Revolução digital, educação e cultura


 

FÓRUM MUNDIAL DE EDUCAÇÃO

Porto Alegre, Brasil, Conferência realizada em 25 de outubro de 2001.

REVOLUÇÃO DIGITAL EDUCAÇÃO E CULTURA 

Por IGNACIO RAMONET

Diretor de Le Monde Diplomatique, Paris e Professor na Universidade de Paris VII

Praticamente desconhecida do grande público há somente dez anos, Internet tornou-se um fenômeno social mundial que suscita entusiasmo e controvérsias. Como sempre, quando aparece uma inovação tecnológica acompanhada de um efeito de moda, muitos se extasiam, outros se assustam. Muitas vezes, nos apresentam a Internet como a panacéia em matéria de educação. Isto vai permitir, como por um passe de mágica, de recuperar todos os atrasos. Internet é um continente novo que a revolução numérica nos permitiu atingir. Como a caravela foi uma revolução náutica que permitiu a Cristóvão Colombo chegar na América. O que é a revolução numérica?

Havia até o momento presente, em matéria de comunicação, três sistemas de signos: o texto escrito, o som da rádio e a imagem. Cada um desses elementos foi o indutor de todo um sistema tecnológico. O texto deu a edição, a imprensa, o livro, o jornal, a linotipia, a tipografia, a máquina de escrever, etc. O texto está, pois, na origem de um verdadeiro sistema tecnológico. Assim como o som que deu a fala, a rádio, o gravador, o telefone e o disco. A imagem, por sua vez, produziu a pintura, a gravura, os quadrinhos, o cinema, a televisão, o vídeo, etc.

A revolução numérica faz novamente convergir os sistemas de signos para um sistema único: texto, som e imagem podem a partir de agora ser exprimidos em bits. É a multimídia. O CD-Rom, os videogames, o DVD e sobretudo: Internet… Isto quer dizer que não há mais diferença entre sistemas tecnológicos para veicular indiferentemente um texto, um som ou uma imagem. O mesmo veículo permite transportar os três sinais na velocidade da luz a 300 000 km/h. Podem ser enviados textos, sons e imagens em tempo real, na velocidade da luz, junto ou separadamente. Esse sistema constitui uma transformação radical porque muda a comunicação na medida em que não há mais diferença entre o sistema textual, o sistema sonoro e o sistema da imagem. Resta apenas um sistema que se exprime na base de 0 e de 1 e que circula nos mesmos canais. Hoje, seja qual for o sistema, tudo anda no mesmo ritmo: na velocidade da luz.

Eis porque, assistimos à fusão das três máquinas: o televisor, o telefone e o computador. E a fusão-concentração de todas as empresas desses três setores. As firmas eletrônicas fusionam com as firmas do telefone, do cabo ou da edição para constituir megagrupos mediáticos integrados. Se a revolução industrial se produziu quando a máquina substituiu o músculo e a força física, na revolução tecnológica atual o que a máquina substitui não é mais o músculo mas o cérebro. A informática permite substituir funções cerebrais cada vez mais numerosas. A revolução tecnológica diante da qual estamos é uma cerebralização das máquinas. Atualmente é possível, graças à revolução numérica, colocar em rede máquinas cerebralizadas. Desde que uma máquina tem um cérebro, é possível conectá-la.

Todas as máquinas digitais do mundo podem ser conectadas. O sistema de comunicação cria uma rede, uma malha que abrange o conjunto do planeta, o que torna possível a troca intensiva de informações. Todo esse mundo novo fascina a escola e há 5 ou 6 anos, professores e educadores se perguntam como domar a Internet, ou temem ser domados pela Internet. Se as origens da Internet remontam ao fim dos anos 60, seu verdadeiro nascimento data de 1974, quando, respondendo a um desejo do Pentágono, universitários — a Internet nasceu na Universidade — estabeleceram a norma comum, permitindo associar todos os computadores e lhe deram um nome: Internet. Mas o desenvolvimento massivo da galáxia Internet é muito mais recente, data de fato de 1989 — ano-chave, com a queda do muro de Berlim — quando, em Genebra, pesquisadores do CERN criaram a World Wide Web, a “Rede”, baseada em uma concepção hipertexto que transformou a Internet em rede mais de fácil convivência.

