Reprografia pedagógica


Ficheiro:Mimeograph.svg

 

Alunos acostumados com a cópia e a decoreba também se habituam ao papel passivo de mero receptáculo de informações. Isso não significa que tenham apreendido o conhecimento que pretensamente deveriam ter entendido, mas que utilizado por uma concepção bancária, no dizer de Freire. Esse tipo de ensino, que se sustenta precariamente na memória e que é o que mais se destaca nas escolas, não conduz o aluno a pensar.

Chegamos a um cenário no qual o aluno copia do quadro e depois espera que o professor resolva as questões propostas, enquanto ele pouco aprende, mas mantém registros convenientes. O embuste é perfeito, do ponto de vista formal, pois ambas, perguntas e respostas, estarão no caderno. A simulação se consagra na medida em que os alunos não participam do processo cognitivo, mas de uma função meramente reprográfica.

Há um conforto embutido aí, e que significa um menor trabalho intelectual para ambas as partes; ao professor cabe simplesmente repetir o que já sabe de longa data, enquanto ao aluno cabe copiar algo que efetivamente não compreendeu, mas que lhe é indiferente. Em termos avaliativos, nada melhor do que se atender as conveniências do momento e, assim, o tempo que deveria ser dedicado ao processo cognitivo-social é subaproveitado e desconsiderado pelos envolvidos.

De todo modo, ensinar assim não é produtivo mas o pior mesmo é que o todo é antiético ao privilegiar o falso em relação ao real, o mecânico sobre o simbólico. Aqui o padrão de ensino se esgota na memorização. Se o aluno habituado reiteradamente a um exercício mecânico e subserviente não encontra condições mínimas de desenvolver sua auto-estima, sua capacidade crítica ou de se justificar do ponto de vista sócio-cognitivo, também participa entusiasticamente desse mundo faz-de-conta, pois conta com sua aprovação automática ao final do ano letivo. Passa a ser res. Para Bauman, uma das referências de felicidade é “…o orgulho pelo trabalho bem feito, pela destreza, astúcia e habilidade…”. Tudo isso, aqui, se perde em razão da simulação, do descaso e do descrédito.

Há que se ajuntar que cada um de nós deve buscar, independentemente da escola, suplantar as suas dificuldades, mas que isso depende de como nos vemos em frente a nós mesmos. Se as dificuldades estão postas, devemos enfrentá-las ou não? Devemos apostar em nós mesmos ou sermos reféns conscientes das nossas idiossincrasias? As possibilidades são duas: não sabemos se, optando por vencermos nossas dificuldades, isso ocorrerá de fato o que gera a incerteza; por outro lado, podemos nos alienar e sermos indiferentes a isso tudo, nos refugiando em argumentos vários, dos quais poucos, em verdade, se sustentam.

Muitos fatores, bastante substanciais, nos empurram para o descaso conosco mesmos, para a fuga na qual o prazer momentâneo é o refúgio buscado. Haverá ocasiões, contudo, em que a cobrança à nossa alienação poderá tornar-se insuportável e um diploma de conclusão de curso será tão útil como uma nota de três reais, e tão proveitoso, do ponto de vista de formação como nossa própria presunção. As vezes, muitas eu diria, caímos de modo absolutamente tolo nas armadilhas que, convictos, ajudamos a edificar. Nos autovitimamos. De todo modo, sempre temos consciência de que as estamos construindo no dia-a-dia o que, se não serve de consolo, pelo menos de alerta deveria servir.

Nem sempre a sociedade irá desejar pagar os custos que provocamos e, menos ainda, nos recompensar pelo meio social do qual nos originamos. As alternativas, sempre dramáticas, não nos levarão a lugar algum que nos seja interessante.  Quando, portanto, falamos em autocomiseração, tenhamos consciência de que, em um mundo de consumo, a paciência, a boa-vontade e mesmo os atos humanos dependem da capacidade de reconstrução identitária e das opções que fazemos. O que é discurso hoje, amanhã é a realidade. Não nos deixemos enganar, pois, apenas com declarações de boa-vontade e com solidariedades que se esgotam de modo tão rápido quanto uma chuva de verão.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s