo, módulo a módulo, dia civil após dia civil, as faltas e as presenças dos alunos, além de registrar igualmente os sábados letivos, os dias de formação, atentando especialmente àqueles alunos que devem ser encaminhados ao serviço de orientação escolar em razão de sua ausência, visando a confecção das ficais assim como ao chamamento, ao agendamento de entrevistas com pais, tios, avós, seja quem seja que tenha tido o desvario, a demência precoce de ter assinado a ficha de registro da matrícula como responsável pelo aluno ou pela aluna, e demais papéis para tanto hábeis.

Ah, quem me dera ter a humildade, a graça, a sapiência, a benevolência ou a sandice que somente o entorpecimento burocrático permite para não me algariar, não me alterar, não me aborrecer com tanta redundância, com tantos papéis, com tantas quadrículas, quadrinhos, reuniões, comentários, diz-que-diz-que, conversas de comadre, compadrios, ignorâncias das mais indistintas ordens, tamanhos, volumes e intensidades, bazófias, intrigas, palavras à socapa, sorrisinhos falsos, promessas vagas, manipulações, verborragias, despautérios, falácias, desconfianças, bobagens e intencionalidades urdidas de modo subterrâneo, underground, sub-reptício, maldades e ironias finas destiladas e que cabem em um pote, um copo, uma taça, um oceano venenoso para encobrir infelicidades pessoais, mentiras, projetos individuais falidos, vidas planas estressantemente comuns, sem alegria, sem um esforço real, sem uma vírgula de verdade.

Ah, como eu gostaria…

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