Graças à Web, o número de computadores conectados no mundo duplica a cada ano, e o número de sites, a cada dois meses. Estima-se que em breve, haverá mais ou menos 800 milhões de usuários da Internet e que o tempo passado diante de uma tela de computador será superior, nos países desenvolvidos, ao passado diante da tela da televisão. Já é o caso de certos meios. Algumas crianças de hoje, em famílias com melhores condições econômicas, passam mais tempo diante da Internet que diante da televisão, ou de seu professor… Correio eletrônico, fóruns de discussão, documentação, informação, compras diretas e consultas de arquivos são os usos mais freqüentes; é rápido, fácil, interativo, e até agora, pouco oneroso.

Estruturada como malhas de uma rede, a Internet é muito resistente (foi concebida na época da guerra fria, para sobreviver a uma agressão nuclear). Diz-se que é “tão difícil de destruir quanto uma teia de aranha com uma bala de fuzil”. Seu protocolo é do domínio público e não pertence a nenhuma firma comercial. Indestrutível, descentralizada, propriedade de todos, Internet — utilizada sobretudo nos primeiros anos por professores universitários e meios da contra-cultura americana — fez renascer o sonho utópico de uma comunidade humana harmoniosa, planetária, em que cada um se apóia nos outros para aperfeiçoar seus conhecimentos e afiar sua inteligência.

Internet deixou pensar que se podia enfim se educar sozinho, diante de sua tela. Ou que um só professor via Internet ia poder educar milhares de jovens. Tinha se dito o mesmo a respeito da rádio e televisão. Não há dúvida que com Internet — mídia atualmente tão banal como o telefone — entramos em uma nova era da comunicação. Uma comunicação imperial cuja educação seria somente um aspecto.

Muitos consideram, não sem ingenuidade, que quanto mais comunicação terá em nossas sociedades, mais harmonia social haverá nelas. Enganam-se. A comunicação, em si, não constitui um progresso social. E menos ainda quando ela é controlada por grandes empresas de multimídia. Ou quando ela contribui em aumentar as diferenças e as desigualdades entre cidadãos, ou habitantes do mesmo planeta. A globalização dos mercados, dos circuitos financeiros e do conjunto das redes imateriais leva a uma desregulamentação radical. Com todas as conseqüências como o declínio do papel do Estado e dos serviços públicos. É o triunfo da empresa, de seus valores, do interesse privado e das forças do mercado.

Desde a segunda metade da década de 1990, organismos centrais da globalização, como a OMC, tornaram-se os lugares principais de debates sobre a nova ordem comunicacional. Classificada como “serviço”, a comunicação deu lugar ao enfrentamento direto entre a União Européia e os Estados Unidos, e a protestos cívicos de Seattle em dezembro de 1999, quando a OMC queria também classificar a educação como um “serviço”, o que pode fazer no mês que vem em Qatar na reunião de cúpula da OMC. Na ocasião desta divergência, observaram-se diferenças ainda maiores entre os ideólogos da mercadoria — como norma aplicável a qualquer produção — e os defensores das identidades culturais. O debate está longe de se encerrar.

A idéia central dos ultraliberais é a da necessidade de deixar acontecer a livre concorrência em um mercado livre entre indivíduos livres. Expressa-se mais ou menos nesses termos: “Deixem as pessoas se educarem como querem. Deixem-nas livres de apreciar. Vamos confiar no seu bom senso. A única sanção aplicada a um produto cultural ou educacional deve ser seu fracasso ou seu sucesso no mercado.”

Muitos dirigentes políticos não hesitam em fazer conclusões grandiosas: os cidadãos devem se preparar para mergulhar em um “mundo permeado pela informação.”Chega de obrigações e obstáculos que já pesaram tanto tempo sobre a educação, a cultura, a edição, o cinema, a indústria do som e do audiovisual. Não se pode ignorar que uma técnica nunca é neutra, que ela sempre vem acompanhada de um programa de transformação social, e que as grandes mudanças técnicas nos modos de comunicação e de educação, como os que a Internet impõe, são ainda mais carregados em ideologia.

Já se tem a prova disso, desde a mega fusão, em fevereiro de 2000, entre a firma America Online (AOL) e o conglomerado Time-Warner-CNN. Esse último é o primeiro grupo de comunicação planetário, e AOL, um portal de acesso ao Web, a maior empresa da galáxia Internet. Sua fusão constitui também um exemplo das aberrações do que sechama a “nova economia” (a atividade das empresas especializadas nas novas tecnologias da comunicação, da informação e da genética), pelo menos antes do krach do índice Nasdaq em abril de 2000. Com essa fusão, da Internet, até aí relativamente independente, tende a se tornar um elemento integrado no sistema mediático. E torna-se até uma ameaça para a mídia tradicional, na medida em que constitui uma plataforma integrando cada vez mais a televisão, o cinema, a edição, inclusive a edição escolar, a música, os videogames, a informação, os dados financeiros, o esporte, o banco pessoal, a compra de ingressos de espetáculos ou de passagens, a secretaria eletrônica, a meteorologia, a documentação, etc. Internet é hoje a única empresa integrada capaz de fornecer, 24 horas por dia, 7 dias por semana, informações, conhecimentos, documentação, distrações, lazeres, serviços e compras.

Com a fusão AOL-Time-Warner, a função comercial da mídia de massa está reforçada. Vender torna-se um objetivo central. Internet pega assim, cada vez mais, a forma de um centro comercial, um imenso centro comercial planetário. Transforma a mídia de massa em máquinas de vender todo tipo de produtos e serviços e, dentro desses serviços, a educação. Até hoje, dizia-se que a televisão tinha três funções: informar, educar e divertir. E a maior crítica que se faz da televisão, enquanto mídia de massa, é essa última função: divertir. O entretenimento podendo se tornar alienação, cretinização, embrutecimento. E levar à descerebralização coletiva, ao condicionamento das massas e à manipulação das mentes, principalmente dos jovens.

Hoje, o maior receio é que, com Internet, as três principais funções dessa nova mídia dominante passam a ser: anunciar, vender e vigiar. Anunciar porque a economia da Internet é essencialmente de natureza publicitária.

A cultura da gratuidade da rede é possível apenas porque anunciadores assumem os custos do funcionamento do sistema que este repercuta nas compras feitas pelos internautas. Vender porque este é hoje o objetivo principal da mídia Internet. Já era o da mídia tradicional quando fazia propaganda (nos jornais, na rádio ou na televisão). Mas a diferença capital é que com a outra mídia não se podia comprar diretamente. Se num jornal eu ver uma propaganda para um produto ou um serviço que me interessa, não posso adquiri-lo imediatamente através do jornal. Posso fazê-lo somente através de outro meio de comunicação ou outro intermediário: telefone, fax, correio postal, transporte para me deslocar, etc. Enquanto que com a Internet, a mesma máquina — o computador — que me permite navegar na rede, e entrar em contato com a propaganda, me serve diretamente para escolher, pedir, pagar, enfim, comprar o produto ou o serviço em questão. Vigiar porque cada manipulação na rede deixa uma marca. Aos poucos, o internauta, sem querer, desenha seu auto-retrato em termos de centros de interesses (culturais, ideológicos, lúdicos, de consumo…). E uma vez estabelecido esse retrato, não terá mais nenhum segredo para os donos da Internet que saberão o que ele gosta de ler, ouvir, assistir, beber, comer, consumir, etc. E poderão manipulá-lo a vontade.

Algo importante também hoje é o número de pessoas que usam uma mídia, ou o número de internautas que passam por um portal de acesso à rede. Esse número de fieis (pagando ou não) é atualmente a verdadeira riqueza de uma mídia. Mais do que seu conteúdo ou de quem a forma. É uma revolução COPERNICIENNE. Antes, a mídia vendia informação (ou entretenimento) a cidadãos. Agora, via Internet, vendem consumidores a anunciadores. E quanto mais alto estiver o número dos consumidores, mais alto será o valor dos anúncios publicitários…

Com isso, a informação pode ser oferecida gratuitamente. A mídia, na Internet, a oferecem como se fosse um produto de chamada: há atualmente mais de 3000 jornais em acesso livre e gratuito na Internet. Sem contar com os canais de rádio e de televisão. E se a informação está dada de graça, por que os patrões de mídia deveriam gastar muito para consegui-la? Não querem mais pagar muito por um produto que depois vão vender barato ou propor gratuitamente. Por isso, satisfazem-se cada vez mais com uma informação barata cuja qualidade não parou de cair, em qualquer lugar, nesses últimos dez anos. Conseqüência também da espectacularização e da busca do sensacionalismo a qualquer preço que podem levar a aberrações, mentiras e truques. Favorecendo novas manipulações da mente.

A mesma coisa poderia acontecer amanhã com a educação. Produzir por Internet uma educação barata que levaria a não precisar mais de dezenas de milhares de professores. Na época da Internet e do ciberespaço, outras questões de ética se colocam: a igualdade cultural ou a elevação educacional serão obtidas graças a esse novo milagre que é a Internet? Todos os seres humanos serão destinados a se tornarem cidadãos iguais do ciberespaço?

Segundo o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em 1999, a população mundial contava apenas 2,4% de usuários de Internet. Ou seja, 97,6% nunca tinham utilizado Internet! Eram apenas 0,8% na América Latina e nos Caribes; 0,1% na África sub-saariana; 0,004% na Ásia do Sudeste…

O mesmo relatório afirma: “até o momento, Internet é utilizada apenas por indivíduos relativamente bem abastecidos e instruídos: 88% dos internautas vivem em países industrializados que, juntos, representam apenas 17% da população mundial. As pessoas “ligadas”, dispõem de uma vantagem enorme em relação aos pobres que não têm acesso a esses meios e que, por conseqüente, não podem fazer com que sejam ouvidas suas vozes na conversação mundial. As redes mundiais ligam os que têm os recursos, e, silenciosamente, quase imperceptivelmente, excluem todos os outros…

O número de computadores pessoais em uso no mundo é de cerca de 200 milhões, para uma população global de seis bilhões de indivíduos. A possibilidade de acessar à Internet, portanto, é limitada a 3% de pessoas. Em 1999, apenas um pequeno número de países ricos, representando cerca de 15% da população mundial, possuía cerca de três quartos das principais linhas telefônicas, sem as quais não se pode praticamente acessar à Internet… Mais da metade do planeta nunca usou um telefone. Em quarenta e sete países, o quarto dos Estados no mundo, não há sequer uma linha de telefone para cem habitantes! Em toda a África negra, há menos linhas telefônicas do que na única cidade de Tóquio, ou do que na única ilha de Manhattan em Nova York… E não falamos do sub-equipamento em matéria de eletricidade (mais de dois bilhões de pessoas não dispõem de eletricidade no planeta). Ou da desastrosa situação em matéria de alfabetização.

Em janeiro de 2000, estimava-se que mais da metade dos computadores conectados à Internet pertenciam a norte-americanos. A linguagem dominante no ciberespaço? O inglês. A “fratura digital” e as disparidades sociais provocadas pela era da eletrônica podem ser comparáveis às desigualdades resultando dos investimentos financeiros transnacionais. Quanto às forças econômicas que tomaram conta das redes, estão se generalizando, e pior, reforçar os obstáculos impedindo o acesso ao comum dos mortais. Nos países pobres, nada menos do que vinte seis companhias de telefone foram colocadas a venda ao longo dos três últimos anos. A norma global do futuro? A propriedade privada de todas as estruturas que constituem a plataforma do ciberespaço.

Os gigantes das telecomunicações, tais como AT&T, Microsoft, AOL, Telefônica, etc. estão travando uma feroz competição, como se viu recentemente no leilão para a atribuição das licenças de telefonia em norma UMTS. Esperam fortemente colonizar o ciberespaço juntando a notoriedade de seu nome com as proezas de suas equipes de marketing, o que lhes fornecerá meios prodigiosos na área dos serviços de clientela e o controle da educação. E lhes permitirá pensar na conquista da Internet. Pois a batalha decisiva, à escala planetária, tem como meta o controle dos três setores industriais — computadores, televisão, telefonia — que estão fusionando agora na Internet. O grupo que reinará na Internet dominará o mundo da comunicação, da cultura e da educação de amanhã, com todos os riscos que isso supõe para a liberdade de espírito dos cidadãos e para a democracia.

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